Diário Mais

Rios voadores da Amazônia: o 'encanamento invisível' que comanda a chuva no Brasil

Correntes gigantes de vapor d'água saem da floresta, cruzam o céu e levam precipitações para lavouras, reservatórios e cidades

Jeferson Marques

Publicado em 28/11/2025 às 14:01

Compartilhe:

Compartilhe no WhatsApp Compartilhe no Facebook Compartilhe no Twitter Compartilhe por E-mail

Os 'rios voadores' invisíveis que fazem chover para milhões de pessoas / Imagem gerada por IA/DL

Continua depois da publicidade

Enquanto muita gente olha para mapas em azul para entender a rede de rios do país, uma parte decisiva da água que sustenta o Brasil não corre no chão — corre no céu. São os chamados “rios voadores”: correntes gigantescas de vapor d’água que nascem na Amazônia, cruzam o continente como verdadeiros rios invisíveis e ajudam a decidir quando e quanto vai chover em boa parte do Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

Faça parte do grupo do Diário no WhatsApp e Telegram.
Mantenha-se bem informado.

A floresta que bombeia água para o céu

Tudo começa com um processo aparentemente simples: a transpiração das árvores. Cada grande árvore amazônica libera centenas de litros de água por dia na forma de vapor. Multiplicadas por bilhões, essas árvores formam uma espécie de “bomba biótica”: um sistema natural que puxa umidade do oceano, joga para cima e mantém o ar sobre a floresta permanentemente carregado de vapor.

Continua depois da publicidade

Leia Também

• Conheça o curioso caso das árvores que 'andam' pela Amazônia e intrigam cientistas

• Fundo Amazônia garante investimento de R$ 81,2 milhões em projeto sustentável

Esse vapor não fica parado. Com a circulação dos ventos em altitude, especialmente os ventos que sopram de oeste para leste, ele é empurrado para fora da região amazônica e começa a viajar pelo interior do continente. É nesse momento que surgem, na prática, os “rios voadores”: faixas concentradas de ar úmido que percorrem longas distâncias levando água para outras áreas do país.

Quando o rio corre no céu

Os modelos climáticos e as observações por satélite mostram que essas correntes de umidade funcionam como verdadeiros canais atmosféricos. Elas saem da Amazônia e descem em direção ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul, onde interagem com frentes frias vindas do sul e sistemas de baixa pressão. Quando esses sistemas se encontram, o resultado aparece na forma de chuva — às vezes moderada, às vezes em forma de tempestades volumosas que marcam o verão brasileiro.

Continua depois da publicidade

É por isso que pesquisadores costumam dizer que a Amazônia “manda água” para regiões distantes. Soja no Mato Grosso, café em Minas, cana e laranja em São Paulo, além de reservatórios que abastecem grandes cidades, todos acabam dependendo, de algum modo, desse transporte aéreo de umidade. Em anos em que os rios voadores estão mais fracos ou desviados, a conta chega rápido: estiagens prolongadas, reservatórios baixos e risco maior de crise hídrica.

O elo invisível entre Amazônia e Sudeste

Um dos momentos em que esse elo ficou mais evidente foi durante a crise hídrica que atingiu o Sudeste na primeira metade da década de 2010. Naquele período, pesquisadores chamaram atenção para o fato de que, ao mesmo tempo em que o desmatamento e o aquecimento na Amazônia avançavam, as correntes de umidade que costumavam chegar com força ao Sudeste pareciam mais irregulares ou deslocadas.

Os estudos destacaram que a floresta não é apenas um “pulmão verde”, mas também uma espécie de coração hídrico: bombeia água, regula fluxos de vapor e ajuda a organizar o regime de chuvas em áreas distantes. Esse entendimento reforçou a ideia de que o desmatamento amazônico não é um problema apenas regional ou de biodiversidade, mas também uma questão de segurança hídrica e energética nacional.

Continua depois da publicidade

Beleza, ciência e alerta

Do ponto de vista visual, os rios voadores também renderam imagens marcantes. Em algumas campanhas científicas, aeronaves seguiram as rotas dessas correntes de umidade, coletando dados em pleno voo para medir temperatura, quantidade de vapor, aerossóis e outras variáveis. Em paralelo, imagens de satélite e animações mostram a umidade “nascendo” sobre a floresta e deslizando pelo mapa como se fosse um rio em movimento, só que feito de nuvens e vapor.

Ao mesmo tempo, a ciência tem insistido em um recado: se a floresta que sustenta esses rios invisíveis for reduzida demais, o sistema pode enfraquecer. Menos árvores significa menos transpiração, menos vapor disponível e, potencialmente, rios voadores mais fracos ou desorganizados. Num país cuja agricultura, geração de energia e vida urbana dependem tanto da chuva, esse não é um detalhe.

No fim, os rios voadores da Amazônia são um dos exemplos mais bonitos — e mais frágeis — de como a natureza faz algo que parece impossível: transformar floresta em chuva a milhares de quilômetros de distância, costurando o Brasil por meio de caminhos de água que o olho nu não vê, mas que o país inteiro sente quando falham.

Continua depois da publicidade

*Texto baseado em pesquisas coordenadas por Antonio Nobre e outros climatologistas brasileiros sobre rios voadores da Amazônia, relatórios do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre transporte de umidade e circulação atmosférica na América do Sul e estudos do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC)

TAGS :

Mais Sugestões

Conteúdos Recomendados

©2025 Diário do Litoral. Todos os Direitos Reservados.

Software