Bandeiras de Israel, que hoje não é um país cristão, em igreja cristã brasileira / Imagem ilustrativa gerada por IA/DL
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A cena é comum no Brasil: igrejas e fiéis exibindo a bandeira de Israel como um símbolo máximo de sua fé em Jesus. O apoio fervoroso sugere uma "nação irmã" em crenças, mas quem aterrissa no Aeroporto Ben Gurion encontra uma realidade teológica bem diferente. Um dado simples, ignorado por muitos, muda toda a perspectiva: Israel não é uma nação cristã.
Para historiadores e demógrafos, a confusão entre a "Terra da Bíblia" e o Estado Moderno gera um paradoxo curioso: cristãos ocidentais exaltam religiosamente um país cuja população, em sua esmagadora maioria, rejeita a divindade de Cristo.
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Os dados do Escritório Central de Estatísticas de Israel (CBS) são frios e claros. Apenas cerca de 1,9% da população de Israel é cristã — e a maioria destes são árabes cristãos, não judeus convertidos. O restante do país divide-se majoritariamente entre judeus (73%), que seguem o Judaísmo, e muçulmanos (18%), que seguem o Islã. Ou seja: estatisticamente, é mais fácil encontrar um cristão na China ou no Egito do que nas ruas de Tel Aviv.
O choque vai além da estatística; ele é dogmático. Para a maioria judaica que vive em Israel, Jesus de Nazaré não é o Messias, não é o Filho de Deus e não ressuscitou. O Judaísmo baseia-se apenas no Antigo Testamento (Tanakh) e nas tradições orais (Talmud). O Novo Testamento — base da fé cristã — não é aceito como escritura sagrada. Teólogos apontam a ironia: muitos brasileiros oram pelo "Povo de Deus" visualizando uma unidade de fé que, na prática doutrinária, não existe.
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Além da questão religiosa, há a barreira política. O Estado de Israel, fundado em 1948, define-se como um Estado Judeu e Democrático, não como uma teocracia bíblica. Suas leis são seculares, aprovadas por um parlamento (Knesset), e garantem liberdade de culto, mas a identidade nacional não passa pela cruz. O movimento que criou o país (Sionismo) foi liderado por políticos laicos, não por líderes religiosos, buscando uma solução para o antissemitismo na Europa, e não o cumprimento de uma liturgia cristã.
Por que, então, tantas bandeiras? Especialistas em religião explicam que o fenômeno é fruto do Dispensacionalismo, uma corrente teológica popular no Ocidente que ensina que apoiar Israel politicamente é um dever bíblico para "acelerar" a volta de Jesus. Assim, cria-se a situação peculiar onde cristãos apoiam incondicionalmente uma nação que, teologicamente, não compartilha de sua crença central.
A terra é a mesma da Bíblia, mas a nação que está sobre ela hoje é outra — humana, complexa e não-cristã.
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Fontes: Os dados demográficos citados nesta matéria são oficiais do Escritório Central de Estatísticas de Israel (CBS), órgão do governo israelense. A análise histórica e teológica baseia-se em consensos acadêmicos de Ciências da Religião, incluindo estudos sobre o Sionismo Político (Theodor Herzl), obras de teólogos como Gary Burge e verificações de fatos do Coletivo Bereia e do Instituto Brasil-Israel.