Após entrevista com a judoca Maria Suellen Altheman e o ciclista Gideoni Monteiro, o Diário do Litoral traz na edição de hoje um novo personagem que representará a Baixada Santista na disputa dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, a partir de agosto. Desta vez, o Papo de Domingo Olímpico é com o marchador Mario José dos Santos Júnior, nascido em Cubatão.
A história se desenrola entre uma infância pobre e a oportunidade depositada em esporte pouco conhecido entre os brasileiros. Assim como a vida, a marcha atlética, vista como a prova olímpica que mais castiga o corpo humano, não aliviou para Mario. Ele teve que lutar, superar barreiras, mas hoje, após mais de 20 anos de carreira, colhe os frutos de uma longa batalha.
Através da modalidade, o cubatense de 36 anos se livrou da fome, formou-se em medicina veterinária, aprendeu dois novos idiomas e teve a oportunidade de ajudar a sua família. Em agosto, nos Jogos do Rio, participará de sua terceira Olimpíada da carreira. Na vida, sem sombra de dúvidas, Mário é medalha de ouro. Acompanhe a inspiradora história:
DL- De que forma o esporte entrou na sua vida?
Mario José dos Santos Júnior – Eu sou filho de nordestinos e a família é bem grande. Então, tinha muita gente em casa enchendo o saco e minha mãe colocou a gente para praticar esportes, desde muito novo. Era a chance de nos ocupar com alguma coisa e dar um futuro para a nossa família.
DL- A marcha atlética foi a primeira opção?
Mario – Não! No início, me envolvi com artes marciais. Gostava de Karatê, Kick Boxer, mas o meu maior sonho era fazer judô. Vi o Rogério Sampaio em 1992 ganhando medalha para o Brasil e queria estar lá algum dia também.
DL – Por que não seguiu a trajetória no judô?
Mario – A minha família não tinha um centavo no bolso. Não tínhamos condição para comprar nada. Minha mãe disse: “O kimono é caro, mas, se você quiser, eu pego um saco de batata e faço uma calça para você jogar capoeira”. Me destaquei por um tempo, mas me machucava. A minha mãe me proibiu de praticar este tipo de esporte.
DL – Mas como apareceu a marcha atlética?
Mario – Minha mãe não queria que eu me machucasse e me colocou numa escolinha de atletismo. Participei de uma competição e fui o único atleta fora da briga por medalhas. Estava triste, mas um treinador me falou sobre a marcha atlética. Fiquei meio receoso no começo.
DL – Por qual motivo?
Mario – Nessa mesma competição, o treinador me apontou um menino marchando. Ele falou: “você vai fazer isso agora”. Eu pensei: “Não vou fazer isso aí não, pô! O que o meu pai vai achar se eu ficar rebolando assim?”. Mas teve um Estadual que renderia um patrocínio. Nunca tive roupa, nada… Minha família não tinha dinheiro. Foi a oportunidade da minha vida.
DL – Sofreu preconceito por conta da rebolada?
Mario – Nunca fui recriminado pela minha família. Com o resultado chegando, as vitórias e medalhas aparecendo, acho que quebrei a barreira do preconceito.
DL – Pode dizer que o esporte mudou a sua vida?
Mario – Com certeza! As pessoas me perguntam o porquê de marchar 50 km e eu respondo que, se pudesse escolher, seria o Romário. Ganharia milhões e dava apenas uns chutes. Mas o esporte que nos escolhe, né? A marcha me escolheu e ela foi fundamental.
DL – Conseguiu ajudar os seus pais e familiares?
Mario – Eu nasci preto, pobre e favelado. Tinha chance de seguir por um caminho errado, ou ser atleta. Há 20 anos, a única forma de crescer era através do esporte. Preferi esse caminho. Hoje ajudo os meus pais e me orgulho de dizer que tenho diploma de veterinária. Através da marcha, aprendi ainda dois idiomas e conheci vários países no mundo.
DL – De que forma se deu a sua profissionalização?
Mario – Quando eu tinha 15 anos, recebi uma proposta do São Caetano. Lá, participei de um projeto voltado para jovens atletas e morei na mesma casa que o Marilson. A partir daquela oportunidade que consegui me profissionalizar e ascendi na vida.
DL – Qual foi a principal medalha na carreira?
Mario – O divisor de águas da minha carreira foi a medalha de prata nos Jogos Pan Americanos, em Santo Domingo (2003). Ali mudou tudo. O menino que andava de bicicleta em Cubatão, que veio do nada, conseguiu chegar lá…
DL – E agora tem a terceira Olimpíada pela frente…
Mario – Eu participei das Olimpíadas de Athenas e Pequim. Em Londres, não participei, mas foi por uma sacanagem. Eu estava classificado, mas em cima da hora estabeleceram uns cortes no time brasileiro. Por conta disso, acabei ficando de fora.
DL – Sua família poderá assistir de pertinho…
Mario – Será muito especial. Vou conseguir dividir com meus familiares o que é uma Olimpíada. Fui para outras duas, mas nunca dividi a emoção. Eles estão com ingressos comprados, fretarão um ônibus e estarão lá na grade gritando meu nome. Vai ser um momento inesquecível na minha vida.
DL – De repente poderão vê-lo chegando ao pódio olimpíco…
Mario – Eu dependo muito do sol, calor e umidade. Se tiver aquele sol carioca, com alta temperatura, eu tenho chances reais. Nesse tipo de provas longas, se eu estiver no pelotão dos 10 melhores, posso brigar lá em cima. Mas, se esfriar, acaba favorecendo o pessoal que vem de fora. Se acontecer isso, ferrou. Sou bem sincero.
