Inauguração de arena em Itaquera encerra mais de 60 anos de promessas

Após 61 anos de promessas, eles verão com os próprios olhos um jogo de seu time naquela que promete ser a sua casa definitiva, na zona leste de São Paulo

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16 MAI 201411h33

O estádio de Itaquera não estará 100% pronto no domingo, mas mesmo os corintianos mais devotos a São Tomé do que vestidos e armados com as armas de São Jorge haverão de acreditar. Após 61 anos de promessas, eles verão com os próprios olhos um jogo de seu time naquela que promete ser a sua casa definitiva, na zona leste de São Paulo.

Data de 1953 o primeiro registro do Corinthians da necessidade de superar os limites do Parque São Jorge. Adquirido em 1926, por 750 contos de réis, pelo presidente Ernesto Cassano – com a Fazendinha ampliada e reinaugurada dois anos mais tarde –, e decisivo no progresso preto e branco, o terreno do Tatuapé ficou pequeno para o clube faz bastante tempo.

“Nosso campo, sejamos sinceros, não está à altura do Corinthians. É inadiável a construção de um estádio de verdade, do qual possamos nos orgulhar”, dizia o editorial publicado na revista “Corinthians”, órgão oficial do clube. O texto falava em uma equipe de engenheiros destacada para trabalhar no “espetacular estádio”, em uma amostra do que viria nas décadas seguintes.

Presidente no interminável período entre 1961 e 1971, Wadih Helu apresentou um dos vários projetos de arena. O esboço tinha até uma cobertura para o campo, algo então revolucionário. Depois, o dirigente mudou de ideia e falou em comprar o Pacaembu, plano que seria revisitado em várias oportunidades – até pela gestão de Andrés Sanchez, que acabou dando o passo final em Itaquera.

Na década de 1970, foi a vez de Vicente Matheus lançar novos planos de construção da casa própria. Seu devaneio inicial, um palco para mais de 100 mil pessoas no lugar da Fazendinha, acabou sendo trocado por outro. Para a arena de 200 mil espectadores, um enorme terreno foi cedido pela prefeitura, em 1980. Até o presidente Ernesto Geisel esteve presente na cerimônia de entrega do terreno.

Torcedores corintianos cobravam, na virada para o século XXI, o cumprimento das promessas (Foto: Reprodução)

Já na primeira metade da década de 1980, ressurgiu o plano de reforma da Fazendinha, que chegou a ser reinaugurada no início dos 1990, para um público inferior a 15 mil pessoas. Seguindo o ciclo, na extensa gestão Alberto Dualib (1993-2007), o Corinthians passou por três parcerias na gestão do clube e todas repetiram a promessa de um novo e grandioso estádio.

Andrés Sanchez sucedeu Dualib e teve algumas frustrações até que, com habilidade política, conseguisse começar a construção no espaço obtido por Matheus. A partida de domingo, contra o Figueirense, representará o fim de uma espera longa. E, em 12 de junho, quando o mundo olhar para Itaquera durante a abertura da Copa do Mundo, o corintiano poderá dizer: “Fique à vontade, a casa é sua”.

Inquilino, do lenheiro ao Pacaembu

Não existia uma associação do tipo Viva Bom Retiro, em 1910. Mesmo assim, nascido em uma esquina do bairro, o Corinthians incomodou muita gente em seus primeiros anos ali, sendo decisivo na popularização de um esporte que não era para pobres. “Time de carroceiros”, ofendiam os adversários, ajudando a fundir na alma alvinegra o orgulho de ser maloqueiro e sofredor.

A equipe já nasceu inquilina, alugando até 1912 “o campo do lenheiro”, um terreno na Rua dos Imigrantes (atual José Paulino) pertencente a um vendedor de lenha. No ano seguinte, Neco e seus companheiros passaram a disputar a Liga Paulista de Futebol (LPF), com jogos frequentes no Parque Antártica – que viria a ser do seu principal rival.

Foi em 1918 que o Corinthians teve a sua primeira casa. O campo da Ponte Grande, onde hoje fica a Ponte das Bandeiras, foi erguido em mutirão pelos próprios jogadores, então (muito) amadores. Lá, eles conquistaram 70 vitórias em 92 jogos, entre eles o que lhes rendeu o título de 1923, e ficaram até 1928, quando a Fazendinha foi inaugurada como sua casa.

Decisiva para o crescimento do clube como um todo – foi ali que surgiram a âncora e os remos do símbolo, menção ao remo praticado no Rio Tietê –, a sede na zona leste não foi suficiente. A partir da abertura do Pacaembu, em 1940, o estádio municipal foi aos poucos adotado como casa – alugada – dos alvinegros, agora de mudança definitiva para a sua ZL.