Impasse em relação ao aumento da gasolina derruba ações da Petrobras

A incerteza no mercado foi acentuada por declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que preside o conselho de administração da petroleira

Comentar
Compartilhar
26 NOV 201322h45

O impasse do governo federal em definir uma fórmula de reajuste dos preços de combustíveis praticados pela Petrobras foi punido nesta terça-feira, 26, por investidores na Bolsa, com a estatal despencando 6,4% no pregão da BM&F Bovespa. A incerteza no mercado foi acentuada por declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que preside o conselho de administração da petroleira, ao dizer que o governo ainda não chegou a um mecanismo para "eventual reajuste" da gasolina e do diesel. "Estamos discutindo com a diretoria e o conselho até amadurecermos uma fórmula considerada satisfatória", afirmou o ministro, que criticou uma solução que resultasse em indexação da economia. Segundo fontes, Mantega foi destacado como porta-voz da questão pelo Palácio do Planalto.

O mercado esperava o anúncio de um reajuste na semana passada, quando estava prevista uma reunião do conselho de administração da Petrobras. O encontro foi adiado para quinta-feira, 28, em meio a disputas internas opondo Mantega e a presidente da estatal, Graças Foster, que insiste na recomposição de preços para reduzir a exposição da estatal a dívidas e o descasamento entre os valores pagos na importação de gasolina e sua revenda no mercado nacional. Nesta terça Mantega argumentou que essa decisão não pode ser feita de improviso e exige cautela.

O ministro da Fazenda contesta a necessidade de um reajuste de olho no impacto de uma alta na inflação, já pressionada e acima do centro da meta de 4,5% definida pelo Conselho Monetário Nacional. "Tem que compatibilizar os interesses da Petrobrás com esses problemas."

O impasse em relação ao aumento da gasolina derrubou as ações da Petrobras (Foto: Divulgação)

Resistência

O Ministério da Fazenda resiste ao modelo proposto pela estatal, que prevê correções periódicas dos preços com base nas taxas de câmbio e nas cotações internacionais do petróleo. A presidente Dilma Rousseff e Mantega não gostaram também de a proposta ter sido divulgada pela empresa antes de sua aprovação pelo governo

Graça Foster informou no final de outubro, durante a divulgação de balanço da empresa, que a diretoria da Petrobras apresentou ao conselho de administração uma nova metodologia para reajuste dos combustíveis. A intenção, segundo ela, era dar maior previsibilidade ao alinhamento dos preços domésticos do diesel e gasolina e às cotações internacionais dos dois produtos. A estatal também já divulgou um fato relevante ao mercado informando que estudava a fórmula.

Em janeiro deste ano, o governo autorizou a Petrobras a aumentar em 6,6% o preço da gasolina e em 5,4% o do diesel. Depois disso, houve mais um reajuste, em março, no preço do diesel, de 5%. Circulam informações de que o próximo aumento poderá ser de 5% para gasolina e 10% para o diesel.

O economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, afirmou que espera um aumento de 4% da gasolina na bomba dos postos de combustíveis em 2013. "Na refinaria, isso significaria uma elevação de 5% neste ano, que para 2014 deverá atingir uma alta de 7%", comentou.

Perguntado se temia a volta do fantasma da indexação dos preços dos combustíveis, Goldfajn fez o seguinte comentário: "Fico mais preocupado com o fantasma dos preços defasados". "Mas como economista, o máximo que posso falar é da minha previsão sobre a alta do preço de gasolina para este ano e para o próximo", comentou.

Para muitos especialistas, como o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, a defasagem dos preços da Petrobrás é ruim por dois motivos: o primeiro é que comprime as receitas da estatal, o que prejudica o programa de US$ 236 bilhões em investimentos de 2013 a 2017. Em segundo lugar, gera uma inflação artificial, que pode ser eficiente para segurar os preços no curtíssimo prazo, mas não consegue conter o desequilíbrio entre oferta e demanda agregada.