Laor revela detalhes de seu livro com exclusividade

Em visita ao Diário do Litoral, o ex-presidente do Santos, com a saúde estabilizada, não fugiu de questões sobre Neymar, Ganso, Odílio e Damião

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12 DEZ 2015Por Diário do Litoral13h54
Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro visitou a redação do DLFoto: Matheus Tagé/DL

Na próxima quarta-feira, Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro completará 73 anos com a sua expectativa de vida renovada. “Estou fazendo fisioterapia três vezes por semana, religiosamente. Faço esteira, faço musculação, emagreci 40 quilos. Quase morri, estive desenganado, fui internado 14 vezes. Hoje me cuido, vivo a base de remédios e estou proibido de ir aos estádios, porque o futebol ainda me emociona”, revelou o ex-presidente do Santos.

Mandatário entre dezembro de 2009 e 2012, Laor, como é conhecido, marcou história no clube da Vila Belmiro por participar de seis títulos, comandar as ações que fizeram Neymar permanecer no clube alvinegro por mais tempo que se esperava, mas também ficou marcado por polêmicas com seu ex-vice-presidente, Odílio Rodrigues, desentendimentos com o grupo de investimentos DIS, principalmente durante a conturbada saída de Paulo Henrique Ganso para o São Paulo, e principalmente por tudo que envolveu a transação de Neymar ao Barcelona, que gera atritos com o pai do atacante até os dias de hoje.

Todas essas histórias motivaram Laor a escrever um livro. ‘Paixão e ousadia’, uma vida que vale a pena contar’ detalha todos os momentos da vida do ex-cartola e personagem público da história brasileira, e detalha as principais situações que marcaram seu mandato a frente do Peixe. Em campanha editorial da plataforma de financiamento coletivo Bookstart, o ex-presidente espera que as contribuições online realizem o seu sonho de lançar a obra.

Ao Diário do Litoral, Luis Álvaro Ribeiro não escondeu seu arrependimento por ter alterado o estatuto do clube, revelou uma mágoa por Neymar ter jogado a final do Mundial de 2011 já acertado com o Barcelona, condenou a contratação de Leandro Damião, lamentou seu racha com Odílio Rodrigues e garantiu não ter nenhum problema pessoal com Paulo Henrique Ganso. Confira a entrevista exclusiva na íntegra:

DL – O atual presidente do Santos, Modesto Roma Jr, tem a intenção de alterar o estatuto do clube e remodelar a função do Comitê de Gestão, criação sua. Você ainda acredita que esta fórmula de administração é a melhor para um clube de futebol no Brasil?

Laor - Não acho que seja o melhor modelo. Como tudo, você vai descobrindo defeitos. O estatuto que a gente aprovou com mais de 90% dos votos dos sócios, ele continha riscos que não nos demos conta à época que ele foi discutido. Talvez, o mais importante é esse que o Modesto (Roma Jr, atual presidente) se refere, a instituição do Comitê de Gestão. Foi uma deturpação do que é comum nas grandes empresas, que é o chamado Conselho de Administração. Se reúne uma vez a cada três, seis meses e traça as linhas que a empresa deve perseguir por um determinado período, mas não tem nenhuma função executiva. O executivo tem que ser autônomo para tomar as decisões no tempo certo. E o mecanismo do Comitê de Gestão trava a agilidade da gestão. Mas, pior do que isso, o voto do presidente que foi eleito é apenas um voto no meio de nove, sem poder de veto. Você se sujeita a uma decisão que contraria seus princípios, contraria suas perspectivas para o clube, porque você é minoria em um conselho que é essencialmente político. Se o Steve Jobs fosse santista e quisesse participar do Comitê e Gestão, na área de informática, ele não poderia ser, porque ele não é Conselheiro do Santos, que é um dos pressupostos para você ser do Comitê de Gestão.

DL – Isso atrapalhou muito sua gestão entre 2009 e 2012?

Laor - Atrapalhou, e muito. Você veja a diferença do meu mandato de dois anos em que a gente ganhou quatro títulos, reerguemos as finanças do clube, tivemos sempre patrocinador master na camisa. O que foi o primeiro ano do segundo mandato, lembrando de que eu fui eleito com 87% dos votos. Mas, à partir de 2012, o poder da presidência e a minha capacidade gerencial foram sendo mais minimizadas, ao mesmo tempo que meus problemas de saúde foram se agravando semana após semana. No fim de 2012, teve a decisão do Comitê de Gestão, que eu apoiei, e me afastei da presidência executiva do Santos. E fiquei como presidente em espécie de figura decorativa, porque não tinha mais condições de estra morando em Santos, sozinho, me alimentando mal, com absoluto excesso de peso.

DL – Depois de tantas desavenças públicas, como está sua relação com Odílio Rodrigues hoje?

Laor - Ela terminou. A última vez que eu vi o Odílio foi no final do ano passado. Eu vim para cá (Santos) para uma festa de despedida da minha ex-secretária. Eu estava entrando em um banco e o Odílio passou de moto por mim. Eu parei e falei ‘oi, Odílio’. Mas ele não parou e seguiu seu caminho. Nunca mais falei com ele. Não sei onde ele anda. Lamento pelo Santos. Mas uma coisa que precisa ficar claro é que as pessoas, por interesses políticos e mesquinhos, costumam juntar o meu período como presidente com o período do Odílio. Isso não faz o menor sentido.

DL – Como você enxergou a condução de Odílio durante as negociações que culminaram na venda de Neymar ao Barcelona?

Laor - Eu entendo que o Odílio, por mim designado, conduziu toda a negociação. E acho que ele fez o melhor possível para o Santos naquele momento. Lembrando que no ano anterior o jogador tinha desfalcado o clube em quase 50% dos jogos, por conta da Seleção Brasileira. E quando o jogador não quer mais jogar (pelo clube), não adianta você insistir, porque ele não vai jogar com o mesmo amor e mesma paixão que ele tinha antes. Eu perguntei ao Neymar onde ele queria jogar e ele me disse que era no Barcelona. Ali eu disse ao Odílio que, em condições de igualdade, o time da escolha do jogador tinha prioridade. Mal sabia eu que antes da final no Japão (Mundial de 2011) o pai já tinha se comprometido com o clube espanhol e recebido dinheiro. Nós jogamos a final com um jogador do Santos recebendo dinheiro do adversário.

DL – Você acredita que isso influenciou no desempenho de Neymar em campo, na decisão contra o clube espanhol?

Laor - Não tenho dúvida, não tenho dúvida. Influenciou o dinheiro no bolso o desempenho dele daí para frente no Santos. Não era o mesmo jogador brincalhão, que ia para cima dos adversários. Ele estava contando os minutos para poder sair.

DL – Você ainda tem o Neymar como ídolo?

Laor - Como jogador, sim. Eu torço para que ele vença a Bola de Ouro agora. Ele deu muita alegria para nós, santistas. Ele jogou um futebol inovador, me deu a chance de mostrar ao mundo que era possível, em um país em crescimento, você segurar um ídolo, como eu o segurei durante três anos. Ele nos ajudou a ganhar o Tri-Paulista, Copa do Brasil, a Libertadores, Recopa. Então, tenho a maior admiração pelo jogador de futebol, pelos gols e pela maneira que ele se identificava com a torcida.

DL – Contratação mais cara da história entre clubes brasileiros, Leandro Damião conseguiu uma liminar para se desvincular do Santos e o clube ainda está condenado a pagar aproximadamente R$ 65 milhões a Doyen Sports. Você concretizaria esta negociação, caso não estivesse afastado da presidência por problemas de saúde?

Laor - Se eu fosse presidente, jamais faria essa contratação. Principalmente com um investidor meio nebuloso, que tem sede na ilha de Malta. Ninguém sabe quem são os investidores. E eu, por princípio, não faço negócio com esse tipo de gente. Eu fui diretor do Banco Central, diretor do Banespa. Eu tenho uma preocupação aguda com quem eu vou fazer negócio. O Odílio entendeu que podia fazer a parceria, celebrou a contratação do jogador, que não desempenhou, porque já estava cantado de que ele não mais aquele jogador que havia servido à Seleção Brasileira, tinha muitos problemas físicos e no próprio desempenho em campo. É um centroavante a noda antiga. Eu não contrataria, mas Odílio é o Odílio e eu sou eu.

DL – Foi a pior contratação da história do Santos?

Laor - Eu não sei se eu teria a segurança para afirmar que foi a pior, mas com certeza foi uma das piores.

DL – Você sempre foi fã declarado do futebol de Ganso, mas acabou tendo muitos problemas com o meia em meio a saída dele para o São Paulo. No livro, você explica essa história?

Laor - Conto em detalhes. Conto, por exemplo, três episódios especiais meus com o Ganso. Quando ele teve aquela contusão em Porto Alegre, eu estava no estádio, me assustei muito, ele voltou para São Paulo, ficou internado no Einstein (Hospital Israelita Albert Einstein) e sofreu a primeira cirurgia. Uma das primeiras pessoas a visita-lo na sala de recuperação fui eu. Pelo apreço, pelo carinho, pela gratidão que eu sempre tive por ele, principalmente depois da final (do Paulista) de 2010, em que ele segurou o resultado com a sua competência e maestria. Foi o único jogador que foi jantar na minha casa duas vezes. E foi o único jogador do elenco para quem eu trouxe minha cozinheira, que também era paraense, para fazer um pato tucupi (típico prato amazonense), que, aliás, ele comeu três pratos fundos.

Então, minha relação ele era muito boa. O que tinha era que ele era muito influenciado pelos seus empresários (DIS). A gente estava rompido por conta de uma negociação feita pela gestão anterior, que a gente contestou na Justiça. Havia uma antipatia pontual. E o jogador, em um dado momento, manifestou a vontade de sair. E eu sou uma pessoa totalmente liberal. Eu disse que o liberaria, desde que os direitos do Santos fossem respeitados, ou seja, paga a multa estipulada no contrato. O São Paulo tentou barganhar, propôs R$ 12 milhões, eu não aceitei. Propôs 15, propôs 20... e eu avisei o falecido Juvenal Juvêncio. ‘Não adianta insistir. Você vai perdeu seu tempo. Eu não vou aceitar um centavo a menos do que a multa contratual. Se você quiser comprar, você venha à Vila Belmiro, porque eu não estou querendo vender, portanto, não vou ao Morumbi.

DL – A atual diretoria gostaria de trazer Ganso de volta ao Peixe, mesmo diante de uma rejeição de boa parte da torcida. A alegação é de que o problema do Ganso não foi com o Santos e sim com você.

Laor - De jeito nenhum. Eu nunca tive problema nenhum (com Ganso). Eu era o representante dos interesses do clube. Eu respeitei o fato do jogador não querer continuar e solicitei apenas que pagassem a multa. Não tem o que discutir. Não tem antipatia. Eu acabei de dar três exemplos da minha vida pessoal. Eu o recebi na minha casa. Eu não tinha problema nenhum de relacionamento com o Ganso. É que os empresários tinham problema de relacionamento comigo. Eu não aceitei os negócios que eles tinham feitos com a gestão anterior e fiquei marcado como inimigo do grupo que tinha o direito de empresariar o Ganso. Toda hora diziam, em termos de ameaça, que tinham propostas do exterior, e eu dizia: ‘tragam. Se atender o interesse do Santos, nós não vamos criar nenhum obstáculo para ele sair’. Eu não tive problema nenhum com o Ganso.

DL – Você acredita que o Ganso seria bem aceito em um eventual retorno ao Santos?

Laor - Acho que não. No futebol tem esse negócio de fidelidade. Quando você vê um jogador que foi criado no Santos, que teve todas as possibilidades para aparecer na mídia, foi convocado pela Seleção Brasileira... a torcida não admite a ideia dele vestir outra camisa , que não seja o ‘manto sagrado’. Então, qualquer ex-jogador do Santos é assim. Eu vejo o Arouca, por exemplo, que foi campeão da Copa do Brasil agora, eu o vejo com a camisa do Santos. Não consigo enxerga-lo vestindo aquela camisa verde. A torcida, que é passional, tem muitas vezes esse instinto.

DL – Depois de tantos problemas cardíacos, você conseguiu acompanhar a final da Copa do Brasil?

Laor - Tomei dois calmantes e assisti na minha casa. O que eu não consegui depois foi dormir. Fui dormir só às 6 horas da manhã.

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