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Barras encontradas em um veículo militar comprado no eBay reforçam um ponto: o ouro pode carregar mercúrio e emissões antes de chegar à vitrine
O caso do Type 69 com ouro escondido vira alerta sobre rastreabilidade e sobre como reciclar metal pode reduzir danos ambientais e climáticos. / Reprodução/Youtube
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Um colecionador britânico comprou um tanque iraquiano Type 69 pela internet e, ao abrir o tanque de diesel com ajuda de um mecânico, encontrou cinco barras de ouro escondidas. O valor estimado chega a US$ 2,4 milhões.
A descoberta foi encaminhada às autoridades do Reino Unido, que trabalham para rastrear os proprietários. A partir daí, a história escancara uma questão maior: de onde vem o ouro e qual é o custo ambiental por trás dele?
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O episódio parece improvável, mas ele ajuda a entender algo comum: o ouro está em joias, investimentos e eletrônicos, e muitas vezes chega ao consumidor sem que sua trajetória seja percebida.
Nick Mead esperava encontrar ferrugem e problemas mecânicos ao comprar um Type 69 no eBay. O modelo é descrito como uma cópia chinesa do soviético T-55, com histórico ligado ao Exército Iraquiano.
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Ao abrir o compartimento de diesel, ele encontrou cinco barras avaliadas em cerca de 2,5 milhões de euros. A suspeita é que o ouro tenha sido escondido ali desde a invasão do Kuwait em 1990.
O colecionador entregou o material às autoridades britânicas e depois comentou que se arrependeu de não receber recompensa. Ele resumiu a lógica da investigação com a frase: “gold has a fingerprint”.
Rastrear o ouro não é apenas recontar capítulos de guerra e saque. A “impressão digital” do metal pode apontar para leitos de rios, minas informais e acampamentos remotos com geradores a diesel funcionando sem pausa.
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Descoberta inédita no fundo do oceano que pode reescrever a história da vida
Em muitos desses locais, o mercúrio entra como ferramenta de separação do ouro, com efeitos que não ficam presos ao ponto de extração. O problema se espalha e atinge comunidades e ecossistemas.
O texto base explica que uma grande parte do ouro mundial ainda vem da mineração artesanal e de pequena escala. Nessas operações, o mercúrio é usado para retirar pequenos fragmentos de ouro do sedimento.
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Pesquisadores mostraram que esse tipo de mineração é a maior fonte humana individual de poluição por mercúrio, liberando por volta de mil toneladas por ano no ambiente. A consequência é contínua e acumulativa.
Em Gana, um estudo conjunto da Pure Earth e da Environmental Protection Authority encontrou níveis de mercúrio no solo muitas vezes acima dos limites de segurança da Organização Mundial da Saúde em algumas comunidades mineiras.
O trabalho também identificou arsênio acima de valores orientadores e relatou que profissionais de saúde já observam problemas renais e exposição ao mercúrio em crianças. Assim, o impacto se torna visível na saúde pública.
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A Amazônia aparece no texto com um diagnóstico semelhante. Monitoramento por satélite indica que a mineração ilegal de ouro removeu cerca de 140.000 hectares de floresta tropical peruana desde meados dos anos 1980.
Com a expansão da atividade, mais de duzentos rios e córregos foram contaminados com mercúrio. Para famílias indígenas que dependem da pesca, o metal pode significar alimento contaminado e riscos crescentes.
Mercúrio não é a única conta. Uma análise global da mineração industrial estima que o setor emita mais de 100 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano, tornando o ouro um metal com forte impacto climático.
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Na Amazônia brasileira, um estudo acompanhou mercúrio e emissões em garimpos e estimou que produzir 1 quilo de ouro pode gerar de 10 a 30 toneladas de CO2 equivalente, conforme técnica e maquinário usados.
O texto destaca o papel do diesel em escavadeiras, bombas e geradores. Assim, o ouro se conecta diretamente à queima de combustíveis fósseis e ao aumento das emissões que pressionam o clima.
O mesmo estudo comparou ouro recém-extraído e ouro reciclado e encontrou uma diferença forte. Refinar sucata em instalações modernas teria uma pegada de cerca de 53 quilos de CO2 equivalente por quilo.
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Em linguagem simples, o ouro mais sustentável é o que já está acima do solo. Ele está em joias, em eletrônicos, em placas de circuito e em caixas esquecidas, pronto para voltar ao mercado com menos impacto.
Você dificilmente vai abrir um tanque e encontrar barras de ouro. Ainda assim, você decide o que compra e como descarta metais, e isso influencia a demanda por cadeias mais limpas e rastreáveis.
No fim, o tanque é só o objeto chamativo. A mensagem é direta: cada barra tem uma história oculta, e reduzir mercúrio, diesel e desmatamento melhora essa história para o clima e para quem vive no entorno da mineração.
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O estudo foi publicado na Nature Sustainability.