A Copa do Mundo de 2026 ainda nem chegou à sua fase decisiva, mas já se consolidou como o palco de uma disputa que vai muito além do campo de futebol.
Com os Estados Unidos figurando como a principal sede do torneio, ao lado de Canadá e México, o presidente Donald Trump vem utilizando o evento de forma estratégica como uma oportunidade para reforçar sua imagem pública, ampliar sua visibilidade internacional e associar seu governo diretamente a um dos maiores espetáculos esportivos do planeta.
Os republicanos veem a Copa do Mundo como muito mais do que um jogo, dizem profissionais políticos e esportivos.
Para eles, é um evento internacional único na vida que pode reunir bilhões de espectadores, líderes globais, grandes patrocinadores e mídia de quase todos os países.
Para um político amplamente acostumado aos holofotes desde os tempos em que comandava o reality show “O Aprendiz”, a Copa representa o cenário perfeito para consolidar sua narrativa de liderança, poder e influência global.
Os bastidores do futebol como ferramenta de imagem
Em 2018, quando os Estados Unidos estavam disputando o direito de sediar a competição, o então presidente foi um participante ativo nas negociações nos bastidores da candidatura.
O governo americano mobilizou poderosos empresários e amigos próximos para avançar a candidatura à frente da FIFA. Entre esses nomes de peso estava também Robert Kraft, dono do time de futebol americano New England Patriots, amigo pessoal de Trump.
O esforço conjunto deu resultado e os Estados Unidos garantiram a realização daquele que promete ser o maior Mundial da história, com 48 seleções e um número recorde de partidas.
Desde então, a aproximação entre Trump e o presidente da Fifa, Gianni Infantino, tornou-se cada vez mais evidente, já que ambos compartilham uma visão semelhante sobre o potencial comercial e midiático do torneio.
Enquanto a entidade esportiva busca receitas bilionárias com direitos de transmissão, patrocínios e ingressos, Trump vê no evento a chance ideal de fortalecer sua própria marca política.

A estratégia presidencial diante dos holofotes
A Copa do Mundo, observam analistas, chega em um momento politicamente complicado para o presidente americano.
Pesquisas recentes mostram uma queda nas avaliações de aprovação do governo, enquanto episódios de rejeição pública, incluindo vaias marcantes em eventos esportivos, ganharam forte repercussão na mídia nos últimos meses.
É nesse contexto que a Copa do Mundo oferece uma grande oportunidade para reestruturar a imagem presidencial diante de um enorme público global.
Essa tática de diplomacia esportiva não é um fenômeno novo.
Ao longo da história, diversos líderes políticos utilizaram grandes eventos esportivos para projetar poder, modernidade e prestígio internacional.
Olimpíadas, Copas do Mundo e campeonatos continentais frequentemente funcionam como ferramentas políticas para governos interessados em ampliar sua influência e popularidade interna e externa.
O debate sobre a elitização e os custos do torneio
Outro aspecto que chama a atenção nesta edição é o custo elevado da experiência para os torcedores.
A Copa de 2026 deverá registrar alguns dos ingressos mais caros da história do futebol, impulsionados pela adoção de preços dinâmicos pela Fifa, um modelo de tarifação flexível bastante comum em eventos esportivos norte-americanos que elevou significativamente o valor das entradas.
Adicionando custos de passagens aéreas, acomodação, alimentação, transporte interno e questões de visto, especialistas dizem que a maioria dos turistas internacionais será forçada a desembolsar dezenas de milhares de dólares para acompanhar a competição presencialmente.
Este cenário financeiro restritivo provoca críticas contundentes de pesquisadores e órgãos associados ao acesso ao esporte, alegando que haverá um risco genuíno de elitização do público que frequenta os estádios.

As tensões migratórias e o controle de fronteiras
A rígida política de imigração dos Estados Unidos também tem sido central nas conversas em torno da Copa do Mundo.
O governo dos EUA, de muitas maneiras, intensificou os controles sobre a entrada de estrangeiros e expandiu dramaticamente os procedimentos para vistos para algumas nações nos últimos anos.
Essa postura tem levantado sérias preocupações entre organizações internacionais, principalmente em relação a torcedores comuns, profissionais da imprensa e até delegações esportivas que poderão enfrentar processos consulares muito mais rigorosos para ingressar no país.
Casos recentes envolvendo atrasos burocráticos, interrogatórios detalhados e dificuldades de acesso ao território americano alimentaram o debate sobre o sensível equilíbrio entre a segurança nacional e a tradição de abertura que normalmente acompanha grandes eventos esportivos.
A disputa final pela narrativa global
Com bilhões de telespectadores sintonizados ao redor do globo, a Copa de 2026 será, inevitavelmente, um marco tanto esportivo quanto político.
Para Trump, o torneio representa uma rara chance de ser associado a imagens de alegria, patriotismo e estatura global.
Para a FIFA, é uma oportunidade de impulsionar sua sorte, aumentar suas receitas exponencialmente e solidificar a presença do futebol no competitivo mercado norte-americano.
À medida que a bola rola nos campos, uma luta ainda mais feroz ocorre fora do campo também: a batalha pela narrativa de quem conseguirá dominar os holofotes do maior espetáculo da Terra.
Enquanto for ditado pela visão do presidente americano, a Copa do Mundo carregará não apenas uma imagem dos gols, das surpresas ou das equipes campeãs, mas sim como mais um capítulo de uma estratégia bem-sucedida que busca transformar grandes eventos em poderosas ferramentas de projeção política.
