Desancorada, inflação deve voltar a subir no segundo semestre

Os chamados núcleos calculados pelo BC estão rodando bem acima disso

Inflação alta volta a preocupar os brasileiros

Inflação alta volta a preocupar os brasileiros | MARCELLO CASAL JR / AGÊNCIA BRASIL

Os próximos dois meses trarão boas notícias para o comportamento da inflação, o que deve aumentar as pressões do governo Lula para que o Banco Central antecipe o corte da taxa básica, a Selic, hoje em 13,75% ao ano.

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O alívio, no entanto, será temporário e ocorre em um ambiente em que as expectativas do mercado sobre a capacidade de o BC colocar a inflação na meta estão desancoradas 24 a 36 meses à frente —como ocorreu em parte do governo Dilma Rousseff entre 2011 e 2016.

Embora a inflação oficial (IPCA) acumulada em 12 meses tenha recuado para 4,65% em março —e, na prévia para abril (IPCA-15), para 4,16%—, os chamados núcleos calculados pelo BC estão rodando bem acima disso.

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Um dos núcleos favoritos do BC, que elimina 40% dos itens pesquisados com variações extremas (20% em cada ponta da distribuição) e suaviza movimentos abruptos, fechou março em 7,51%, quase 3 pontos acima do IPCA. Chamado IPCA-MS, este é o núcleo que mais se aproxima, ao longo do tempo, dos resultados da inflação oficial.

Na pesquisa Focus do BC, o mercado estima que a inflação de 2023 será de 6,04%, acima da meta central de 3,25% e do teto deste alvo (4,75%). Se confirmado, será o terceiro ano seguido em que o Brasil estoura a meta de inflação.

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Se a alimentação no domicílio foi o principal fator inflacionário nos dois últimos anos, até começar a desacelerar em 2023, o segundo semestre será marcado por pressão maior dos preços administrados (como tarifas e combustíveis) e pela resistência ao juro alto no setor de serviços.

Na composição geral do IPCA, os alimentos têm peso de 13%. Serviços e preços administrados pesam 37% e 25%, respectivamente. Desaceleração menor ou alta nesses dos grupos, portanto, tendem a tornar a queda da inflação mais lenta.

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No caso dos serviços, que representam dois terços do PIB e que mais pesam no IPCA, a indexação de muitos contratos pela inflação passada (mais alta) seguirá alimentando o índice futuro.

“Durante a pandemia, a indexação em contratos como aluguéis e mensalidades escolares deu uma folga. Agora, ela voltou com tudo. Isso joga a inflação passada para o presente, retardando a queda de preços nos serviços”, diz Guilherme Moreira, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, da USP.

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André Braz, coordenador do IPC do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, afirma que, além da indexação e da resistência dos serviços ao juro alto, alguns preços administrados devem subir nos próximos meses.

Caso dos combustíveis, sobre os quais incidirá nos estados, em julho, a cobrança de ICMS sobre gasolina e etanol. Estimativas indicam alta de quase 12% no preço da gasolina, com impacto de 0,5 ponto a mais no IPCA de 2023.

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Vários estados também estão aumentando a alíquota do ICMS na energia para compensar perdas de arrecadação durante a mudança na tributação em 2022.

“O corte de impostos na corrida eleitoral em 2022 criou uma tremenda ilusão, mascarando a inflação. A conta vem neste ano”, afirma Braz.

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Além das pressões em alguns grupos de bens e serviços, especialistas apontam outros fatores, conjunturais e estruturais, que podem estar por trás da resiliência da inflação, apesar da carga de juros para esfriar a economia.

Para o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore, há uma inflação de demanda no país, “sem dúvida”, provocada pelos fortes estímulos criados por Jair Bolsonaro (PL) no ciclo eleitoral e ainda, em parte, presentes.

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Em fevereiro, por exemplo, o Índice de Atividade Econômica do BC registrou crescimento de 3,32% em relação ao mês anterior. Foi a maior taxa desde junho de 2020 (+4,86%). Nos serviços, taxa medida pela FGV subiu em abril ao maior patamar em cinco meses.

“Para trazer a inflação para a meta, a política monetária [efeito dos juros] teria de ser bem mais restritiva. Mas, quando o governo critica o Banco Central, acaba ajudando a desancorar as expectativas”, diz Pastore.

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“Se não fosse isso, a postura firme do [Roberto] Campos Neto [presidente do BC] estaria ajudando a trazer a inflação para baixo. Mas, com todos sabendo a opinião do governo sobre os juros, e o Campos Neto saindo do BC no fim de 2024 [quando termina seu mandato], para onde vão as expectativas de inflação no ano que vem?”

Segundo estudo de uma equipe de economistas, essas expectativas já estão desancoradas. Ou seja, o mercado não acredita que a inflação cairá para o centro da meta nos 24 a 36 meses à frente.

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No trabalho “Determinação de preços individuais quando as expectativas estão desancoradas”, os autores argumentam, a partir de pesquisas com o IPA (Índice de Preços do Atacado, que envolve cerca de 2.000 empresas), que os empresários tendem a repassar variações cambiais aos seus preços com muito mais vigor, por exemplo, quando não acreditam mais que a inflação atingirá a meta.

“A inflação está desancorada desde meados de 2021. Quando isso ocorre, há uma dispersão maior de expectativas, com muito mais gente apostando numa inflação acima do topo da meta, o que torna mais difícil o seu controle nos meses à frente”, diz Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro Ibre-FGV e uma das autoras do estudo.

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Outro problema apontado pelos especialistas refere-se ao chamado juro neutro, um nível de taxa que não pressiona e não desacelera a inflação. Em 2021, quando começou a subir os juros, o BC calculava a taxa neutra em 3% ao ano; hoje, estima em 4%.

Há quem a calcule em 5%, sobretudo por conta da alta dos juros internacionais e do aumento de estímulos fiscais em muitos países na pandemia; no Brasil inclusive, reforçados na eleição.

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Assim, descontando a expectativa de inflação e a taxa neutra maior, o juro real (acima da variação dos preços) estaria hoje menor do que muitos estimam. Isso reduz a potência da Selic, em 13,75% ao ano, no combate inflacionário.

“Quando a inflação fica elevada por muito tempo, ela demora a cair, e precisa de uma restrição monetária [juros altos] mais intensa e persistente”, diz Livio Ribeiro, sócio da consultoria BRGC e pesquisador do Ibre-FGV.

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Ribeiro lembra ainda que boa parte dos números relativamente positivos para a inflação gerados pelos cortes de impostos em 2022 começarão a sair em breve do cálculo da variação de preços em 12 meses.
“Isso morre em julho. Daí em diante, teremos números piores nos resultados em 12 meses”, afirma.