Durante duas décadas, o agronegócio brasileiro cresceu impulsionado por um parceiro que parecia insubstituível. Somente em 2025, a China exportou 71% da soja produzida pelo Brasil e mais de 50% das vendas externas de carne bovina. A parceria consolidou-se como o principal destino dos produtos do campo brasileiro e um dos pilares da balança comercial do país.
No entanto, a dependência passou a ser vista como um problema pelo próprio governo chinês. No 15º Plano Quinquenal (2026-2030), Pequim elevou a segurança alimentar e estabeleceu metas para reduzir a necessidade de importações, ampliar a produção doméstica e acelerar investimentos em biotecnologia, mecanização e novas fontes de proteína.
Crise nacional?
A mudança acende um alerta no Brasil porque os números envolvidos são gigantescos. O país responde por mais de 60% da soja importada pela China e cerca de 40% da carne consumida pelo mercado chinês proveniente do exterior. Projeções do relatório China’s Food Future, da consultoria Systemiq, indicam que as importações de soja podem cair 25% até 2030, o equivalente a 23,5 milhões de toneladas por ano.
O volume representa quase um terço de toda a soja que o Brasil embarcou para a China recentemente. Caso confirmado, especialistas avaliam que o mercado internacional dificilmente conseguirá suprir essaoferta excedente. A medida deve pressionar os preços globais e reduzir as receitas dos exportadores brasileiros.
A estratégia chinesa vai além do aumento da produção agrícola. Por exemplo, o governo determinou que a participação do farelo de soja na alimentação animal caia dos atuais 14,5% para menos de 10% até o fim da década. A maior produtora de suínos do mundo, a chinesa Muyuan Foods, já economizou cerca de 31 kg por animal produzido, uma média de 5,7%, de redução.
Mercado local
Ao mesmo tempo, Pequim investe na produção de sementes geneticamente modificadas desenvolvidas localmente, na recuperação de áreas agricultáveis e em tecnologias capazes de elevar a produtividade do campo. O objetivo é garantir uma produção anual de 725 milhões de toneladas de grãos, mais que o dobro da colheita brasileira atual.
Ainda que a China enfrente limitações estruturais, a avaliação é que a tendência de redução da dependência externa já está em curso. Vale mencionar que o país concentra cerca de 15% da população mundial e possui apenas 8% das terras aráveis do planeta.






