Covid se espalha pelas escolas particulares de Santos

Professores revelam a imposição velada de não alertar sobre o contágio e afirmam que estão apavorados e sem alternativas

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07 MAR 2021Por Carlos Ratton07h07
É uma verdadeira 'corda bamba' entre a possibilidade de morrer calado ou perder o emprego na pandemiaÉ uma verdadeira 'corda bamba' entre a possibilidade de morrer calado ou perder o emprego na pandemiaFoto: /FREEPIK

A falta de fiscalização aliada à complacência de empresários da Educação para com alguns pais de alunos está fazendo com que as escolas particulares de Santos se tornem também ambientes propícios para a disseminação de Covid-19.

Essa semana, depois de ler reportagem do Diário sobre o drama de duas colegas - uma de creche em e outra de escola estadual - professores e professoras da rede privada resolveram se manifestar anonimamente por medo de perderem seus empregos.

A Reportagem também optou por omitir o nome das escolas, pois o que foi apurado é rotineiro, os educadores trabalham em mais de um colégio e conhecem outros que também se queixam da situação e trocam informações.

É uma verdadeira 'corda bamba' entre a possibilidade de morrer calado ou perder o emprego em plena pandemia por não aceitar o silêncio e se manifestar diante da tragédia sofrida por companheiros e companheiras de profissão.

Vale lembrar que, essa semana, duas escolas particulares do bairro do Campo Grande assinaram uma manifestação conjunta após o falecimento de uma professora em decorrência de complicações da Covid-19. Ela estava internada desde 13 de fevereiro. Esse silêncio só quebrado após a morte é um exemplo do que deve estar ocorrendo em inúmeras escolas.

RELATOS.

Um professor de uma escola no Embaré disse que há inúmeros colegas desesperados com medo de pegar Covid e de perder emprego. Segundo ele, a Direção da escola não se sensibiliza. "Salas lotadas, janelas minúsculas, ventilação inexistente, enfim, desesperador. Queria fazer denúncia anônima à Prefeitura, mas sei que não adianta nada, pois não fiscaliza", afirma o
educador.

O professor continua: "todo dia, alguém desaparece e nada é notificado. Aí passa tempo e se descobre que é Covid. Há um comentário que está cheio de casos em uma mesma sala de ensino fundamental e nada de avisar os funcionários".

Ele conta ainda que a gestão da escola ignora medidas de distanciamento e segurança. "A dificuldade de se manter os alunos utilizando a máscara corretamente tem sido cada vez maior. Ainda mais com salas cheias. Tem turma que parece que não tem mais ninguém online", relata.

DUAS ESCOLAS.

Outra professora que leciona em duas escolas particulares - uma no Embaré e outra na Ponta da Praia - desabafa: "embora a situação física das escolas seja diferente das públicas, estamos morrendo de medo. As salas possuem número elevado de alunos, sem o distanciamento mínimo. Controlar os adolescentes é extremamente
cansativo".

Ela explica que dar a aula híbrida - online e presencial - "é coisa de louco, pois damos aula ao mesmo tempo e, por causa disso, não conseguimos ajudar tanto os que estão perto, quanto os que estão longe. Não há como nos dividirmos. Os equipamentos, dentro do possível, ajudam, mas há a dificuldade de escutar, principalmente os que estão à distância. Quando acontece algum problema de conexão, somos responsabilizados", afirma.

A professora garante que estão acontecendo casos de infecção, mas as escolas não estão notificando e, por isso, não estão fechando por breves períodos. "Numa das escolas em que trabalho tem um monte de aluno infectado, claro que estão afastados, mas de acordo com as normas, a escola não deveria estar funcionando. Além da necessidade de comparecermos às unidades, temos que ir em reuniões pedagógicas. Um monte de professor em uma sala. Já estamos esgotados, sobrecarregados e com extremo medo", finaliza.

CAMPO MINADO.

Outro educador, que leciona em duas escolas, uma delas no José Menino, diz se preocupar com as aulas presenciais e que casos de contágio entre alunos e professores são um 'tabu'. "Sinto que falta transparência na comunicação sobre contágios. Tenho medo de contrair o vírus e de, eventualmente, transmiti-lo, uma vez que muitos infectados são assintomáticos", afirma.

Ele continua: "sinto como se eu estivesse sendo obrigado a seguir marcha rumo ao abatedouro. Nenhum professor jamais se negou a trabalhar durante todos esses meses, mesmo remotamente. E muitos, por medo de retaliação, aceitam a condição de risco iminente lecionando em aulas presenciais por medo de retaliação".

Finalizando, ele pede: "gostaria apenas que fôssemos tratados com a mesma dignidade de quem está na linha de frente nos hospitais. Pois frequentar escolas com tantas crianças que não respeitam distanciamento e protocolos em espaços fechados é como caminhar em meio a um campo minado", finaliza.

PREFEITURA.

A Prefeitura supervisiona apenas as escolas de educação infantil, que somam 81, sendo 37 subvencionadas. Eventuais irregularidades são acompanhadas, orientadas e, se for o caso, encaminhadas para providências. Mas não autua.

A notificação ao PSE é obrigatória a quem frequenta as escolas e cabe à Seção de Vigilância Epidemiológica a investigação os casos. Fiscalização e vistorias são realizadas com registro na Ouvidoria e não houve ocorrência este ano, diz.