Goleiro Bruno é apresentado pelo Poços de Caldas e ovacionado pela torcida

Com contrato válido até janeiro, Bruno se recusou a responder questões sobre sua condenação e a prisão e projeta jogar até os 40 anos.

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05 OUT 2019Por Folhapress21h06
O goleiro Bruno em apresentação no clube mineiro.Foto: Divulgação/Internet

"A partir do momento que as pessoas passarem a conhecer o Bruno mais de perto, ver o ser humano que é o Bruno, tenho certeza que pode mudar a opinião de muita gente."

Assim o goleiro Bruno, 34, condenado pela morte da ex-namorada Eliza Samudio, ocorrida em 2010, respondeu a uma das perguntas feitas em sua apresentação neste sábado (5) pelo Poços de Caldas, clube que planeja disputar em 2020 a terceira divisão do Campeonato Mineiro. Além dele, só mais um jogador tem acima de 23 anos.

Com contrato válido até janeiro, Bruno se recusou a responder questões sobre sua condenação e a prisão e projeta jogar até os 40 anos. Em poucos momentos em que citou o passado, disse que está tendo uma grande oportunidade de voltar ao futebol e mostrar "esse novo eu".

A entrevista, realizada numa associação de policiais usada como CT pelo clube, foi precedida de momentos tensos. 

Primeiro, a assessoria do clube informou que Bruno não responderia nenhuma questão extra-futebol.

Depois, a advogada do goleiro informou ao clube que a TV Alterosa, afiliada do SBT em Varginha, não poderia fazer perguntas. Posteriormente, o microfone da emissora foi retirado da mesa em que estava, junto aos dos demais veículos de comunicação que cobriram a apresentação. Bruno alegou questões judiciais para a medida. A advogada do goleiro não quis comentar.

Ele, que chegou a obter anteriormente o direito ao regime semiaberto, havia perdido a progressão de regime em outubro de 2018, depois de ter sido flagrado pela Alterosa tomando cerveja com mulheres em horário em que deveria estar trabalhando.

O goleiro, que defendia o Flamengo, foi condenado a 20 anos e nove meses pelo assassinato da ex-namorada Eliza Samudio, ocorrido em 2010. Inicialmente, ele fora condenado a 22 anos e 3 meses, mas teve a pena reduzida em 2017, pela prescrição do crime de ocultação de cadáver.

Para poder defender o Poços, Bruno precisa de autorização judicial para percorrer os 153 km entre Varginha, onde mora, e Poços de Caldas.

"Espero obter autorização judicial para morar em Poços em janeiro, fevereiro. Quando fui contratado expus a situação ao presidente e eles concordaram que se tiver autorização ao menos três vezes por semana [para viajar]... Não vejo problema", disse.

Bruno afirmou ainda que tem muita lenha para queimar e que hoje há atletas jogando até os 40, 41 anos. "Tenho 34, a posição de goleiro ajuda, espero jogar muitos anos ainda."

A Justiça liberou a saída de Bruno de Varginha às 6h e abre exceção para que retorne à cidade às 21h  -pelas regras do semiaberto, deveria ter de estar em casa às 20h.

Questionado sobre as críticas que tem recebido -a sua contratação gerou memes e comentários negativos em redes sociais-, Bruno disse que isso funciona como combustível para motivá-lo.

O goleiro afirmou ter recebido outras propostas de clubes do Rio, Goiás e Brasília, mas optou pelo Poços pelo fato de o clube apresentar um desafio interessante. O salário é inferior a R$ 10 mil -o valor não foi revelado.

Nova chance Essa é a segunda tentativa de voltar ao futebol do goleiro, que em 2017 assinou contrato de duas temporadas com o Boa Esporte.

Mas, após dois meses defendendo o clube de Varginha, voltou à prisão por determinação do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

A contratação do goleiro fez o clube perder patrocinadores e ele chegou a ser agredido num jogo. Em campo, disputou apenas cinco jogos, com duas vitórias, dois empates e uma derrota. Sofreu quatro gols.
Bruno pôde voltar a jogar porque, em julho, uma decisão da 1ª Vara Criminal e de Execuções Penais da Comarca de Varginha permitiu que o goleiro voltasse ao regime semiaberto domiciliar.

Com a progressão, o goleiro fechou contrato com o time de Poços de Caldas, fundado em 2007.

Presidente do clube, Paulo César da Silva afirmou que recebeu sondagens de mais de 30 empresas interessadas em patrocinar o clube após a chegada de Bruno, mas não revelou nenhum nome. "Pensamos grande, queremos alçar voos mais altos."

Já o treinador Paulinho Ceará disse que a chegada do goleiro trará experiência a um time formado por atletas com idades de categorias de base, em sua maioria de Poços e cidades da região. "Queremos em três anos chegar à primeira divisão".

A estreia foi na tarde deste sábado, em amistoso contra o Independente Juruaia, no estádio Benedito de Oliveira, o Bandolão, com ingressos vendidos a R$ 10 e cerca de 200 pessoas na arquibancada.

O Poços venceu o jogo por 2 a 0, em confronto em que o goleiro iniciou no banco de reservas.

Quando entrou, errou duas saídas de bola, mas pouco foi ameaçado. Ao chutar uma bola, sentiu lesão na coxa direita. "Me preparei 60 dias para jogar, senti uma lesão mas não atrapalhou", disse o goleiro, que foi ovacionado pela torcida durante todo o jogo.

Bastava a bola ser recuada para ele ou ele bater um tiro de meta para os torcedores gritarem seu nome. Quando o jogo já estava 2 a 0, o Poços sofreu uma falta na entrada da área. A torcida gritou o nome do goleiro para que ele atravessasse o campo para bater, mas com os dedos ele fez gesto de que não iria.

Ao término do jogo, o atleta fez ao menos dez selfies com torcedores e, após pedido de sua assessoria, deixou o campo para retornar a Varginha dentro do prazo estabelecido pela Justiça.

Apenas um torcedor, do alambrado, gritou "cadê a Eliza?", e saiu rindo.