Economia

Casas Bahia enfrenta atrasos a lojistas e gargalos logísticos em reestruturação

Os problemas operacionais incluem demora em repasses do marketplace e no uso dos Correios para acelerar entregas

Giovanna Camiotto

Publicado em 06/03/2026 às 15:15

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A Casas Bahia enfrenta atrasos no repasse de valores a lojistas e dificuldades logísticas / Wikipédia

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A Casas Bahia enfrenta atrasos no repasse de valores a lojistas parceiros do marketplace, dificuldades logísticas e postergação de pagamentos a transportadoras, em um cenário que evidencia desafios operacionais e financeiros da companhia. As informações foram reveladas em reportagem do Valor Econômico, que detalha problemas nas operações da varejista enquanto a empresa conduz um processo de reestruturação após entrar em recuperação extrajudicial em 2024.

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Segundo a apuração, gargalos logísticos passaram a surgir no fim de 2025, levando a empresa a utilizar a estrutura dos Correios para realizar entregas de produtos vendidos em sua plataforma digital. A decisão teria sido tomada após um aumento de demanda que não conseguiu ser absorvido dentro do sistema logístico tradicional da companhia.

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Embora tenham origens distintas, os atrasos nos repasses financeiros e os problemas de distribuição se cruzam e afetam a operação da rede. O cenário ocorre às vésperas da divulgação do balanço financeiro de 2025 da empresa, prevista para 11 de março.

Pressão de juros

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, o ambiente de juros elevados, próximos de 15% ao ano, pressionou as despesas financeiras da companhia e influenciou decisões de investimento ao longo de 2025. Nesse contexto, aportes em logística e distribuição teriam sido limitados.

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Entre janeiro e setembro de 2025, a Casas Bahia investiu cerca de R$ 18 milhões em logística, o dobro do registrado em 2024. Apesar do crescimento, o valor representou menos de 10% do total de R$ 245 milhões investidos pela companhia no período.

A reportagem também aponta atrasos de cerca de 60 dias no envio de produtos vendidos no último trimestre de 2025 dentro do sistema de fulfillment, modelo em que a empresa assume coleta, armazenamento e entrega de mercadorias comercializadas por vendedores parceiros.

Restrições de crédito de fornecedores também teriam impactado a disponibilidade de determinados produtos em estoque, reflexo ainda do processo de recuperação extrajudicial da companhia.

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Uma pessoa próxima à empresa afirmou que o forte desempenho do comércio eletrônico no fim do ano ampliou a pressão sobre a estrutura logística. “A questão é que o on-line foi muito bem no fim de ano, vendemos muito, é uma boa notícia e estamos já ajustando isso”, disse a fonte.

Entregas atrasadas

Os gargalos na distribuição também teriam provocado atrasos na entrega de itens de alto valor. Segundo um relato obtido pela reportagem, mais de 400 unidades do console PlayStation 5 estariam paradas no sistema logístico da empresa, mesmo após a venda.

Para tentar acelerar as entregas e evitar novos adiamentos, a companhia passou a utilizar os Correios para parte dos envios. “Há mais de 400 PS5 parados na logística, de vendas já feitas no ano, e eles estão mandando pelos Correios para evitar ainda mais adiamentos”, afirmou uma fonte.

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Segundo o mesmo interlocutor, as dificuldades refletem limitações estruturais e financeiras da empresa. “A questão é que falta infra e falta dinheiro para estruturar a fundo porque o foco é a dívida”, declarou.

Dados divulgados pela companhia indicam que, até setembro de 2025, o caixa gerado pelas atividades operacionais cresceu quase 50%, chegando a R$ 10,8 bilhões. No entanto, cerca de R$ 9 bilhões foram destinados ao pagamento de dívidas e juros, valor aproximadamente 40% superior ao registrado em 2024.

Problemas logísticos levaram a Casas Bahia a utilizar a estrutura dos Correios para acelerar entregas do marketplace/Wikipédia
Problemas logísticos levaram a Casas Bahia a utilizar a estrutura dos Correios para acelerar entregas do marketplace/Wikipédia
Vendedores parceiros relataram atrasos superiores a 30 dias no repasse de valores de vendas realizadas via Pix/Wikipédia
Vendedores parceiros relataram atrasos superiores a 30 dias no repasse de valores de vendas realizadas via Pix/Wikipédia
Empresa enfrenta pressão financeira após entrar em recuperação extrajudicial e renegociar bilhões em dívidas/Wikipédia
Empresa enfrenta pressão financeira após entrar em recuperação extrajudicial e renegociar bilhões em dívidas/Wikipédia
Gargalos na logística provocaram atraso no envio de produtos vendidos no fim de 2025/Wikipédia
Gargalos na logística provocaram atraso no envio de produtos vendidos no fim de 2025/Wikipédia
Reclamações de consumidores sobre a operação online cresceram nos últimos meses/Wikipédia
Reclamações de consumidores sobre a operação online cresceram nos últimos meses/Wikipédia

Atrasos no repasse a vendedores

Além das dificuldades logísticas, lojistas que vendem produtos no marketplace da empresa também relataram atrasos no recebimento dos valores das vendas.

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Fontes ainda relatam que houve casos de adiamentos superiores a 30 dias em repasses de compras realizadas via Pix. Nesse modelo de pagamento, o dinheiro entra primeiro na conta da varejista antes de ser transferido ao vendedor parceiro.

Um executivo do setor de meios de pagamento explicou que esse tipo de operação pode gerar riscos operacionais. “Quando o dinheiro do Pix entra na conta de varejo das empresas, há o risco de misturar com a conta geral das varejistas”, afirmou.

Ele destacou que o sistema de cartão de crédito possui regras que segregam automaticamente os recursos. “Pode misturar os bolsos, o que não acontece no cartão, que tem várias camadas de segurança, porque é um sistema regulado”, disse.

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Pessoas com conhecimento da operação ainda citam que os atrasos ocorreriam há vários meses. “No marketplace atrasa geral. Por exemplo, tem repasse no dia 20 do mês que o ‘seller’ fica 30 dias para receber, mas o dinheiro já entrou”, afirmou uma fonte. A mesma pessoa acrescentou: “São mais de seis meses com atrasos”.

Posicionamento da empresa

Uma fonte ligada ao grupo afirmou que houve uma falha temporária na separação dos recursos destinados aos vendedores, o que exigiu ajustes manuais no sistema durante alguns dias.

Procurada pela reportagem do Valor Econômico, a Casas Bahia confirmou que identificou uma inconsistência operacional envolvendo pagamentos via Pix, mas afirmou que o problema foi pontual.

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Em nota, a empresa declarou que “foi identificada uma inconsistência operacional temporária e restrita ao fluxo de liquidação via Pix, o que motivou uma atualização sistêmica”, acrescentando que a operação já foi normalizada. Segundo a companhia, pagamentos realizados por cartão de crédito continuam ocorrendo normalmente.

Ajustes financeiros

Internamente, a empresa também teria adotado medidas para melhorar seu ciclo financeiro. Entre elas estaria o adiamento de cerca de 15 dias no pagamento a transportadoras ao longo de 2025.

A reportagem aponta ainda postergação de pagamentos a prestadores de serviços digitais, incluindo a Google, fornecedora de tecnologia utilizada nas plataformas da varejista. Procurada, a empresa preferiu não comentar.

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Outro episódio citado por fontes envolve a interrupção temporária no envio de mercadorias ao centro de distribuição da empresa em São Bernardo do Campo (SP). A medida teria sido adotada para ajustar níveis de estoque diante da desaceleração das vendas nas lojas físicas no início de 2026.

No jargão do varejo, a prática é conhecida como “fechar a porta do CD”, quando empresas suspendem temporariamente o recebimento de produtos da indústria até equilibrar os estoques.

Segundo uma fonte, “fevereiro foi muito fraco para a loja física, especificamente, e melhor no digital. A esperança é que março reverta, sendo um mês cheio, sem feriados”.

As lojas físicas da rede são tradicionalmente mais dependentes do consumo de famílias de renda mais baixa, segmento que tem sido mais impactado pelo aumento do endividamento e da inadimplência no país.

Reclamações

Nos últimos 12 meses, a operação online da Casas Bahia recebeu cerca de 70,3 mil reclamações no site Reclame Aqui, onde a avaliação da empresa era classificada como regular.

Nos seis meses mais recentes, entretanto, o desempenho caiu para a classificação “ruim”, com aproximadamente 45 mil reclamações registradas.

Apesar das dificuldades operacionais, as negociações com grandes fornecedores, como fabricantes de televisores e celulares, não teriam sido afetadas, segundo a reportagem.

Recuperação extrajudicial

A Casas Bahia entrou em recuperação extrajudicial em 2024 e desde então executa um plano de reestruturação financeira. O programa inclui renegociação de dívidas, alongamento de prazos com bancos, conversão de débitos em ações e redução de despesas operacionais.

Como parte desse processo, a empresa renegociou aproximadamente R$ 4 bilhões em dívidas, convertidas em diferentes séries de debêntures com o objetivo de reforçar o caixa e reorganizar sua estrutura de capital.

Em relatório divulgado no fim de 2025, o analista Luiz Guanais, do BTG Pactual, avaliou que a companhia apresentou melhora operacional, mas ainda enfrenta limitações financeiras. “A receita manteve a tendência de melhora observada nos últimos trimestres e, combinada com ganhos de eficiência em despesas gerais e administrativas, proporcionou melhorias bem-vindas nos números operacionais”, disse ele.

O analista destacou, contudo, que a elevada alavancagem financeira continua sendo um desafio. “Ainda assim, a alta alavancagem continua a restringir os resultados financeiros, o lucro líquido e a geração de fluxo de caixa. O foco permanece na estrutura de capital”, afirmou.

A empresa afirmou que segue executando seu plano estratégico com disciplina financeira e rigor na gestão operacional. A companhia ainda informou que concluiu, em dezembro de 2025, uma operação considerada relevante para fortalecer seu balanço e ampliar sua flexibilidade financeira por meio do alongamento de passivos.

A Casas Bahia também diz que todos os centros de distribuição operam normalmente e a empresa permanece focada na eficiência operacional, na geração de caixa e na execução de sua estratégia de longo prazo.

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