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A doação do espaço tinha uma condição específica que muitas pessoas não conhecem, e que tem a ver com a preservação visual da cidade
O famoso vão do MASP é palco de um dos maiores mistérios de SP / Reprodução/Prefeitura de São Paulo
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O MASP é, sem dúvida, o cartão-postal mais famoso da Avenida Paulista. Suas colunas vermelhas e o imenso vão livre de 74 metros são reconhecidos de longe, mas o que poucos pedestres imaginam ao passar por baixo daquela estrutura de 10 mil toneladas é que o museu só tem esse formato por causa de uma exigência drástica e um "vazio" que não pode ser preenchido. O vão livre não é apenas um capricho estético da arquitetura moderna; ele é o resultado de uma batalha jurídica e de um compromisso com a paisagem da cidade de São Paulo que dura mais de meio século.
Tudo começou com o terreno onde hoje o museu está instalado, anteriormente ocupado pelo antigo Belvedere Trianon. A doação do espaço para a construção do museu veio acompanhada de uma cláusula contratual rígida imposta pela doadora, a investidora Yara Penteado. A condição era inegociável: nenhuma construção poderia obstruir a vista para o centro da cidade e para a Serra da Cantareira.
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Caso qualquer parede bloqueasse o horizonte de quem estivesse na Avenida Paulista, o terreno deveria ser devolvido imediatamente à municipalidade. Foi esse desafio geográfico e legal que caiu nas mãos da arquiteta Lina Bo Bardi. Para obedecer à lei e ainda assim criar uma sede monumental para o acervo de Assis Chateaubriand, Lina projetou um edifício que flutua, mantendo o olhar do paulistano livre para alcançar o horizonte.
Para sustentar um prédio inteiro suspenso, mantendo um vão livre que na época foi o maior do mundo, a engenharia precisou ser tão audaciosa quanto a arquitetura. O edifício é segurado por quatro pilares gigantescos e duas enormes vigas de concreto protendido na cobertura. O peso é distribuído de forma que o espaço entre o chão e a base do museu permaneça totalmente desobstruído.
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Curiosamente, no projeto original, o concreto não era vermelho. As colunas mantiveram a cor cinza natural por décadas, mas devido a problemas de infiltração e desgaste, o museu recebeu a icônica pintura vermelha apenas em 1991, em uma celebração de seus 25 anos. O que era uma solução técnica de proteção acabou se tornando a marca registrada visual mais forte da capital paulista.
Mais do que um corredor de vento, o vão livre do MASP transformou-se no "hall de entrada" democrático de São Paulo. Lina Bo Bardi sempre defendeu que o museu deveria ser um espaço de convivência, e não apenas um templo fechado para a arte. Ao deixar o nível da rua aberto, ela presenteou a cidade com uma praça coberta, protegida do sol e da chuva, onde tudo acontece: desde as tradicionais feiras de antiguidades aos domingos até grandes manifestações políticas e encontros culturais.
Hoje, o espaço é um símbolo de resistência e liberdade. Quem caminha por ali sente a escala monumental da obra e a leveza de um horizonte que sobreviveu à verticalização desenfreada da metrópole. O MASP prova que, às vezes, o que há de mais valioso em uma construção não é o que ela ocupa, mas o vazio que ela escolhe preservar para o público.
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