Ricardo Oliveira, Gabriel, Lucas Lima e Geuvânio foram peças importantes do elenco santista de 2015 / Divulgação/Santos FC
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Uma verdadeira montanha-russa, esse foi o ano santista de 2015. Da preocupação com o rebaixamento ao título. Da superação ao futebol arte. Da esperança à decepção. Ídolos que se foram, novos ídolos que se formaram. O time da Vila Belmiro acabou se tornando refém do próprio sucesso na temporada, mas, ao fim das competições, apesar de algumas lamentações, o que se fez foi um balanço positivo.
O Peixe não aguarda 2016 como gostaria. Pelo quarto ano seguido, a equipe está fora da disputa da Copa Libertadores da América. Por outro lado, entra na nova temporada com uma perspectiva esperançosa e um ânimo renovado, bem diferente do clima que estava instaurado no CT Rei Pelé no último janeiro.
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Confira a retrospectiva e lembre os principais pontos da campanha alvinegra em 2015, com fatos, depoimentos e opiniões de quem esteve no dia-a-dia do clube.
Debandada
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O 2015 do Santos começou em dezembro de 2014, na verdade. Eleições presidenciais, uma das mais aguardadas das últimas décadas. Odílio Rodrigues, para muitos o pior mandatário da história alvinegra, deixou o cargo de forma melancólica e ‘sumiu’ do clube e da cidade deste então. Modesto Roma Júnior foi eleito no maior pleito da história santista, com cinco postulantes ao cargo e, em janeiro, o filho de Modesto Roma, também ex-presidente do Peixe, percebeu que a situação era pior do que se imaginava.
Logo após a apresentação do elenco, jogadores decidiram cobrar os três meses de atrasos salariais, férias e FGTS na Justiça. Ao todo, 14 atletas deixaram o clube. Mena, Arouca, Matheus Índio, Renê Júnior, Felipe, Aranha e Leandro Damião perderam a paciência e saíram em clima de guerra com a diretoria e com boa parte dos torcedores. O capitão Edu Dracena também decidiu que era hora de mudar, mas buscou um acordo amigável. No entanto, o fato de se transferir para o arquirrival Corinthians fez com que a torcida não o perdoasse.
Modesto Roma Júnior não tinha muito o que fazer. Convenceu Lucas Lima e Alison a permanecerem na base da conversa “olho no olho” e incumbiu Dagoberto Santos, ex-cartola na gestão de Marcelo Teixeira, a buscar reforços sem custos para o clube. Chegaram Chiquinho, Elano, Valencia, Marquinhos Gabriel e Ricardo Oliveira. Segundo o mandatário, em uma ano, a economia seria de R$ 23 milhões.
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União e taça
“Esse time, pra mim, é para ser campeão, não para brigar pelo rebaixamento. É um elenco jovem, com jogadores mais experientes vinculados a estilo do Santos”, avisou Modesto Roma Jr, às vésperas do Campeonato Paulista. À época, o Peixe era visto como uma equipe que teria muitas dificuldades no Estadual mais disputado do país e com um futuro fadado ao fracasso nas competições nacionais.
Entretanto, mesmo após a saída de Enderson Moreira, que vivia em conflito com os jogadores revelados pela famosa base santista, Marcelo Fernandes assumiu o time a pedido dos atletas e conseguiu unir o grupo, fazendo com que todos acreditassem no título, antes impensável.
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Deu certo. David Braz, de contestado virou xerife; Renato conseguiu jogar sem incômodos de lesões; Lucas Lima se afirmou de vez e Robinho, acompanhado por Geuvânio e Gabriel, comandou o time junto ao artilheiro Ricardo Oliveira, que também retornou cheio de desconfiança e se tornou o melhor jogador do Estadual, encerrando a disputa com 11 gols marcados.
A coroação veio com um título dramático em cima do Palmeiras, com a Vila Belmiro lotada, após cobranças de pênaltis. Mais que a taça, a festa era uma resposta aos críticos que tanto ‘bateram’ no Peixe no início de tudo. A confiança havia voltado.
Erros do passado
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“Temos que aproveitar o fato dos rivais estarem na Libertadores para somarmos pontos neste início de Brasileiro. Desde que eu estou aqui, há cinco anos, em todos as temporadas, o Santos começa mal e depois faz um campeonato de recuperação. Os jogadores já estão cientes disso, e vamos buscar mudar essa história”. O discurso de Marcelo Fernandes mostrava a consciência da comissão técnica e a vontade de voltar a disputar o Brasileiro, campeonato que o clube já não brigava pela ponta desde 2007.
Porém, o plano fracassou mais uma vez. Depois de apenas seis pontos em seis jogos, o clube entrou na zona de rebaixamento. Fernandes não desistiu, mas, na 14ª rodada, já sem Robinho, o clube acumulava cinco rodadas na degola e estava longe de uma solução.
Um velho conhecido
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Com a água no pescoço, o Santos decidiu contratar um novo técnico. Dorival Júnior, que fora sondado quando Fernandes assumiu o time, voltou ao clube onde viveu sua melhor fase como treinador. Campeão Paulista e da Copa do Brasil em 2010 com o time da Vila Belmiro, Dorival ainda teria Marcelo Fernandes na comissão técnica, mas logo providenciou algumas alterações.
A defesa mudou, com Zeca na lateral esquerda e Gustavo Henrique no miolo. Paulo Ricardo ganhou mais chances e os atacantes foram intimados a compor na marcação. Assim, o novo técnico iniciou uma campanha de retomada, arrumando a defesa e transformando a Vila Belmiro no velho alçapão, onde o Peixe ficaria imbatível novamente.
“Acho que a alegria voltou. É fruto do trabalho de muita gente, que passa o dia todo dentro do clube, insistindo, procurando minimizar os problemas para que os jogadores estejam preparados e façam o melhor dentro de campo. Fico feliz de participar deste momento da equipe do Santos. Espero que não termine tão cedo”, disse Dorival Jr., depois da acachapante vitória por 3 a 1 em cima do São Paulo, que colocou o Peixe na final da Copa do Brasil. O G4 no Brasileiro também já era uma realidade, depois de cinco anos e um recorde negativo. Dorival, enfim, tinha arrumado a casa, e o Santos era apontado como uma das melhores equipes do País, junto com o Corinthians.
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Chuva e brejo
A fase era boa, a torcida estava empolgada, e o time sabia que impunha medo em muitos adversários, principalmente na Vila. Porém, a conta de um primeiro semestre muito abaixo do esperado chegou bem quando a equipe brigava para se manter no G4 e conquistar o título da Copa do do Brasil. O desgaste físico de seguidas partidas usando força máxima pesou, e Dorival teve de fazer sua escolha. Resolveu priorizar a competição por mata-mata e foi com reservas para o duelo diante do Coritiba, na antepenúltima rodada do Brasileiro. O plano não deu certo, e a derrota culminou no adeus ao G4.
Dorival ainda lembrou o fato de o clube ter jogador 11 partidas seguidas debaixo de chuva e chamou o gramado da Vila Belmiro de “brejo”, depois que a diretoria colocou todas suas categorias de base para jogar no estádio Urbano Caldeira. O técnico encerrou o ano invicto diante de seu torcedor, mas, com uma gramado impraticável, viu sua equipe empatar com o Flamengo antes de visitar o Coxa, em um jogo crucial para as pretensões do time no Brasileiro.
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“Nós viemos com o que tínhamos de melhor. Teremos uma decisão com o Palmeiras, e o elenco me pediu. Disseram que não tinham condições de jogar, e eu atendi. Acredito que tenha sido a melhor opção, mesmo com a derrota”, defendeu Dorival, diante das críticas pesadas da imprensa e da própria torcida, que via mais um Campeonato Brasileiro ficar para trás na reta final.
Decepção
O clima no Santos mudou muito em duas semanas. Os tropeços na Série A elevarem a pressão em cima do elenco pelo título da Copa do Brasil, àquela altura, a única esperança de recolocar o time na Copa Libertadores da América. Para piorar, a contragosto dos jogadores, o presidente Modesto Roma Jr fez força para alterar a data da primeira decisão e conseguiu. Com isso, ao invés de receber o Palmeiras no embalo que sua equipe tinha de um rival enfraquecido e com o moral lá embaixo pela má fase, o Peixe deu tempo para o Alviverde se recuperar e assumiu uma pressão que não existia anteriormente, pagando caro.
Em uma final truncada, de pouco futebol, Gabriel desperdiçou um pênalti, mas marcou o único gol do jogo, na Vila. Nilson teve uma chance incrível aos 49 minutos do segundo tempo, já sem goleiro, de dentro da pequena área, mas finalizou para fora. Após o apito do árbitro, ficou a sensação de que a vitória pelo placar mínimo era pouco, e o centroavante reserva viu ali seu vínculo com o Peixe se encerrar.
No Palestra Itália, o Santos não foi Santos. Ou melhor, foi o Santos do Campeonato Brasileiro, que, em nenhum momento, mesmo com a boa fase, conseguiu jogar fora de casa, terminando a competição por pontos corridos com apenas uma vitória longe de seus domínios (diante do Cruzeiro, no Mineirão). Depois de uma derrota por 2 a 1, novamente a definição do clássico iria para os pênaltis. E desta vez, com Fernando Prass brilhando, o Verdão se consagraria campeão, eliminando a chance do Peixe voltar à Libertadores.
Avaliação
A frustração e o gosto amargo ao fim da temporada estavam estampados nos rostos de cada membro da comissão técnica, de cada jogador ou dirigente. Mas, passado o calor da decepção, a avaliação foi positiva, lembrando que o ano começou de forma desastrosa. “Quem esperava que fossemos campeões paulistas, brigássemos pelo G4 e disputássemos a final da Copa do Brasil?”, comentam pessoas de todas as alas alvinegras. Agora, de olho em 2016, a diretoria tenta esquecer o ficou para trás e trabalha para suportar o assédio em cima de Gabriel, Geuvânio e Lucas Lima, principalmente.
“O nosso objetivo é manter esse grupo, o Dorival me disse que, com isso e mais alguns da base, ele se vira, foram as palavras dele. Agora temos jogadores querendo ficar no Santos, diferente do que acontecia, e isso é uma alegria grande”, ponderou Modesto Roma Jr., após cumprir seu primeiro ano de mandato.
“Eu vejo tudo pelo lado positivo. Eu começo pela dificuldade que foi o ano. Os jogadores todos saindo, uma dívida absurda, salários atrasados…e o presidente colocou a casa em ordem, conquistou o Campeonato Paulista, ficou entre os dez no Campeonato Brasileiro, quase chegou à Libertadores, brigou pela Copa do Brasil. A torcida do Santos tem que estar feliz. Lógico, fica aquele gostinho (amargo). Mas, “poderia”. Não chegou. Agora é trabalhar, ver o que aconteceu de positivo e negativo para não ocorrer em 2016”, comentou Léo, ídolo santista e que também passou pelo seu primeiro ano como cartola.