Papo de domingo: "Seleção depende de Neymar", afirma Clodoaldo

Ex-craque do Santos e da Seleção Brasileira acredita no hexa e diz ter certeza que o atacante do Barcelona fará uma grande Copa do Mundo

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11 MAI 201401h01

Campeão do mundo com apenas 20 anos de idade ao lado de Pelé, em 1970, em uma seleção que marcou história e ídolo do Santos, Clodoaldo fez uma análise exclusiva ao Diário do Litoral sobre a convocação do técnico Luis Felipe Scolari para o Mundial do Brasil, O ex-volante também falou sobre sua expectativa a pouco mais de um mês da Copa do Mundo, sobre o clima do país fora das quatro linhas e principalmente de Neymar, que na opinião de Clodoaldo, carrega toda a responsabilidade do eventual hexacampeonato da seleção brasileira.

Confira a entrevista completa:

Diário do Litoral - O que você achou a convocação do Felipão?

Clodoaldo - Não me causou nenhuma grande surpresa, penso que para a maioria, tanto da mídia, como do torcedor em modo geral, não causou surpresa. Foi uma convocação conservadora, de um trabalho que não vem de agora, de um trabalho do técnico Felipão, nós conhecemos ele, o trabalho dele, então, eu entendi conservadora porque na relação dos 23 jogadores ele tem uma preocupação de que numa eventual substituição de um atleta ele vai estar com o nível muito parecido. Tirando o Neymar, qualquer peça que ele peça mover vai ter uma característica muito parecida, por isso é uma convocação conservadora.

DL - O Henrique não foi uma surpresa?

Clodoaldo - O Henrique é o tal negócio. É uma surpresa de nome, em relação ao outro jogador, que é o Miranda que nós conhecemos aqui do São Paulo e voltou a jogar um grande futebol. Então, se você analisar a passagem do Miranda na sua passagem pelo São Paulo ele não fez um grande campeonato, mas hoje ele chama a atenção. O Henrique, mesmo na fase difícil do Palmeiras, o Henrique foi o grande jogador do Palmeiras na campanha para voltar da Série B. Você vê o momento, mas não vê a sequência. Mesmo assim é trocar seis por meia dúzia, não tem tanta diferença assim. Eu penso que a convocação do Miranda ou do Henrique não faz tanta diferença para a seleção, não faz tanta diferença jogar um ou outro.

DL - Quem teria condições de ser convocado e ser uma surpresa na lista de Felipão?

Clodoaldo - Me causaria uma surpresa, não pelo nome, mas teria fugido um pouco desse estilo conservador do Felipão o fato dele tirar um dos 23 jogadores, principalmente porque ele tem muitos jogadores que fazem mais de uma função, ele chamar Robinho ou Kaká. São jogadores de um passado brilhante, não do presente, mas talvez dentro de um grupo como esse, eles fizessem uma diferença. Não seriam seis por meia dúzia. Eles seriam mais importantes internamente.

Ex-craque do Santos está confiante na escalação de Felipão (Foto: Luiz Torres/DL)

DL - Felipão é o nome certo para dirigir a seleção brasileira em uma Copa do Mundo no Brasil?

Clodoaldo - A gente tem que admitir que o seu passado, tirando a Copa das Confederações, talvez ele não tenha obtido grandes resultados por onde passou, mas o seu histórico, a sua liderança, seu princípio, tendo ao lado dele não um técnico, mas uma pessoa com um passado como o Parreira, que pode auxiliar muito bem nesse conjunto de decisões. Então, acho que era o momento, está certo. Claro que, como os jogadores, nem sempre o técnico que vai é que o que está no melhor momento. O melhor momento dos técnicos no Brasil a gente sabe que era o Tite, mas esquecer o potencial e a capacidade do Felipão, não. Acho que a escolha foi acertada e a gente vai torcer.

DL – Você gosta do dito ‘estilo Felipão’?

Clodoaldo - Ele passa aquele ar de que já ganhou, isso logicamente é uma estratégia para o grupo dele. Acho que internamente o trabalho dele é um pouco diferente disso que ele passa para gente.

DL – Jogar o Mundial em casa pode trazer que tipo de pressão?

Clodoaldo - Eu acho que aumenta um pouco mais da pressão, claro, os jogadores têm a consciência que nós estamos jogando no Brasil. Mas acho que é uma grande oportunidade para o povo brasileiro, para fazer uma grande Copa, para o brasileiro mostrar o seu potencial em termos de organização. Embora tenhamos alguns questionamentos em termos de custos, que foi muito elevado para a construção de alguns estádios para a Copa do Mundo, alguns evidentemente a gente sabe que no futuro não sabemos nem como vai se sustentar porque a manutenção de um estádio é como você planejar ter um filho, enfim, é um planejamento. O único detalhe é que não houve essa preocupação de um planejamento futuro e o povo sabe, por isso questiona, faz protestos.

DL – Provavelmente teremos protestos nas ruas durante a Copa. Isso pode atrapalhar a seleção brasileira?

Clodoaldo - O protesto que a Copa pode sofrer não influencia em nada em termos de rendimento da equipe, do trabalho que está sendo feito, o jogador sabe que ele tem que respeitar qualquer protesto que seja feito de uma maneira pacífica. O jogador não vai estar alheia a tudo isso, é lógico que ele vai estar atento, mas ele vai tentar fazer seu papel, que é jogar futebol, ganhar os jogos e, se possível, dar a essas pessoas a oportunidade da alegria que é ganhar uma Copa. Eu tenho certeza que essas pessoas que estarão fazendo protesto, em uma conquista eles, como brasileiros, vão ficar felizes também.

DL – Você falou em organização. O país está preparado para receber uma Copa do Mundo?

Clodoaldo - Falar que não existe uma preocupação seria muito infantil da minha parte. Eu tenho viajado aquilo pelo Brasil, principalmente para participar de um projeto da Fundação Cafu, mas é preocupante. Eu, nessas viagens curtas que fiz, e olha que não gosto muito desse negócio de viajar de avião, fiquei muito preocupado com os aeroportos. A estrutura dos aeroportos me preocupou bastante, pelo que eu vi e pelo que eu passei.
Lógico que vai ter um trabalho diferenciado para as seleções, com as seleções acho que não teremos problemas, mas com o torcedor, acredito que isso vai trazer muitos problemas para aqueles que querem participar da Copa, que querem assistir os jogos aqui no nosso país.

Clodoaldo acredita que Neymar fará uma grande Copa do Mundo (Foto: Luiz Torres/DL)

DL - Qual a sua expectativa para Copa, quem você acha que deve brigar pela Taça?

Clodoaldo - Eu entro em uma linha conservadora também de estar pensando nas seleções que têm história com conquistas de Copa. Não vejo uma Copa aqui no Brasil com surpresa, principalmente se o Brasil for campeão. Eu penso que algumas seleções como Argentina, Espanha, Inglaterra, Alemanha. E depois, Itália, Portugal, Holanda, se fala muito em Bélgica. São seleções que, de repente, como a Copa do Mundo é uma competição curta, pode ser que uma dessas seleções que estou colocando dentro de uma segunda escala possa surpreender.

DL – Neymar é o melhor jogador brasileiro e a grande esperança do Brasil na Copa do Mundo. Ter essa responsabilidade aos 22 anos pode ser preocupante?

Clodoaldo - Eu entendo que é muito positivo porque o Neymar ao desembarcar no Brasil, ao pisar em solo brasileiro, ele sabe da importância que ele tem para o futebol brasileiro e para a seleção nessa Copa do Mundo. Ele, quando pisa em solos diferentes e entra em campo ele não sente esse peso e essa condição plena de que ele é o melhor, porque ele sabe que no Barcelona tem alguém que ninguém tem dúvida que hoje é melhor que ele, melhor que Cristiano Ronaldo: o Messi.
Mas essa figura muda no momento que ele pisar aqui no Brasil para jogar a Copa do Mundo.

DL – Você foi campeão do mundo em 1970 com apenas 20 anos.

Clodoaldo - Mas a minha participação, com 20 anos de idade em uma Copa do Mundo, é muito diferente da participação do Neymar. Quando eu fiz o gol contra o Uruguai, eu saí mais para o jogo porque o Gersão e o Carlos Alberto Torres chegaram em mim e falaram: ‘Clodoaldo, sai mais porque a gente vai ficar aqui segurando’. Mas, quando não acontecia esse detalhe, eu olhava para frente e pensava: o que é que eu vou fazer lá na frente? Eu tenho que fazer o meu papel’. Porque eu olhava para frente e tinha Jairzinho, Gersão, Tostão, Pelé e Rivelino. Seria muita ousadia minha, muita pretensão minha ir à frente.

DL - O Brasil depende muito do Neymar?

Clodoaldo - O percentual de responsabilidade que eu tinha era muito pequeno, agora, o percentual da participação do Neymar é decisivo para a conquista da Copa do Mundo pelo Brasil, isso eu não tenho dúvida e espero que ele esteja preparado para isso. O Brasil é muito dependente da participação do Neymar, isso eu não tenho nenhuma dúvida.

DL – Qual é o ponto forte e a principal fraqueza dessa seleção brasileira?

Clodoaldo - Eu acho que todos os setores estão muito equilibrados, a nossa zaga chega para essa Copa consagrada. Mas eu já cheguei a pensar em uma alternativa sem um homem fixo ou então torcer para que o Fred faça o que ele fez na Copa das Confederações. Tiveram alguns jogos que ele fez que eu mesmo já estava pedindo para que ele fosse substituído, mas ele vai de repente lá e faz o golzinho dele. É a marca do Fred, vamos torcer para que isso prevaleça na sua participação na seleção brasileira. Mas volto a ressaltar que até para uma boa participação do Fred, o Neymar é importantíssimo, ele é o nosso ponto de equilíbrio.