Produção industrial cai 0,3% em abril

Na comparação com abril do ano passado, o tombo foi de 5,8%, o pior resultado desde setembro de 2009, segundo a Pesquisa Industrial Mensal

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04 JUN 201419h46

Os resultados da indústria brasileira em abril confirmam que o setor está longe de dar a volta por cima. A produção caiu 0,3% em relação a março, a segunda queda consecutiva. Na comparação com abril do ano passado, o tombo foi de 5,8%, o pior resultado desde setembro de 2009, segundo a Pesquisa Industrial Mensal divulgada nesta quarta-feira, 04, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A menor produção de automóveis e caminhões derrubou a fabricação de bens de capital e bens de consumo duráveis, mas as perdas foram disseminadas tanto entre as atividades quanto entre as categorias de uso. Mais de 70% dos produtos investigados tiveram recuo na produção, que está 4,5% abaixo do pico registrado em maio de 2011.

O mau resultado fez economistas revisarem para baixo a expectativa de expansão do setor para este ano. Alguns já esperam que o segmento derrube o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre. "A produção industrial vai puxar o PIB pra baixo neste trimestre", previu a economista do banco ABC Brasil Mariana Hauer, lembrando que o mês de junho também será prejudicado pela Copa do Mundo e feriados anunciados para a realização do evento.

A produção industrial caiu 0,3% em abril (Foto: Divulgação)

O índice de difusão, que mostra o porcentual de produtos com aumento na produção, caiu de 44% em março para 29,8% em abril, a menor taxa para a série histórica desse indicador, iniciada em janeiro de 2013. Além da piora no cenário, o resultado mostra que as perdas entre os setores são generalizadas. "De fevereiro para cá, claramente tem-se uma redução no ritmo da produção industrial. Você tem ali um número muito maior de produtos com taxas negativas", disse André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE. "O saldo dos últimos meses ainda é negativo. As perdas realizadas no fim de 2013 são muito mais intensas do que a leve melhora em janeiro e fevereiro. E esse comportamento negativo da produção em abril e março acentua mais essas perdas", acrescentou.

As perdas de abril sofreram influência de uma base de comparação alta e de dois dias úteis a menos no calendário, mas a retração também tem explicações conjunturais. A produção de veículos automotores despencou 21,3%, puxada por automóveis e caminhões. O setor automobilístico sofre com a redução da demanda doméstica e as dificuldades de exportar para a Argentina. Macedo lembrou que várias plantas industriais do setor registraram paralisações ou reduções de jornada, mas, ainda assim, permanecem com estoques acima do padrão habitual.

"A indústria brasileira está em crise e tal crise é manifesta pelo fraquíssimo e titubeante desempenho de seu setor nuclear - o de intermediários - e pela retração de seus setores mais dinâmicos - de bens de capital e de bens duráveis", definiu o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial.

A redução na confiança dos empresários também atrapalha a produção de bens de capital, apontou o economista Thiago Biscuola, da RC Consultores, que espera ainda um ritmo menor dos bens de consumo. "Como a confiança do empresário está no menor patamar desde janeiro de 2009, auge da crise internacional, os investimentos tendem a cair. Em relação aos bens de consumo, o varejo tem desacelerado, as famílias estão com a renda comprometida, os bancos estão mais cautelosos para conceder empréstimos", justificou Biscuola.

Diante do desempenho deste início de ano, a Tendências Consultoria Integrada reduziu drasticamente suas projeções para o PIB industrial em 2014, que passou de crescimento de 1,5% para apenas 0,1%, e para a Formação Bruta de Capital Fixo, que saiu de uma previsão de alta de 2% para retração de 1,1% no ano. "No curto prazo, as perspectivas não são favoráveis para a produção de bens de capital. O calendário de eventos deste ano (Copa e eleições) prejudicará a demanda por bens duráveis e implicará postergações de investimentos", alertaram os analistas Rodrigo Baggi e Guilherme Costa, da Tendências.