No cotidiano japonês, souji é a limpeza básica diária / Imagem gerada por IA
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Entrar em uma casa japonesa transmite uma sensação imediata de calma e ordem: os pisos parecem novos, o ar é leve, não há prateleiras cheias de produtos de limpeza e, ainda assim, tudo está limpo. A primeira pergunta costuma ser inevitável: como esse padrão é mantido sem passar horas esfregando no fim de semana?
A resposta está em uma combinação de hábitos diários simples, quase automáticos, e em uma filosofia que vê a limpeza menos como esforço e mais como parte da rotina.
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No cotidiano japonês, souji é a limpeza básica diária. Não se trata de uma tarefa acumulada para o sábado, mas de um ritual rápido pela manhã, que dura cerca de 5 a 10 minutos. As ações são simples: arrumar a cama, passar um pano na mesa, secar a pia, organizar a bancada da cozinha.
Não se faz isso para visitas, mas para começar o dia com menos estímulos visuais e mais clareza mental.
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A prática está ligada ao conceito de kanso, que defende a redução da “poluição visual” e a presença apenas do essencial. É a mesma lógica que inspira o método KonMari, popularizado por Marie Kondo, segundo o qual ficam apenas os objetos que “despertam alegria”.
Nessas abordagens, a casa limpa não é um troféu, mas um suporte para o bem-estar: menos distrações, menos tensão e decisões mais fáceis ao longo do dia.
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Outro hábito fundamental é a separação clara entre o exterior e o interior da casa. Os sapatos ficam no genkan, o hall de entrada, e dentro do lar anda-se de meias ou com chinelos próprios. Assim, sujeira e microrganismos vindos da rua não se espalham pelos ambientes.
Estudos microbiológicos mostram que a sola de sapatos pode carregar centenas de milhares de bactérias e transferir até 90% delas para pisos e carpetes. Ao deixá-los fora, reduz-se significativamente a contaminação e, consequentemente, a necessidade de limpezas frequentes.
A ventilação também tem papel central. Abrir as janelas por alguns minutos todas as manhãs, mesmo no inverno, é visto como uma forma de renovar a energia da casa.
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A umidade ideal deve ficar entre 30% e 50%, abaixo de 60%, limite recomendado por órgãos ambientais para dificultar a proliferação de mofo e ácaros.
A soma dessas práticas cria um efeito cumulativo: menos sujeira se acumula e a limpeza pesada deixa de ser necessária. Entre as ações mais comuns estão:
A filosofia pode ser resumida em uma máxima simples: “cinco minutos todos os dias valem mais do que dois sábados exaustivos por mês”.
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Outro princípio recorrente é que tudo deve ter um lugar definido. Chaves, controles remotos e utensílios não ficam “soltos”: cada item tem um endereço fixo. Se algo vive fora do lugar, não se culpa a pessoa, mas o sistema de organização.
Além do KonMari, é comum o conceito dan-sha-ri: dan (não acumular), sha (descartar excessos) e ri (desapego emocional). Na prática, significa repensar o consumo e abrir mão do que não é usado há meses — inclusive presentes que geram mais culpa do que alegria.
Agora, partindo um pouquinho para a cozinha, conheça o método japonês que muda tudo o que você conhece sobre churrasco.
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Outro método difundido é a “regra do um minuto”: se algo pode ser feito em menos de um minuto, faz-se na hora. Enxaguar uma xícara, pendurar um casaco ou limpar migalhas evita o surgimento de acúmulos.
Essas pequenas ações se unem a uma rotina diária de cerca de 10 minutos, dividida entre manhã e noite, com tarefas simples que, após algumas semanas, tornam-se automáticas, como escovar os dentes.
O resultado é uma casa sempre “boa o suficiente”, sem a sensação de punição associada à limpeza intensa.
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Apesar da ênfase no dia a dia, existe um momento anual de limpeza profunda: o ōsōji, realizado no fim do ano. A tradição vem do susuharai, ritual antigo de “varrer a fuligem” em templos e palácios, como preparação simbólica para o ano novo.
A diferença é que, graças à manutenção constante, esse processo costuma durar apenas algumas horas: limpar janelas, mover móveis e revisar armários. Mais do que uma faxina pesada, funciona como um reset do espaço.
Coerente com essa filosofia, os produtos de limpeza são poucos e básicos: detergente neutro, bicarbonato de sódio, vinagre, panos de microfibra e, às vezes, algumas gotas de óleo essencial.
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A proposta combina bem com materiais naturais e com a estética conhecida como Japandi, que une simplicidade japonesa e funcionalidade escandinava.
O conceito de wabi-sabi, a valorização das pequenas imperfeições, completa a visão: a casa não precisa parecer um cenário perfeito, mas um espaço tranquilo e habitável.
No conjunto, essas práticas mostram que a limpeza no Japão é menos sobre força e mais sobre postura. A casa não é um depósito, mas uma extensão de quem a habita. Limpar, nesse contexto, é uma forma de cuidado — com o espaço, com os objetos escolhidos e consigo mesmo.