Bolsonaro nega fome no Brasil e depois volta atrás

Depois de dizer que não existe fome no País, presidente da República ameniza a fala: 'Alguns passam fome'.

Comentar
Compartilhar
20 JUL 2019Por Folhapress09h34
Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) disse na sexta (19) que não existe fome no Brasil.

"Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí eu concordo. Agora, passar fome, não", disse em café da manhã com correspondentes internacionais.

"Você não vê gente mesmo pobre pelas ruas com físico esquelético como a gente vê em alguns outros países pelo mundo", disse o presidente, sem citar nominalmente as nações que mencionou na declaração.

A fala foi uma resposta do presidente a uma representante do jornal espanhol "El País", em Brasília, que disse que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, havia manifestado preocupação com a desigualdade no Brasil e quis saber que trabalho o governo tem realizado para reduzir a pobreza no País.

Mais tarde, ao fim de um evento em comemoração ao Dia Nacional do Futebol, o presidente amenizou a fala e reconheceu "alguns passam fome" e afirmou que era inadmissível isso ocorrer num país com as características naturais do Brasil.

Questionado se estava recuando sobre a afirmação de que não havia fome no Brasil, Bolsonaro se irritou. "Ah, pelo amor de Deus, se for para entrar em detalhes, eu vou embora. Eu não tô vendo nenhum magro aqui [entre os jornalistas]. Temos problemas no Brasil, temos, não é culpa minha, vem de trás. Vamos tentar resolver", afirmou.

"O que tira o homem e a mulher da miséria é o conhecimento, não são bolsas e programas assistencialistas. Nós temos que lutar nesse sentido, nessa linha, para dar dignidade ao homem e à mulher brasileira".

No café da manhã, Bolsonaro disse ainda que o Brasil é um país privilegiado e o que os Poderes Executivo e Legislativo podem fazer "é facilitar a vida do empreendedor, de quem quer produzir, e não fazer esse discurso voltado para a massa da população, porque o voto tem o mesmo peso", disse, criticando a política de bolsas de governos anteriores.

"É só as autoridades políticas não atrapalharem o nosso povo que essas franjas de miséria por si só acabam no Brasil, porque o nosso solo é muito rico para tudo o que se possa imaginar", disse.

Disse ainda que é o conhecimento que tira o homem da miséria - o que, pare ele, não foi bem cuidada nas últimas décadas. "A educação aqui no Brasil, nos últimos 30 anos, nunca esteve tão ruim", avaliou.

Segundo cálculo da "Folha de S. Paulo" com base em documento divulgado em 4 de abril pelo Banco Mundial, a crise econômica dos últimos anos empurrou 7,4 milhões de brasileiros na pobreza entre 2014 e 2017.

Com isso, houve um salto de 20,5% - de 36,5 milhões para quase 44 milhões - no número de pessoas vivendo com menos de US$ 5,5, ou seja, R$ 21,20, por dia.

O Banco Mundial também analisou a situação dos que são considerados extremamente pobres, precisando sobreviver com menos de US$ 1,90 (R$ 7,30) por dia, aproximadamente R$ 220 mensais a preços de hoje.

A fatia dos miseráveis entre o total de pobres do País saltou de 15,4% para 23% no período analisado.

De acordo com a Fundação Abrinq, que fez cálculos a partir de dados do IBGE, 9 milhões de brasileiros entre zero e 14 anos do Brasil vivem em situação de extrema pobreza.

Colunas

Contraponto