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Silêncio que engana: O que a ciência descobriu sobre quem está em coma

Da Escala de Glasgow à batalha invisível na UTI, entenda por que o cérebro corta o próprio combustível pela metade para tentar sobreviver

Jeferson Marques

Publicado em 08/04/2026 às 12:07

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Mãe observa a filha em coma em leito de hospital / Imagem ilustrativa criada com IA/Gemini

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Muitas pessoas acreditam que o coma é apenas um sono muito profundo. É comum imaginar que o corpo está tirando uma longa soneca da qual poderia acordar a qualquer momento com um simples toque no ombro.

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No entanto, a ciência mostra que a realidade é muito mais complexa e intrigante. O coma é, na verdade, um estado de inconsciência prolongada onde o cérebro deixa de responder ao mundo exterior.

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É como se o sistema operacional de um computador estivesse ligado, mas a tela permanecesse escura e o teclado não respondesse a nenhum comando. Podemos dizer que ele é uma espécie de "consciência oculta".

Para quem observa de fora, parece um repouso tranquilo. Mas, dentro do crânio, acontece uma batalha biológica silenciosa para manter a vida e tentar restabelecer as conexões neurais perdidas.

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Mistério

Diferente do sono natural, onde passamos por ciclos de movimentos oculares e sonhos, o coma interrompe essa alternância rítmica. Em um sono comum, o seu cérebro continua processando sons ao redor.

Ele pode te despertar rapidamente se alguém gritar seu nome ou se um alarme tocar. No estado de coma, essa "ponte" com o mundo externo está quebrada.

A pessoa não consegue ser despertada nem mesmo por estímulos de dor intensa. Isso ocorre porque as vias que levam a informação dos sentidos até a parte consciente do cérebro estão bloqueadas ou severamente danificadas.

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Estudos publicados no prestigiado New England Journal of Medicine indicam que o coma é um estado dinâmico e transitório. Ele raramente dura mais do que algumas semanas.

Após esse período, o paciente geralmente evolui para a recuperação, para um estado vegetativo ou, em casos mais graves, para a morte encefálica.

Médico faz testes de reflexo em paciente em coma - Imagem ilustrativa gerada por IA/Gemini

Funcionamento

Quando um médico avalia um paciente nessa condição, ele utiliza ferramentas padronizadas para entender o que está acontecendo. A mais famosa delas é a Escala de Coma de Glasgow.

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Criada nos anos 70 e utilizada mundialmente até hoje, essa escala avalia três pontos fundamentais: a abertura dos olhos, a resposta verbal e os movimentos motores.

Se você já ouviu falar que um paciente "está com Glasgow 3", saiba que esse é o nível mais profundo de inconsciência. É o ponto onde o cérebro está mais desconectado.

A ciência explica que, durante esse estado, o metabolismo cerebral cai drasticamente. O consumo de glicose, que é o combustível das nossas células nervosas, chega a diminuir em mais de 50%.

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É como se o cérebro entrasse em um modo de economia de energia extrema. Ele faz isso para tentar preservar as áreas que ainda estão saudáveis e evitar um colapso total.

Ainda falando sobre o cérebro, você sabia que o Brasil tem um dos QIs mais baixos do mundo?

Biologia

A grande diferença entre estar vivo em coma e a morte cerebral reside no tronco encefálico. Essa pequena estrutura na base do cérebro é a nossa central de comando automática.

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Em muitos casos de coma, o tronco continua funcionando perfeitamente. É ele quem garante que o coração continue batendo e que a pressão arterial se mantenha estável.

Ele também regula a temperatura do corpo. No entanto, as funções mais "nobres", localizadas no córtex cerebral, ficam completamente desligadas.

Essas são as funções que nos tornam quem somos, que guardam nossas memórias e personalidade. Por isso, o paciente pode respirar sem aparelhos, mas não consegue falar ou reconhecer ninguém.

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O corpo vira uma máquina operando no piloto automático, sem que o motorista consciente tenha qualquer controle sobre o trajeto.

Ressonância Magnética mostra atividade em cérebro de paciente saudável e em cérebro de paciente em coma - Imagem ilustrativa gerada por IA

Controle

Manter um paciente estável enquanto ele está "ausente" exige uma estrutura hospitalar de ponta e vigilância constante em uma UTI. O corpo perde reflexos básicos, como o de engolir a própria saliva.

Isso gera um risco enorme de pneumonias. Além disso, a nutrição precisa ser feita por sondas diretamente no sistema digestivo ou na veia.

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O organismo ainda queima calorias para se manter vivo, mas não tem como pedir alimento. Médicos intensivistas explicam que o monitoramento precisa ser feito minuto a minuto.

Qualquer alteração na oxigenação do sangue pode causar danos irreversíveis a um cérebro que já está fragilizado. A ciência moderna foca muito em evitar a chamada lesão secundária.

Esses são danos que acontecem após o evento inicial (como um acidente ou AVC) devido ao inchaço cerebral ou falta de nutrientes essenciais nas células.

Conexão

Uma das maiores dúvidas de quem tem um familiar nessa situação é: ele está me ouvindo? A resposta da ciência atual é cautelosa, mas fascinante.

Pesquisas utilizando ressonância magnética funcional mostraram que alguns cérebros reagem a comandos de voz, mesmo sem mover um único músculo.

Em um estudo famoso liderado pelo neurocientista Adrian Owen, pediu-se que pacientes imaginassem que estavam jogando tênis. Surpreendentemente, as áreas motoras de alguns deles se acenderam no exame.

Isso provou que, embora o corpo estivesse imóvel e parecesse "desligado", existia ali uma forma de consciência interna processando informações.

Esse achado mudou a maneira como a medicina encara o suporte emocional. Hoje, a orientação é que familiares conversem e mantenham o contato afetuoso. A audição pode ser um dos últimos sentidos a se apagar.

Retorno

O momento de acordar é muito diferente do que o cinema costuma mostrar. Não existe aquele despertar súbito onde a pessoa senta na cama e começa a conversar normalmente.

Na vida real, a recuperação é um processo lento, difícil e muitas vezes fragmentado. O despertar acontece em etapas, como se as luzes de uma casa fossem acesas uma a uma.

Primeiro, o paciente começa a abrir os olhos sem fixar o olhar em nada. Depois, passa a seguir objetos de forma lenta, até que as funções superiores voltem a operar.

Esse processo depende da plasticidade cerebral. É a capacidade do cérebro de criar novos caminhos para compensar as áreas que foram destruídas pelo trauma.

O acompanhamento de fisioterapeutas e fonoaudiólogos é fundamental nessa fase. Eles ajudam a transformar o silêncio do coma em um novo capítulo de superação e vida.

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