Fifa bane Marco Polo Del Nero, ex-presidente da CBF, do futebol

Segundo a entidade, a Câmara de Arbitragem do Comitê de Ética considerou Del Nero culpado por suborno e corrupção, oferecer e aceitar presentes e outros benefícios e conflito de interesse

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27 ABR 2018Por Folhapress13h55
É a primeira vez na história que um presidente da CBF é punido com a pena máxima pela FifaFoto: Ricardo Stuckert/CBF/Fotos Públicas

A Fifa anunciou o banimento do presidente da CBF, Marco Polo del Nero.

O comunicado foi feito na manhã desta sexta-feira (27) pela entidade que controla o futebol no planeta.

É a primeira vez na história que um presidente da CBF é punido com a pena máxima pela Fifa.

Segundo o comunicado da entidade, a Câmara de Arbitragem do Comitê de Ética considerou Del Nero culpado por suborno e corrupção, oferecer e aceitar presentes e outros benefícios e conflito de interesse.

Além da punição, o cartola terá que pagar uma multa de 1 milhão de francos suíços (cerca de R$ 3,5 milhões).

Desde dezembro, Del Nero estava afastado do cargo pelas acusações de corrupção feitas na Justiça dos EUA.

O cartola foi denunciado por participar de um esquema de recebimento de propina com cartolas da América do Sul na venda de direitos de torneios no país e na América do Sul.

A partir de agora, a CBF será comandada pelo paraense Antônio Carlos Nunes, o coronel Nunes.

No dia 14 de março, o ex-presidente da Federação Paulista de Futebol teve a sua suspensão prorrogada pela colombiana Maria Claudia Rojas, presidente da Câmara de Investigação do Comitê de Ética da Fifa.

Del Nero estava há menos de três anos no poder. Neste período, ele passou a maior parte do seu mandato se defendendo de acusações de corrupção.

O paulista era homem de confiança de José Maria Marin, ex-comandante da CBF, preso em maio de 2015 na Suíça após operação do FBI durante uma reunião da Fifa.

Em dezembro, Marin foi condenado por organização criminosa, fraude financeira e lavagem de dinheiro nos EUA

A pena só será anunciada em agosto. Mesmo assim, Marin já cumpre pena pena num presídio no Brooklyn, em Nova York. Del Nero é acusado pelos promotores norte-americanos dos mesmos crimes.

De todos os denunciados, o cartola paulista foi o último a perder o cargo.

Desde a prisão de Marin, ele nunca mais deixou o Brasil.

Del Nero é acusado pelos promotores norte-americanos dos mesmos crimes. Ele nega as acusações.

ANDANDO NA CBF

Mesmo afastado pela Fifa em dezembro, o dirigente praticamente ignorou a punição imposta pela entidade.

Nos últimos meses, ele manteve contatos diários com os integrantes da cúpula da CBF e articulou a sua sucessão.

No último dia 17, o diretor Executivo de Gestão da CBF, Rogério Caboclo, 45, foi eleito para substituí-lo a partir de abril de 2019. Caboclo é homem de confiança de Del Nero desde a federação paulista.

Nunes e Caboclo sempre rasgam elogios ao cartola banido pela Fifa.

Ao vencer a eleição, por quase unanimidade, na semana passada, Caboclo agradeceu o apoio de seu padrinho político.

Dos 67 eleitores, apenas Flamengo, Corinthians e Atlético-PR não votaram no dirigente apoiado por Del Nero.

No xadrez eleitoral da CBF, o dinheiro acabou ajudando a permanência do grupo político do cartola. A CBF repassa R$ 75 mil mensais às 27 federações e paga R$ 20 mil por mês a cada presidente.

O colégio eleitoral da CBF é formado pelas 27 federações e 40 clubes das Série A e B.

Mas as federações são maioria por causa do sistema de peso dos votos.

CPI E BENS

Del Nero foi investigado por uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), que encerrou seus trabalhos em dezembro de 2016 de forma inconclusiva: dois relatórios divergentes foram produzidos pela comissão. O texto oficial, do senador Romero Jucá (PMDB-RR), não pediu nenhum indiciamento como resultado das investigações sobre contratos e negociações da CBF e seus dirigentes.

Já o relatório "alternativo" pediu o indiciamento de Del Nero, Marin e Ricardo Teixeira, também ex-comandante da entidade.

No trabalho de cerca de mil páginas assinado pelos senadores Romário (Podemos-RJ) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Del Nero é acusado de lavagem de dinheiro, estelionato, crime contra a ordem tributária, crime contra o sistema financeiro nacional, organização criminosa e crime eleitoral.

Em abril de 2015, quando o cartola foi eleito presidente da CBF, a Folha de S.Paulo revelou que Del Nero e seu filho compraram do empresário Wagner Abrahão uma cobertura dúplex de mais de 300 metros quadrados por R$ 5,2 milhões na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio.

O apartamento pertencia a um das firmas dos filhos de Abrahão. O empresário faz uma série de negócio com a CBF. No acordo, Del Nero e seu filho repassaram ao empresário por cerca de R$ 400 mil e um saldo devedor (não revelado) uma outra cobertura no mesmo condomínio.

A negociação foi considerada suspeita pelo senador Romário, então presidente da CPI.

POLÍTICOS

Antes de comandar a CBF, ele foi presidente da Federação Paulista de Futebol por 12 anos, quando Eduardo José Farah deixou o cargo. Ele era então presidente do Tribunal de Justiça Desportiva.Advogado, ele era sócio do deputado federal Vicente Cândido (PT-SP).

No seu comando na CBF, Del Nero nomeou o ex-sócio como diretor da entidade. Cândido é diretor de Assuntos Internacionais.

Ele também deu um cargo na CBF para o deputado federal Marcelo Aro (PHS-MG), que agora ocupa a diretoria de Relações Institucionais. Em janeiro, mesmo afastado, Del Nero avalizou a contratação de Gustavo Perrella, ex-deputado estadual por Minas Gerais e filho do senador Zezé Perrella.

A CBF ainda conta com uma diretora de Assessoria Legislativa, que tem Vandenbergue dos Santos, aliado do senador Renan Calheiros (PMDB-AL), no comando.

Além de diretores ligados ao mundo político, a secretaria-geral é ocupada por Walter Feldman, ex-deputado federal por São Paulo.

STF

Nesta quinta-feira (26), o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Celso de Mello atendeu a um pedido da Procuradoria-Geral da República e enviou uma investigação sobre a cúpula da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para a Justiça Federal no Rio de Janeiro.

O inquérito apura suspeitas de crimes contra o sistema financeiro, sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, estelionato e falsidade ideológica, entre outros, supostamente cometidos por Del Nero, Teixeira e Marin.

A investigação começou na Polícia Federal no Rio em abril de 2017 e subiu ao Supremo três meses depois devido a suspeitas de envolvimento do deputado federal Marcus Vicente (PP-ES), que tem foro especial perante essa corte.

O inquérito no Rio foi aberto a partir do relatório alternativo da CPI do Futebol, de 2015, cujos autores foram os senadores Romário (Podemos-RJ) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Eles apontaram supostas irregularidades envolvendo a CBF e o Comitê Organizador Local da Copa 2014.