O mercado financeiro nacional atravessa um período de forte instabilidade com a derrocada de duas grandes instituições. O Banco Central liquidou o Banco Master após uma grave crise de liquidez no sistema. O episódio resultou na prisão dos controladores da empresa e exigiu uma intervenção trilionária do Fundo Garantidor de Crédito.
A instituição expandiu suas operações de forma agressiva nos últimos anos sob o comando do empresário Daniel Vorcaro.
Por outro lado, o Banco Digimais enfrenta um pesado processo de insolvência com um rombo estimado em R$ 8,5 bilhões.
O antigo Banco Renner passou ao controle definitivo do bispo Edir Macedo no ano de 2020. Atualmente, a Polícia Federal investiga a instituição na Operação Miragem por fraudes contábeis.
A Justiça Federal autorizou a quebra de sigilos e o bloqueio de até R$ 670 milhões em bens. O BTG Pactual negocia a compra da instituição em um acordo ainda pendente de aprovação final.
Modelos de risco
As duas instituições compartilharam estratégias perigosas de captação de recursos e enfrentaram graves problemas regulatórios recentemente.
Primeiramente, o Banco Master construiu sua base financeira oferecendo taxas de depósitos muito acima da média do mercado.
Os rendimentos alcançavam a impressionante marca de 130% do CDI. A estratégia servia estritamente para financiar ativos de alto risco e de baixíssima liquidez diária.
Em contrapartida, o Banco Digimais atraiu a fiscalização por ocultar rotineiramente empréstimos com alta taxa de inadimplência.
Os gestores utilizavam fundos de investimento com lastros duvidosos para simular uma saúde financeira irreal perante os órgãos reguladores.
A Polícia Federal aponta que a fraude administrativa supervalorizava ativos e gerava receitas milionárias de maneira totalmente artificial para beneficiar a empresa controladora.
Como resultado, a saúde financeira do banco de Edir Macedo deteriorou rapidamente nos últimos anos de operação. O índice de capital principal caiu para 6,35% em setembro do ano de 2025.
Esse baixo número aponta uma necessidade imediata de aporte financeiro para evitar a quebra. O prejuízo da empresa alcançou R$ 250 milhões apenas nesse mesmo período apurado.
A liquidação do Master já comprometeu mais de R$ 50 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito. Um cenário de falência do Digimais adicionaria mais R$ 8 bilhões a essa conta protetiva.
Além disso, o Digimais captou cerca de 95% de seus recursos através de certificados de depósito no decorrer de 2024. O índice de Basileia ficou em 12%, operando perigosamente próximo ao limite mínimo exigido de 11%.
A diretoria nomeou Aldemir Bendine como novo gestor principal no final do ano passado para tentar reverter o quadro.
A nova gestão passou a focar no crédito consignado e reduziu drasticamente os financiamentos de veículos automotores. Os ativos problemáticos chegaram a representar quase 31% da carteira total antes dessas mudanças emergenciais.
A conexão direta entre os bancos
As operações financeiras dos dois bancos se cruzaram nos últimos anos de forma decisiva e altamente prejudicial.
O Digimais adquiriu volumosas carteiras de crédito originadas pelo Banco Master e também por seus sócios comerciais. Consequentemente, a liquidação do Master em 2025 acelerou e agravou profundamente a crise da instituição evangélica.
Dessa forma, a queda do Master arruinou as principais negociações de venda do Digimais. A busca por um novo comprador oficial dura mais de um ano sem nenhum sucesso efetivo.
O Bluebank chegou a fechar a aquisição sob o comando de Maurício Quadrado, mas o negócio fracassou devido à forte instabilidade do setor.
O Nubank também avaliou a compra pela atrativa licença bancária, mas desistiu alguns meses depois. O mercado avalia que o Fundo Garantidor precisará oferecer linhas de crédito subsidiadas para atrair um eventual comprador.
Por fim, o Digimais também lida com problemas judiciais complexos ligados aos antigos parceiros de negócios. O empresário Roberto Campos Marinho Filho cobra quase R$ 500 milhões por enormes prejuízos no fundo de investimento EXP 1.
A ação judicial aponta o uso de papéis do Banco Master, da Fictor e da Reag como lastro principal para a polêmica aquisição do fundo.
