No início do ano de 2014, Lauro Chaman trabalhava em uma empresa de contabilidade, em Araraquara, e nas horas vagas se dedicava ao paraciclismo. Àquela altura a modalidade era mais uma paixão, um hobby.
Aos poucos, no entanto, ele foi somando grandes resultados competindo pela equipe Memorial, de Santos, e abandonou a profissão. Mal sabia ele que a rotina longe dos escritórios o colocaria na história do esporte paraolímpico nacional.
Se antes Chaman se dedicava à contabilidade empresarial, hoje ele exerce outra função: contabilizar medalhas.
Na Paralimpíada do Rio de Janeiro 2016 – a sua primeira na carreira – que chegou ao fim na última semana, Chaman conquistou o bronze na prova contrarelógio da categoria C-5, e a prata em resistência C-5.
Estes foram os melhores resultados do País na modalidade em toda a história. Antes, nenhum outro paratleta brasileiro conseguiu subir ao pódio do maior evento paraesportivo do mundo.
Foi a realização do sonho inesperado daquele funcionário, que até dois anos atrás, jamais imaginaria entrar na história do esporte canarinho.
Em entrevista ao Jornal Diário do Litoral, Lauro Chaman contou ainda detalhes sobre as provas que disputou, falou sobre o triste falecimento do atleta iraniano em circuito no Rio de Janeiro e ainda revelou emoção com o nascimento do filho, recém-nascido.
Confira a entrevista:
Diário do Litoral – Já caiu a ficha que você entrou para a história?
Lauro Chaman – Ainda estou assimilando tudo o que aconteceu. Há três anos, eu nunca imaginaria viver tudo o que estou vivendo neste momento. É mais do que um sonho. Não consigo explicar.
DL – O que essas medalhas ganhas representam para você?
Chaman – Convivi com atletas dos mais variados problemas físicos, mas continuavam dando o seu melhor, sempre com sorriso no rosto. Hoje, tenho orgulho da minha deficiência (pé torto congênito). O pessoal me zoava na escola, mas consegui superar tudo isso.
DL – Estas pessoas que o zoavam, hoje o aplaudem…
Chaman – Sempre corri mancando e o pessoal me zoava muito por isso. Era muito chato, mas fui me adaptando. Hoje, só tenho o que agradecer. Graças a essa deficiência virei um paratleta de alto nível e, hoje, posso dizer que conquistei duas medalhas históricas.
DL – Agora vive um clima de “popstar” com entrevistas, autógrafos…
Chaman – Muita gente está falando comigo através do Twitter e outras redes sociais. Conversei com o Ronaldinho Gaúcho, o Guga e ainda fui homenageado pelo presidente da República. Fico muito feliz pelo reconhecimento do meu trabalho e de toda a equipe brasileira.
DL – Muito foi falado também sobre a morte do atleta iraniano. Como você recebeu a notícia?
Chaman – Foi a corrida mais difícil da minha vida. Não vi o acidente, já que estava um pouco mais na frente. Soube depois que ele errou uma curva e acertou a pedra. Fiquei muito triste com a notícia. Desejo muita luz à família do Bahman (Golbarnezhad).
DL – Sentiu algum risco ao longo do percurso?
Chaman – É um circuito muito técnico, mas não vejo como perigoso. Eu mesmo passei reto em algumas curvas. Mas são coisas que acontecem no ciclismo. Acredito que foi uma fatalidade.
DL – De alguma forma isso o deixa temeroso para outras provas?
Chaman – Claro que não. Estou vivendo um momento lindo na minha vida. Além das duas medalhas, tive o nascimento do meu filho há dois meses. Está tudo lindo e perfeito.
DL – Terá muita história boa para contar para o seu filho, né?
Chaman – Cara, ele é um presente de Deus. Em 2006, no dia 9 de julho, perdi uma filha, que tinha apenas quatro meses de vida. Foi muito triste e fiquei mal por muito tempo. No mesmo dia 9 de julho, 10 anos depois, nasceu o meu filho. Suei muito, me esforcei muito, lutei muito e conquistei essa medalha para eles.
DL – Para completar o presente, agora falta a medalha de ouro, né?
Chaman – Com certeza! Espero que ela venha em 2020, nos Jogos da China. Já estou me preparando muito para isso. Mas, se o ouro não chegar, também vou ficar muito feliz com outras medalhas.
