Prefeitos planejam retorno às aulas presenciais por pesquisas e votos em São Paulo

Até terça (1º), a uma semana da data do retorno opcional para recuperação e atividades de acolhimento, 128 dos 645 municípios paulistas haviam confirmado ao governo que iriam liberar a volta

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03 SET 2020Por Folhapress19h04
A defesa da reabertura tem sido contundente pelo secretário de Educação de Doria, Rossieli SoaresFoto: Agência Brasil

A dois meses das eleições municipais, prefeitos do estado São Paulo têm se pautado em pesquisas de opinião pública e em cálculos políticos para decidir quando devem reabrir as escolas. Como a maioria dos pais se mostra insegura e os sindicatos dos professores pressionam pelo adiamento, prefeituras estão postergando a decisão, apesar de o governo estadual de João Doria considerar segura a volta gradual a partir do dia 8.

Até terça (1º), a uma semana da data do retorno opcional para recuperação e atividades de acolhimento, 128 dos 645 municípios paulistas haviam confirmado ao governo que iriam liberar a volta. Destes, apenas cinco já tinham publicado decreto (Itu, Sorocaba, Itapevi, Ribeirão Preto e Cotia).

Dúvidas em relação à contenção da pandemia e dificuldades financeiras para o preparo das escolas são colocadas como motivos do adiamento. Mas o cálculo político é admitido informalmente por candidatos à reeleição e assessores.

A maior parte das cidades elabora pesquisas com os pais, e não raramente definem assim o retorno. Em casos como da região metropolitana de Campinas, os prefeitos deixarão para os pais a decisão sobre a retomada, com enquetes feitas pela internet.

Na capital, o prefeito Bruno Covas, que seguiu a maior parte do Plano SP, no caso da educação foi mais restritivo, alinhando-se ao temor do eleitorado -uma pesquisa da prefeitura mostrou 80% dos pais contrários à volta. Após adiar o retorno parcial em setembro e colocar o de outubro em dúvida, já cogita deixar para 2021.

Esse desalinhamento de Covas com Doria, seu correligionário no PSDB, tem causado estresse nos bastidores. Não reabrir, afinal, é não endossar a análise do centro de contingência do coronavírus, tratado como "dream team" pelo governador nas entrevistas sobre a pandemia e do qual participa Edson Aparecido, secretário de Saúde da capital.

A argumentação da prefeitura tem como base o inquérito sorológico da rede municipal, que indicou que cerca de 20% dos alunos já foram infectados e quase 70% dessas infecções foram assintomáticas. Por isso, diz a prefeitura, haveria o risco de que se tornassem vetores de contaminação.

Mas há diferentes leituras dos resultados pela prefeitura e pelo estado, baseadas em pesquisas contraditórias sobre riscos de que crianças disseminem o vírus.

No centro de contingência, prevalece a interpretação de que os dados do inquérito sorológico não seriam impeditivos para a volta gradual proposta no Plano SP, com até 35% dos estudantes nas escolas. Essa visão tem sido discutida com a equipe de Covas, a fim de alinhar uma posição que não soe como contradição.

A defesa da reabertura tem sido contundente pelo secretário de Educação de Doria, Rossieli Soares.

No início desta semana, ele afirmou à Folha que "não podemos misturar as eleições municipais com essa decisão tão importante". Nesta quarta (2), na entrevista à imprensa com o governador, aproveitou a campanha de setembro amarelo, de prevenção ao suicídio, para abordar impactos emocionais do confinamento.

Paira ainda sobre a decisão a mudança da capital para a fase verde do Plano SP, que, se não for confirmada na reclassificação desta sexta (5), muito provavelmente o será na seguinte, dia 19. É a penúltima das cinco etapas, que pressupõe alto grau de controle da pandemia e libera praticamente todas as atividades.

No governo e na prefeitura, há quem defenda que soa incoerente apenas a educação não voltar quando shoppings já estão lotados. Covas avalia se, ainda assim, manterá o discurso de que o fechamento das escolas é necessário para o controle da pandemia.

A sensação de contrassenso entre escolas fechadas e o clima de retomada chegou a grupos de WhatsApp de pais, que até então compartilhavam majoritariamente conteúdos contrários à volta. Após o fim de semana com praias cheias, circulou meme com foto de banhistas aglomerados e o diálogo de uma família entre guarda-sóis: "Mãe, eu vou para a escola amanhã?"; "Não, filho, não é seguro".

Um integrante da equipe de Covas disse à Folha de S.Paulo que a batalha maior para a retomada da educação presencial não é mais a do controle à pandemia, mas a da comunicação. Seria preciso reconquistar a confiança dos pais e dos professores, após cinco meses dizendo para todos ficarem em casa.

Ainda que a capital caminhe para o controle, a população acompanha nos noticiários o número elevado de mortes no país. Para esse analista, os políticos não gozam de credibilidade para o resgate da sensação de segurança, e essa bandeira teria que ser levantada pela própria sociedade civil.

Instituições da área já começam a se manifestar, ainda que evitem citar datas.

Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann, afirma ser importante a noção de que não se pode esperar o risco zero. Para ele, deve-se considerar os riscos de manter as escolas fechadas mais do que o necessário, como o de evasão e o da saúde mental das crianças.

Heloísa Morel, diretora-executiva do Instituto Península, que desenvolve projetos para a melhoria da educação voltados para os professores, afirma que é preciso resgatar a confiança dos educadores. Uma pesquisa realizada de 20 de julho a 14 de agosto com 3.800 professores do país aponta que o nível de conforto em relação à retomada presencial, entre 0 para "nada confortável" e 5 para "muito confortável", está em 1,07.

"Além do medo da contaminação, há dúvidas sobre as mudanças de currículo para a recuperação e sobre o papel deles nos protocolos de segurança. É preciso um trabalho de comunicação e de acolhimento com os educadores para reduzir essa ansiedade."

Covas tem sido alertado que, até a hora da urna, com a pandemia provavelmente mais controlada, é possível que os pais estejam mais sensibilizados para os impactos do confinamento e que considerem a dificuldade de trabalhar sem ter onde deixar os filhos.

Mesmo prefeituras que já publicaram decretos liberando a volta são criticadas porque o aval foi dado apenas a estaduais e particulares, não para municipais. Em Ribeirão Preto, opositores do prefeito Duarte Nogueira (PSDB) relacionam a decisão ao período eleitoral, o que a prefeitura nega.

Ex-governador de São Paulo e pré-candidato à prefeitura da capital, Márcio França (PSB) afirmou à Folha que o adiamento por Covas mostra "falta de apetite para resolver as coisas". "Se a prefeitura tivesse preparado as escolas, os pais e os professores estariam mais seguros, e poderia haver a volta gradual."

Secretário municipal de Educação de São Paulo, Bruno Caetano diz que as escolas estão, sim, preparadas para o retorno em outubro, se a volta for considerada segura.

"Contratamos 2.000 educadores para substituir os que estão em grupos de risco. Já temos todos os EPIs [equipamentos de proteção individual] e estamos treinando as equipes para seguir os protocolos".

Edson Aparecido, secretário de Saúde da capital, disse que a educação se diferencia de outros setores porque as escolas envolvem maior circulação de pessoas, além do fato de as crianças assintomáticas poderem ser transmissoras.