Por ajuste, Dilma desmonta pilares do 1º mandato

Integrantes da equipe econômica querem aproveitar ao máximo esse momento favorável ao ajuste, já que não sabem quanto tempo durará

O segundo governo de Dilma Rousseff ainda não tem 20 dias, mas já registra recuos sobre pilares que sustentaram a política econômica até 2014: a defasagem do preço dos combustíveis, a redução artificial das tarifas de energia elétrica, a política de “campeões nacionais” do BNDES e os programas sociais de apoio aos trabalhadores. Na última sexta-feira, houve outro sinal importante: a Volkswagen reverteu a demissão de 800 funcionários, sem qualquer tipo de ajuda governamental, como era comum no passado recente.

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O personagem mais identificado com essas mudanças é o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Ele afirmou, por exemplo, que os preços dos combustíveis são decisão da Petrobrás, em contraste com a clara subordinação empresarial ao governo existente até o fim do ano passado.

O recado era, no caso, que a empresa não será forçada a reduzir o preço dos combustíveis por causa da queda na cotação do barril de petróleo.

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Levy também fechou a torneira do Tesouro Nacional para o setor elétrico depois de haver defendido, em diversas ocasiões, o “realismo tarifário” para um preço que ficou artificialmente contido nos últimos dois anos.

Seu discurso de posse, centrado no ataque ao “patrimonialismo”, mirou bilionários subsídios que o BNDES concedia a empresas “amigas”, a conhecida política de “campeões nacionais”. Ainda em 2014, o governo elevou o juro dos empréstimos concedidos pelo banco de desenvolvimento, o que trará alívio ao caixa do Tesouro mais adiante.

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E, contra a promessa da presidente de não mexer em direitos dos trabalhadores “nem que a vaca tussa”, Levy participou da elaboração final das medidas que restringiram a concessão de abono salarial, seguro-desemprego e um conjunto de benefícios previdenciários. Tudo isso sem precisar voltar atrás.

Guinada

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Mas ainda é cedo para concluir que Dilma se converteu às leis de mercado. A avaliação de integrantes do governo e de analistas externos é de que essas guinadas são explicadas pelo comprometimento da presidente com o ajuste fiscal.

Não há revisão de posição, e sim uma janela que se abriu para medidas de redução da intervenção estatal na economia provocada pelo seu custo.

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Integrantes da equipe econômica querem aproveitar ao máximo esse momento favorável ao ajuste, já que não sabem quanto tempo durará. A rotina tem sido submeter as propostas à presidente e, havendo sinal verde, correr para colocá-las em prática.

Foi assim, por exemplo, na decisão de deixar as tarifas de energia elétrica serem fixadas conforme seu custo. Estima-se que os preços da eletricidade subirão 30% ao longo deste ano, depois de passar os anos de 2013 e 2014 rebaixados artificialmente, à custa de recursos do Tesouro Nacional.

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Outro caso é o das medidas trabalhistas. Contrariando o que Dilma havia acertado com as centrais sindicais, elas foram divulgadas sem uma negociação prévia com os trabalhadores. Por duas razões: era preciso editar as Medidas Provisórias ainda em 2014 para a vigência em 2015, e porque havia temor de um recuo da presidente.

“Isso tudo é impressionante, mas eu estaria mais feliz se metade do que o Joaquim Levy diz tivesse saído da boca da presidente”, diz o economista Mansueto Almeida, que participou da elaboração do programa de governo do candidato do PSDB à presidência, senador Aécio Neves. Sem estarem associadas à imagem da presidente, avalia, essas medidas ficam fora do contexto político.

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Idas

Menos impressionado está o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. “Existe uma tendência, que atravessa governos, de liberalização em combustíveis, energia e concessões”, diz. “Mas há idas e vindas.”

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No fim do primeiro governo Dilma, por exemplo, a balança pesou mais para o uso desses preços como instrumento de combate à inflação. “Mas essa é uma característica das empresas que têm o governo como acionista.”

De toda forma, o analista avalia que esse é um dado importante, assim como ocorreu no caso das tarifas de energia. “Neste primeiro semestre, são importantes os sinais de que a política fiscal vai acontecer”, afirma. “Não sou ingênuo de achar que está tudo resolvido, mas o sinal existe.”

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Um teste importante para as medidas impopulares deste início do governo de Dilma ocorrerá nesta segunda-feira.

As restrições ao abono, seguro-desemprego e benefícios previdenciários serão discutidas entre governo e centrais sindicais, em São Paulo. Participarão os ministros da Secretaria Geral, Miguel Rossetto; do Planejamento, Nelson Barbosa; e do Trabalho, Manoel Dias.

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Não será tarefa fácil, já que os sindicalistas pretendem se organizar para pressionar contra essas medidas no Congresso Nacional, onde o pacote será votado a partir de fevereiro.