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Essas funções sustentaram famílias e fizeram as cidades funcionarem durante muito tempo, e algumas delas muitos sequer ouviram falar
Antigamente, pessoas eram pagas para soprar pedrinhas na janela no intuito de acordar o outro (despertador humano) / Imagem ilustrativa/IA
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O avanço tecnológico é um processo de destruição criativa. Enquanto novas carreiras surgem a cada atualização de software, outras, que já foram o pilar da economia urbana, desaparecem silenciosamente. O que antes era essencial no cotidiano hoje sobrevive apenas como curiosidade histórica ou memória afetiva.
Para entender a velocidade dessa mudança, basta observar o destino de funções que exigiam destreza, paciência e uma interação humana que as máquinas ainda não conseguem replicar com o mesmo charme.
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Antes da era dos assentos numerados e da luz balizada nos degraus, o lanterninha era a autoridade máxima dentro de uma sala de cinema. Mais do que guiar os espectadores com sua luz focada, ele era responsável pela ordem. Em uma época em que os cinemas eram pontos de encontro social fervorosos, o lanterninha media conflitos, coibia conversas altas e garantia que ninguém ficasse de pé. Com a digitalização das salas e a automação da iluminação, essa figura mítica tornou-se desnecessária, deixando o público órfão de um guia em meio à penumbra.
Imagine um mundo onde cada chamada dependia de uma intervenção manual. As telefonistas (majoritariamente mulheres devido à voz clara e paciência necessária) operavam as "mesas de comutação". Elas precisavam conectar fisicamente cabos em painéis complexos para unir dois interlocutores. Era um trabalho de extrema agilidade mental e física. Com o advento das centrais automáticas de discagem direta e, posteriormente, da telefonia digital, as conexões físicas deram lugar a pulsos elétricos invisíveis, eliminando o intermédio humano nas comunicações instantâneas.
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Hoje, apertar um botão no elevador é um ato automático, mas nos primeiros grandes arranha-céus, essa era uma tarefa técnica e perigosa. O ascensorista não apenas apertava botões; nos modelos antigos de manivela ou reostato, ele precisava ter um controle preciso para alinhar o piso da cabine com o andar do prédio, evitando degraus perigosos. Além disso, ele gerenciava o peso máximo para evitar acidentes. Hoje, com os elevadores inteligentes e sistemas de inteligência artificial que calculam o tráfego predial, a profissão resiste apenas por força de leis municipais ou em hotéis de luxo que buscam um toque de nostalgia.
Antes dos despertadores mecânicos serem acessíveis e confiáveis, existiam os "knocker-ups". Nas cidades industriais da Inglaterra e da Irlanda, esses profissionais eram contratados para garantir que os operários não perdessem o turno nas fábricas. Eles usavam varas longas de bambu para bater nas janelas dos andares superiores ou sopravam ervilhas nos vidros até terem certeza de que o cliente havia acordado. A profissão desapareceu na década de 1940, quando a eletricidade e os relógios de cabeceira se tornaram populares.
Houve um tempo em que ter uma coleção da Barsa ou da Britannica na estante era o maior símbolo de status intelectual e ascensão social de uma família. O vendedor de enciclopédias era um mestre da persuasão, carregando volumes pesados debaixo do braço para convencer pais de que o futuro dos filhos dependia daquele investimento. Com a chegada da internet e, especificamente, da Wikipédia e do Google, o conhecimento tornou-se gratuito, instantâneo e leve, extinguindo o modelo de vendas domiciliares desses gigantes de papel.
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Hoje, o mecanismo que recolhe os pinos e devolve a bola é totalmente robótico, mas até a década de 1950, essa era uma tarefa executada por jovens, conhecidos como "pinsetters". Eles ficavam posicionados ao final da pista, em uma área perigosa, esperando a bola passar para pular na pista, recolher os pinos derrubados, reposicioná-los manualmente e colocar a bola no trilho de retorno. Era um trabalho barulhento, exaustivo e que exigia reflexos rápidos para não ser atingido por uma jogada apressada.
O datilógrafo era o coração das redações, cartórios e escritórios. Diferente do teclado macio de um computador, as máquinas de escrever exigiam força nos dedos e uma precisão absoluta: um erro no final de uma página significava ter que refazer todo o trabalho ou usar o nada elegante corretor líquido. Havia cursos de datilografia com competições de "toques por minuto". Com a popularização dos computadores e das impressoras nos anos 90, a habilidade de bater teclas evoluiu para a digitação, e a figura do profissional exclusivo para bater textos sumiu das folhas de pagamento.
Essas funções sustentaram famílias e fizeram as cidades funcionarem durante o século XX. No entanto, foram substituídas por chips e sensores que não cansam nem erram o "alinhamento do andar".
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A extinção dessas carreiras nos obriga a uma pergunta inquietante: quantas das ocupações que hoje consideramos sólidas ainda existirão em 2046? A história nos mostra que a sociedade não apenas muda o trabalho, mas se reorganiza em torno da eficiência. Algumas profissões deixam saudades pelo contato humano que proporcionavam; outras, tornam-se apenas notas de rodapé em livros de história.