Primeira psicóloga de Neymar contesta Felipão: “Que loucura é essa?”

A psicóloga Sonia Román se revolta com a postura do técnico Luiz Felipe Scolari no comando da equipe

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03 JUL 201413h46

Com a experiência de quem conheceu Neymar nas categorias de base do Santos, a psicóloga Sonia Román se desespera quando assiste a alguns jogos da Seleção Brasileira  na Copa do Mundo. Não chega a chorar, como fizeram alguns jogadores em situações de extremo estresse, porém se revolta com a postura do técnico Luiz Felipe Scolari no comando da equipe.

“É claro que o Felipão precisa trabalhar o emocional dos meninos, e ele não entende nada disso. Que loucura é essa?”, comentou Sonia, em uma conversa por telefone com a Gazeta Esportiva. “O trabalho dos psicólogos esportivos está sendo atropelado. Chega o Felipão e dá um vídeo motivacional mostrando desgraças... É um perigo. Não dá para entender. Quando alguém está muito motivado, o hino gritado e as palavras de ordem não servem como incentivo. Isso é uma aceleração física, do sistema nervoso, e não um fator motivacional. Existe uma distorção. Se você está com medo, como reagirá com um Paulinho batendo no seu peito e te acelerando?”, argumentou.

O assunto mexe tanto com Sonia Román que ela tem disponibilizado vídeos na internet com as suas opiniões. Também interrompeu o seu almoço na cidade de Santos para conceder essa entrevista. E não se importou com o fato de Neymar dizer que as consultas com a psicóloga Regina Brandão, chamada às pressas por Felipão para controlar as emoções da Seleção Brasileira, terem sido as suas primeiras experiências com uma profissional da área.

Neymar chora depois da classificação do Brasil na disputa de pênaltis (Foto: Vipcomm)

“É normal. Como o Neymar é emocionalmente muito forte, ele acha que todo o mundo é igual. Talvez seja um erro. A maioria deles precisa de amparo psicológico, sim”, comentou Sonia, que trabalhou durante uma década nas categorias de base do Santos, tendo atendido também Diego e Robinho. Com Neymar, a quem chama de “xodó”, o apego foi tamanho que o atacante escreveu a seguinte declaração para o livro “Estou mais leve”, lançado por ela em 2011: “Sonia Román, uma pessoa maravilhosa que sempre nos ajudou. Agradeço a você por tudo que fez por mim e por todos os atletas que passaram pelo Santos. Que Deus abençoe a sua vida e te ilumine por onde você andar. Beijos”.

Hoje no Barcelona e distante da psicóloga que o atendeu na adolescência, Neymar diz aprovar e sair mais leve das consultas com Regina Brandão. Sonia Román gostou de ver o seu antigo paciente andar de bicicleta na Granja Comary no mesmo período em que a Seleção Brasileira voltou a contar com o amparo da psicologia. “Não sei se isso já é coisa da Regina porque não estou lá. Mas pode ser um bom sinal. Ele e os demais devem relaxar para alcançar a motivação ideal. É preciso desmotivar um pouco, mas não além do necessário”, comentou.

Até mesmo para Sonia, no entanto, Neymar já está suficientemente motivado para a Copa do Mundo. “Ele é um craque, alguém especial. Não precisa de muita coisa. Se eu estivesse lá, só trabalharia com o Neymar a questão da tolerância. Ele tem uma estrutura muito boa, estável, mas fica bravo quando está muito marcado e não o deixam jogar. O choro dele é um choro de nervosismo, de desespero por estar lutando e não conseguindo chegar aonde quer porque existe uma barreira do outro lado”, identificou.

A primeira psicóloga de Neymar avisou que o mesmo raciocínio não se aplica ao restante da equipe. “Os meninos estão apresentando um comportamento a cada jogo”, lamentou Sonia. “O Júlio César é tão perfeccionista que se cobrou para redimir um erro de quatro anos atrás, como se aquilo fosse uma mancha, o que não é. O ser humano não erra? Ele está trazendo toda uma ansiedade para si. Já o Thiago Silva chora porque tem medo de errar. Não se sentiu seguro para bater um pênalti. Pensou: ‘E se eu errar?’. O Hulk é a mesma coisa. Ouvi ele dizendo que deve errar bastante nos treinos para não errar no dia do jogo. Isso não é verdade. É mais um sinal de estresse”, analisou.

Com ponderações minuciosas, a psicóloga parece se sentir como Neymar quando está diante de uma defesa bem armada como a do Chile. “Vejo o Felipão dando a mesma palestra motivacional para um grupo todo, como se todos ali fossem iguais”, criticou mais uma vez. “Ficar de longe percebendo tudo isso, sabendo que é fácil arrumar algumas coisas, é torturante”, definiu Sonia Román, na condição de mais uma torcedora da Seleção Brasileira.