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Cientistas provam que os Incas já usavam 'Windows' de algodão com arquivos e pastas em fios

Pesquisadores apontam que o quipu, sistema de cordas com nós usado pelos incas, pode ter funcionado com uma lógica semelhante à de estruturas de dados modernas

Helena Merencio/Agência Diário

Publicado em 10/04/2026 às 10:18

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Pesquisas anteriores já haviam demonstrado a eficiência desse método, reconhecendo o domínio matemático alcançado pela civilização andina / Ilustração gerada por IA

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Uma ferramenta milenar composta por fios e nós voltou ao centro do debate científico e pode alterar a forma como a história dos sistemas de informação é compreendida. 
Segundo estudo recente, o quipu, utilizado pelo Império Inca para registros administrativos, revela uma lógica de organização que ultrapassa a simples contagem. 

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A análise indica que o artefato operava com uma estrutura comparável a modelos atuais de armazenamento e processamento de dados, levantando a hipótese de um sistema sofisticado muito anterior à era digital.

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Durante anos, predominou a leitura de que o quipu funcionava apenas como instrumento contábil. Esse objeto funcionava da seguinte maneira: cordas principais sustentavam fios coloridos com nós posicionados de maneira precisa, formando registros ligados a tributos, estoques agrícolas e levantamentos populacionais. 

Cada elemento obedecia a um sistema decimal, no qual a posição definia o valor. Pesquisas anteriores já haviam demonstrado a eficiência desse método, reconhecendo o domínio matemático alcançado pela civilização andina.

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Vale lembrar, que aqui no Litoral de São Paulo uma estatueta de 2.500 anos pode ter ligação com povos dos Andes.

Cada quipu começa com uma corda principal horizontal. As cordas pendentes (as 'portas de entrada') recebem nós que representam números em um sistema decimal posicional (unidades, dezenas, centenas) / Ilustração gerada por IA
Cada quipu começa com uma corda principal horizontal. As cordas pendentes (as 'portas de entrada') recebem nós que representam números em um sistema decimal posicional (unidades, dezenas, centenas) / Ilustração gerada por IA
Novas pesquisas revelam que o arranjo das cordas não era aleatório. Ele formava uma hierarquia lógica. Uma corda principal podia abrir ramificações sucessivas, criando níveis interligados, como diretórios e subdiretórios em um sistema operacional moderno / Ilustração gerada por IA
Novas pesquisas revelam que o arranjo das cordas não era aleatório. Ele formava uma hierarquia lógica. Uma corda principal podia abrir ramificações sucessivas, criando níveis interligados, como diretórios e subdiretórios em um sistema operacional moderno / Ilustração gerada por IA
Diferente de um bit (0 ou 1), o nó inca usava múltiplas dimensões. A cor da corda, o tipo de nó e a direção da torção da fibra adicionavam camadas de contexto (metadados), permitindo registrar narrativas ou informações não numéricas / Ilustração gerada por IA
Diferente de um bit (0 ou 1), o nó inca usava múltiplas dimensões. A cor da corda, o tipo de nó e a direção da torção da fibra adicionavam camadas de contexto (metadados), permitindo registrar narrativas ou informações não numéricas / Ilustração gerada por IA
Especialistas acreditam que o mestre não apenas 'lia' os números. Ele usava a estrutura lógica do quipu para comparar dados, calcular médias e tomar decisões administrativas complexas, simulando a função de processamento de um computador / Ilustração gerada por IA
Especialistas acreditam que o mestre não apenas 'lia' os números. Ele usava a estrutura lógica do quipu para comparar dados, calcular médias e tomar decisões administrativas complexas, simulando a função de processamento de um computador / Ilustração gerada por IA
Os quipus não eram isolados. Eles eram 'carregados' de todas as regiões para centros administrativos centrais. Isso criava uma rede de informações em larga escala, permitindo que o imperador controlasse estoques, censo e tributos em um território vasto, muito antes da era digital / Ilustração gerada por IA
Os quipus não eram isolados. Eles eram 'carregados' de todas as regiões para centros administrativos centrais. Isso criava uma rede de informações em larga escala, permitindo que o imperador controlasse estoques, censo e tributos em um território vasto, muito antes da era digital / Ilustração gerada por IA

Organização que revela complexidade

Todavia, novas análises mudaram o foco da interpretação: em vez de olhar apenas para os números, pesquisadores passaram a examinar a forma como as cordas se distribuem e se conectam. 

O arranjo apresenta níveis de organização que lembram estruturas de árvores, utilizadas em bancos de dados e sistemas digitais. Essa disposição hierárquica sugere um modelo de arquivamento mais elaborado do que se supunha.

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Cada corda principal pode sustentar ramificações sucessivas, criando camadas de informação interligadas. Esse padrão se aproxima da lógica de diretórios e subdiretórios presentes em sistemas operacionais. 

A semelhança não passou despercebida e reforçou a hipótese de que o quipu funcionava como um sistema estruturado de dados, capaz de organizar informações em diferentes níveis.

Saiba também que entre ruínas incas e vulcões, esta cidade se tornou o primeiro Patrimônio da Humanidade.

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Experimentos com linguagens atuais

Parte da pesquisa buscou traduzir essa lógica para o ambiente contemporâneo. Cientistas utilizaram linguagens como C++ e Python para recriar digitalmente a estrutura dos cordões. 

A experiência resultou em um modelo capaz de organizar dados de forma hierárquica, permitindo o desenvolvimento de aplicações semelhantes a planilhas, sistemas de arquivos e até mecanismos de criptografia baseados na lógica dos nós.

Especialistas destacam que a comparação com a computação não envolve componentes eletrônicos; o ponto central está na maneira como as informações eram estruturadas e processadas.

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Assim, o quipu se apresenta como uma solução eficiente construída com recursos simples, como fibras, cores e diferentes formas de amarração.

Sistema nós incasSistema de nós dos Incas funcionava como os atuais de armazenamento / Divulgação

Indícios além dos números

Outro aspecto que mantém o interesse dos pesquisadores diz respeito ao tipo de conteúdo registrado. Há sinais de que o sistema não se limitava a valores numéricos. 

Combinações específicas de cores, posições e tipos de nós podem ter carregado significados mais amplos, possivelmente ligados a narrativas ou elementos linguísticos. Caso essa hipótese seja confirmada, o quipu se aproximaria de formas complexas de codificação.

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Impacto na história da tecnologia

Esse debate também provoca uma revisão no modo como a evolução dos sistemas de informação costuma ser apresentada. A trajetória tradicional destaca contribuições da Europa e do Oriente Médio, como a escrita cuneiforme e mecanismos da Antiguidade clássica. 

Contudo, a reinterpretação do quipu amplia esse cenário ao evidenciar soluções desenvolvidas nas Américas pré-colombianas.

Comparações com o mecanismo de Anticítera surgem como referência frequente, e enquanto o artefato grego utilizava engrenagens para cálculos astronômicos, o sistema andino seguia um caminho distinto, baseado em organização têxtil e lógica estrutural. 

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Ambos demonstram que diferentes sociedades criaram métodos sofisticados para lidar com informação muito antes da tecnologia eletrônica.

Mais do que um objeto arqueológico, o quipu passa a ser entendido como expressão de uma inteligência aplicada à organização do conhecimento.

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