Déficit do governo pode ser bom, diz pioneira de teoria econômica

Stephanie Kelton, uma das pioneiras da teoria monetária moderna (MMT, na sigla em inglês), acha que o déficit de um governo pode ser uma notícia boa - sem se referir necessariamente ao Brasil.

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09 SET 2018Por Folhapress08h53

A palavra déficit, quando associada ao Brasil, tende a provocar inúmeras projeções pessimistas sobre a possibilidade de, em alguns anos, o país quebrar. Mas nem todos os economistas têm uma visão tão negativa.

Stephanie Kelton, uma das pioneiras da teoria monetária moderna (MMT, na sigla em inglês), acha que o déficit de um governo pode ser uma notícia boa - sem se referir necessariamente ao Brasil.

Professora de política pública e economia da Universidade Stony Brooks, em Nova York, ela foi economista-chefe da comissão de orçamento do Senado americano em 2015.

Também atuou como assessora econômica do democrata Bernie Sanders durante a disputa para ser o nome do partido na corrida pela Casa Branca -acabou perdendo para a senadora Hillary Clinton.

"Se o governo coloca mais na economia do que arrecada, se gasta US$ 100 bilhões e arrecada US$ 80 bilhões sob a forma de impostos, nós consideramos isso um déficit. Dizemos que o governo incorreu em um déficit de US$ 20 bilhões", diz a economista. "Não é isso. O que o governo fez foi colocar US$ 20 bilhões na economia."

Kelton admite que a tese pode gerar debates sobre para onde foi esse dinheiro, porque a teoria parte do princípio que esses recursos foram destinados para beneficiar a economia -e não para um empresário, por exemplo.

"O fato simples que importa é que o déficit do governo provisiona o resto da economia com moeda do governo", diz.

Essa é outra linha de pensamento da MMT, que afirma que um Estado nunca irá ficar insolvente, porque tem a capacidade de emitir sua própria moeda.

O controle da inflação que isso poderia gerar seria ajustado pelo orçamento, e não pela política monetária.

Aliás, a MMT considera que bancos centrais não deveriam perder tempo com o controle da inflação, e sim focar seus esforços na supervisão do sistema bancário.

Uma comissão orçamentária seria responsável por calcular a pressão inflacionária gerada pelos gastos do governo.

"O governo, quando estabelece um orçamento, poderia colocar quanto recurso quisesse na infraestrutura, educação e saúde. Mas teria de tomar cuidado para não colocar mais recurso do que a economia pode suportar, o que poderia provocar inflação", afirma.

Para ela, o controle do déficit não deveria ser visto como uma medida do sucesso econômico de um país.
"A medida do sucesso deveria ser o índice de Gini. O que está fazendo com a pobreza infantil, com o ambiente?", questiona.