Uma operação realizada há décadas na Patagônia argentina chama atenção pelo número impressionante de insetos liberados todos os anos. A princípio, cerca de 1 bilhão de moscas são soltas na região dentro de uma estratégia que, à primeira vista, parece contraditória para o combate a pragas agrícolas.
Na prática, esse método ajudou a transformar a Patagônia em uma das principais regiões produtoras de frutas da América do Sul. Além disso, ele abriu espaço para que maçãs, peras e cerejas argentinas alcançassem mercados exigentes, como Estados Unidos e China, sem a necessidade de tratamentos sanitários adicionais.
Por que a Argentina libera bilhões de moscas na Patagônia?
O alvo do programa é a mosca-do-mediterrâneo (Ceratitis capitata), uma das pragas agrícolas mais destrutivas do mundo. Esse inseto deposita ovos dentro dos frutos, enquanto suas larvas se desenvolvem na polpa e comprometem colheitas inteiras.
Para combater esse avanço, a Argentina aplica a Técnica do Inseto Estéril (TIE), considerada uma das soluções mais eficientes e sustentáveis do mundo.
O processo cria milhões de machos estéreis em laboratório. Depois disso, equipes liberam esses insetos no ambiente para competir com os machos férteis. Quando ocorre o acasalamento com fêmeas selvagens, não há geração de descendentes, o que reduz gradualmente a população da praga.
Com isso, o país diminui o uso de inseticidas e preserva o equilíbrio ambiental da região.
A tecnologia que colocou a Patagônia entre poucas regiões do mundo
A Argentina integra um grupo restrito de países que utilizam a Técnica de Adultos Frios (CAT, na sigla em inglês), ao lado de México, Guatemala, Estados Unidos e Croácia.
Esse sistema resfria os insetos estéreis até um estado de imobilidade temporária. A partir disso, equipes conseguem transportar e distribuir os exemplares com mais eficiência e melhor qualidade biológica.
De fato, em 2025, o programa inaugurou o Centro de Emergência para Resfriado em Adultos (CEDAF), na província de Río Negro, que ampliou a capacidade operacional do sistema.
No processo, as pupas passam por uma fase inicial em temperatura controlada para estimular a emergência dos insetos. Em seguida, o sistema reduz a temperatura até cerca de 0°C em menos de uma hora.
Os técnicos afirmam que esse método reduz o estresse fisiológico dos insetos e melhora sua capacidade de competir com populações selvagens no ambiente.
Como funciona a operação que libera 1 bilhão de moscas
A operação combina ações terrestres e aéreas ao longo da Patagônia.
Equipes utilizam veículos adaptados para distribuir os insetos em áreas urbanas e rurais. Ao mesmo tempo, aeronaves realizam voos regulares sobre os principais vales produtivos da região.
O programa atua hoje em aproximadamente 17 mil hectares nos vales de Río Negro e Neuquén. Durante a temporada, que vai de outubro a maio, o sistema libera cerca de 36 milhões de insetos por semana.
No final do ciclo, o volume ultrapassa a marca de 1 bilhão de moscas estéreis distribuídas no ambiente.
Enquanto isso, uma rede com mais de 1.800 armadilhas monitora continuamente a presença da praga e permite ajustes rápidos na estratégia de controle.
O resultado protege a produção de frutas da Argentina
Dessa forma, o programa mantém a Patagônia como Área Livre da Mosca-das-Frutas, um status sanitário conquistado há mais de duas décadas.
Essa certificação garante acesso da produção regional a mercados internacionais com regras sanitárias rigorosas.
Além disso, o status reduz custos logísticos, elimina a necessidade de tratamentos de quarentena e aumenta a competitividade das frutas argentinas.
Com esse sistema, produtores ampliaram as exportações de maçãs, peras e cerejas para mercados estratégicos ao longo dos últimos anos.
Por trás de um número que parece absurdo à primeira vista, existe uma das maiores operações de controle biológico do planeta. E é essa estratégia que impede a proliferação de uma das pragas mais perigosas para a fruticultura mundial.






