Oriente Médio é responsável por 30% dos fertilizantes comercializados no mundo / Reproduçaõ/Freepik
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A escalada do conflito no Oriente Médio não se limita a pressionar as cotações do petróleo. Um novo impacto começa a preocupar produtores brasileiros: o aumento nos preços dos fertilizantes, especialmente os nitrogenados, essenciais para culturas como milho e soja.
A interrupção na produção e nas exportações de insumos na região reduz a oferta global e pode resultar, no curto e médio prazo, em alta nos alimentos que dependem desses insumos, incluindo carnes e ovos, de forma indireta.
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O Oriente Médio é responsável por 30% dos fertilizantes comercializados no mundo, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Com o Estreito de Ormuz praticamente fechado, o frete marítimo encarece e o custo de chegada dos insumos dispara. As interrupções também atrasam embarques, reduzem a oferta e aumentam a volatilidade dos preços, dificultando o planejamento dos agricultores.
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Dados do Rabobank indicam que aproximadamente 45% das exportações globais de ureia – principal fertilizante nitrogenado – dependem direta ou indiretamente de rotas ligadas ao Golfo Pérsico.
O Brasil é altamente dependente de insumos externos. Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), o país importa cerca de 85,7% dos fertilizantes utilizados na agricultura nacional. Em 2025, foram 43,32 milhões de toneladasimportadas, contra uma produção local de apenas 7,22 milhões de toneladas.
Os principais tipos importados são os nitrogenados, fosfatados, potássicos e NPK (composto dos três nutrientes). A ureia, um dos fertilizantes mais utilizados, já registra alta de 33% no preço (incluindo custo e frete) desde o início do conflito, de acordo com a CNA. A elevação está diretamente ligada ao aumento do preço do gás natural, matéria-prima essencial para sua produção.
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Dados do Insper Agro Global, com base no Trade Data Monitor, mostram que 15,8% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil em 2025 vieram do Oriente Médio. China, Rússia e Nigéria responderam por 70,4% desse volume. A ureia de origem nos países do Golfo representa cerca de 35% do total importado pelo Brasil.
Especialistas consultados avaliam que os efeitos mais críticos ainda estão por vir. Alberto Pfeifer, pesquisador do Insper Agro Global, explica que as safras em andamento contam com estoques já internalizados.
"Esse impacto viria na próxima safra de verão, cujo plantio começa em agosto. Até lá, vai depender da evolução do conflito", afirmou. Ele acrescenta que, nas culturas de soja e milho, os fertilizantes representam cerca de 40% do custo total da safra.
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Pfeifer também observa que os fertilizantes fosfatados já acumulam alta de aproximadamente 8%, uma vez que também dependem de gás natural em sua produção.
Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA, lembra que parte dos produtores já adquiriu insumos para a próxima safra, mas o prazo para garantir entregas costuma ir até junho. "Ainda há algumas semanas para avaliar se o conflito será encerrado ou como o mercado vai se acomodar", disse.
Ele alerta, no entanto, que países como Estados Unidos, Índia e nações europeias estão comprando nitrogenados neste momento, já que o plantio de milho nessas regiões ocorre antes do brasileiro.
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Nos EUA, a expectativa já era de redução da área plantada com milho por outros fatores. O encarecimento dos fertilizantes pode intensificar esse movimento, alterando a dinâmica internacional de preços de grãos.
Mauro Osaki, pesquisador do Cepea/USP, alerta que produtores que não conseguiram fazer a compra antecipada por dificuldade de crédito agora terão que enfrentar os novos valores.
"Culturas como trigo e cevada, que já vinham com rentabilidade negativa nas últimas safras, podem ser ainda mais prejudicadas. Quem não conseguiu comprar com antecipação pode colocar em xeque a decisão de plantar ou reduzir a área", explicou.
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Embora o Brasil possa buscar fertilizantes em outros mercados, o desafio é encontrar volume disponível, preço viável, frete competitivo e entrega no tempo certo. O advogado Marcos Pelozato, especialista em agronegócio, avalia que o cenário mais provável é o de pagar mais caro para redirecionar as compras, disputar carga com outros países e enfrentar atrasos logísticos.
"O maior risco para a população não é falta de comida no curto prazo, e sim comida mais cara. Quando um país importa 85% do fertilizante que usa, qualquer crise relevante em uma rota estratégica deixa de ser um problema distante e passa a ser um fator real de pressão sobre a inflação dos alimentos no Brasil", afirmou.
Pelozato destaca que hortaliças, legumes e parte do hortifruti podem sentir os efeitos primeiro, seguidos de grãos e derivados como milho, soja e trigo. No longo prazo, carnes, ovos e leite também podem ser impactados de forma indireta, já que milho e soja são a base da ração animal.
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O desenrolar do conflito nas próximas semanas será determinante para saber se o Brasil conseguirá atravessar mais uma safra sem sobressaltos, ou se o preço dos alimentos nas prateleiras será mais uma vítima da guerra.