Interferência de Bolsonaro provoca queda de braço com Moro e Polícia Federal

"Quem manda sou eu, vou deixar bem claro. Eu dou liberdade para os ministros todos, mas quem manda sou eu", afirmou o presidente nesta sexta-feira (16).

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17 AGO 2019Por Folhapress14h08
Moro também tem sofrido seguidas derrotas no Congresso, onde tramita seu pacote anticrime.Foto: Arquivo/Agência Brasil

Os gestos de interferência do presidente Jair Bolsonaro (PSL) na chefia da Polícia Federal no Rio abriram uma crise e deram início a uma espécie de queda de braço entre o Palácio do Planalto, o órgão e o ministro Sergio Moro (Justiça).
Desde a manhã de quinta-feira (15), o presidente tem dado sinais de intervenção na PF, o que causou perplexidade e desconforto à corporação.

Em pouco mais de 24 horas, Bolsonaro demitiu o superintendente do Rio, Ricardo Saadi, que sairia por vontade própria nas próximas semanas, contestou o novo nome, de Carlos Henrique Oliveira, que já estava escolhido pela direção-geral, e praticamente deu como certa a nomeação para o cargo de um delegado com quem tem contato desde que foi eleito –Alexandre Silva Saraiva.

"Quem manda sou eu, vou deixar bem claro. Eu dou liberdade para os ministros todos, mas quem manda sou eu", afirmou o presidente nesta sexta-feira (16).

"Quando vão nomear alguém, falam comigo. Eu tenho poder de veto, ou vou ser um presidente banana agora?", disse.

As manifestações mostraram, na avaliação da cúpula e de dirigentes experientes da PF, uma interferência que há muito tempo não ocorria.

O discurso que tem sido usado internamente é que será inaceitável se não houver a nomeação de Carlos Henrique Oliveira, o escolhido da direção-geral da PF, para o comando da superintendência no Rio.

Dirigentes da polícia avaliam que Moro precisará arbitrar o conflito, determinante para o futuro da polícia.

A PF é subordinada ao ministro da Justiça, enfraquecido em meio à divulgação de mensagens obtidas pelo The Intercept Brasil que mostram sua atuação em parceria com os procuradores em diferentes processos da Lava Jato e que colocaram em xeque sua atuação como juiz federal.

Moro também tem sofrido seguidas derrotas no Congresso, onde tramita seu pacote anticrime.

O ministro não comentou a crise com a ingerência na PF –calou-se quinta e sexta, publicando mensagens no Twitter sem relação com o tema. Além disso, segundo as agendas oficiais de Moro e de Bolsonaro, eles não se encontraram.

Há cerca de duas semanas, ambos se encontraram para uma conversa no Palácio da Alvorada. Segundo relatos de conhecidos de ambos, a reunião acabou aos gritos, com Moro deixando a residência oficial do presidente.

A PF, em nota, rebateu na quinta as declarações de Bolsonaro e negou que a troca de comando no Rio fosse por problemas da chefia, mas sim por "desejo manifestado, pelo próprio policial, de vir trabalhar em Brasília". O presidente havia citado questões de "gestão e produtividade".

A PF do Rio passa por momento delicado, especialmente após o caso Fabrício Queiroz, PM aposentado e ex-assessor de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Ele é pivô da investigação do Ministério Público do Rio que atingiu o senador e primogênito do presidente.

A apuração começou após um relatório do governo federal ter apontado a movimentação suspeita de R$ 1,2 milhão na conta do ex-assessor do filho do presidente na Assembleia Legislativa do Rio, de janeiro de 2016 a janeiro de 2017.

Esse caso especificamente não está com a PF, mas há investigações que podem envolver os mesmos personagens.
Por exemplo, a apuração sobre a natureza de supostos elos entre milícias do Rio e a família de Bolsonaro, por meio do caso Queiroz, que teve papel de destaque na demissão de Saadi.

Bolsonaro vinha se queixando a interlocutores havia meses de que não confiava na atuação dele, que não tinha ingerência sobre nenhuma investigação envolvendo o clã Bolsonaro, mas que agia em sintonia com quem lida com o assunto.

A reportagem ouviu de um governista que o presidente considera o tratamento dado às investigações envolvendo seu filho Flávio direcionado para atingir sua imagem.

Se a escolha do ocupante do cargo de diretor-geral da PF é do presidente da República (considerada, portanto, política), as escolhas de cargos internos são da própria direção do órgão. A liberdade interna para nomeações e trocas é tida como um princípio para blindar a polícia de pressões externas em sua atuação e nos trabalhos de investigação.

Nesta sexta, horas depois de dizer que é ele quem manda, Bolsonaro arrefeceu e disse "tanto faz" para quem vai ser o comandante no Rio. Ele, no entanto, manteve o que chamou de "sugestão" de Saraiva para o cargo. "Tanto faz para mim. Eu sugeri o de Manaus, se vier o de Pernambuco tudo bem para mim."

Nome do presidente para a chefia do Rio, Saraiva está na Superintendência da PF no Amazonas desde 2017, escolhido pelo então diretor-geral Leandro Daiello –que deixou o cargo no fim daquele ano, sendo substituído por Fernando Segovia.
Quando foi eleito, Bolsonaro teve uma conversa de cerca de três horas com o delegado em sua casa, em sondagem para o cargo de ministro do Meio Ambiente –Ricardo Salles acabou escolhido.

Já Carlos Henrique Oliveira, nome escolhido pela direção-geral, é atualmente superintendente de Pernambuco. Ele tomou posse em abril.

A direção da polícia planejava mandá-lo para o Rio em 2020, mas decidiu acelerar o processo quando percebeu que havia movimentação para substituição de Saadi, que já manifestava o desejo de sair.

Assim, no novo plano, a troca ocorreria em algumas semanas, mas foi antecipada pelo anúncio do presidente.

A situação entrou em banho-maria nesta sexta, com a ameaça de uma renúncia geral de superintendentes se Oliveira não for efetivado no Rio. Bolsonaro moderou um pouco seu discurso, dizendo que Saraiva seria uma sugestão, mas o impasse continua.

Em março do ano passado, o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) levou a uma investigação da Polícia Civil que acabou sob intervenção dos militares que comandavam a segurança no Rio por suspeita de tentar tirar do foco o papel de milicianos na execução dela e de seu motorista, Anderson Gomes.

Por determinação do Ministério da Segurança Pública e da Procuradoria-Geral da República, foi criado um grupo na PF para apurar a operação-abafa. O andamento dessa investigação, sigilosa e ainda em aberto, são um dos grandes mistérios hoje em Brasília. O que se sabe é que há uma montanha de sigilos telefônicos e fiscais quebrados à disposição dos investigadores.

Essa apuração, tocada de Brasília, trabalhou em coordenação com Saadi e com o Ministério Público do Rio. Enquanto isso, operações no estado jogaram luz sobre ações de milicianos e o gabinete de Flávio Bolsonaro, então deputado estadual (2003-18).

Os Bolsonaro negam quaisquer ligações com milícias, ainda que historicamente tenham sido defensores em tribunas do papel delas para conter o tráfico em favelas fluminenses.

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