Em um relato direto, ela fala sobre julgamentos, perdas e a ideia de que toda escolha envolve risco, com ou sem filhos / Reprodução/YT
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A decisão de não ter filhos costuma ser tratada como algo que se resolve na juventude, mas Maria Coffey descreve outra realidade. Para ela, a escolha continua conversando com o presente, inclusive agora, aos 71 anos.
No livro Instead: Navigating the Adventures of a Childfree Life, publicado em 2023, Coffey narra a vida que construiu com o marido, Dag Goering, entre viagens e mudanças. O foco é o efeito acumulado dessa decisão ao longo do tempo.
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O relato mostra um ponto que vale para qualquer caminho. Escolhas grandes trazem ganhos e perdas, e podem carregar um “e se?” que reaparece quando a vida muda o cenário, sem pedir licença.
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Coffey diz que a ideia de destino pesa mais do que parece. “Acho que muita gente cresce com a ideia de que ter filhos é o nosso destino biológico”, afirmou, em ligação da Catalunha.
Ela diz que não sentia isso, e que a diferença de desejo pode virar cobrança. Às vezes, a cobrança chega como julgamento; em outras, como perguntas repetidas em reuniões e encontros.
Ao lembrar da mãe, Coffey explica que o conflito foi íntimo. “Eu não queria a vida que minha mãe queria para mim, uma vida estabelecida, segura, com plano de aposentadoria e um emprego fixo. Eu sabia que queria um tipo de vida diferente.”
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Ela diz que escolheu uma vida menos previsível. Ainda assim, reconhece que sustentar essa escolha cobra energia quando o entorno trata a decisão como falta, e não como caminho.
Nascida na Inglaterra, filha de pais irlandeses católicos da classe trabalhadora, Coffey se descreve como alguém que buscava aventura. Ao olhar para trás, ela vê eventos que mexeram com sua relação com risco e segurança.
Ela quase se afogou e passou a sentir urgência de viver se se prender à expectativa alheia. Depois, a morte do primeiro grande amor em um acidente de montanhismo reforçou a ligação entre amor e perda.
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Na casa dos 30, Coffey foi para a costa oeste do Canadá, conheceu Dag em Nanaimo e os dois seguiram uma vida de viagens. Ao longo do caminho, escreveram, fotografaram e trabalharam em diferentes lugares.
Em comunidades remotas, a escolha sem filhos parecia incompreensível. “Quando eu viajava muito para lugares remotos, foi quando me fizeram sentir meio estranha em comunidades onde a escolha de não ter filhos é completamente inconcebível.”
Depois, o julgamento virou roteiro de perguntas. “Depois... as perguntas eram: você teve filhos? Você tem netos? E vinha aquela enorme perplexidade.”
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Durante uma viagem ao Vietnã, Coffey conheceu Bac, uma menina que vivia na rua, e tentou ajudá-la. Ali, ela diz que experimentou um amor inesperado, sem relação direta com maternidade, mas com impacto real.
Ela descreve o sentimento como ter sido pega de surpresa. Com o tempo, Coffey conclui que não ter tido um filho não protege do luto, porque vínculos e perdas também nascem em outras formas de relação.
Coffey dá nome ao puxão do caminho não vivido: “counterfactual curiosity”. Para ela, é a curiosidade pelo que poderia ter sido, algo que pode aparecer mesmo quando a decisão foi bem pensada.
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O tema voltou com força quando Dag sofreu um acidente grave de bicicleta. Coffey diz que imaginou se teria sido reconfortante ter um filho com ele, e conta que o casal conversou com profundidade.
Ela relata a conversa com o marido sem tentar criar lição pronta. “Eu disse ao Dag: ‘você acha que a velhice seria mais fácil e suportável se tivéssemos filhos?’ E ele disse: ‘acho que é como lançar um foguete para o futuro com um pedacinho de você preso nele’. De certo modo, você não morre de verdade”, diz Coffey.
Para ela, a metáfora do foguete traduz a ideia de continuidade. Ela não aparece como garantia, mas como reflexão sobre o que a velhice pode despertar em quem escolheu uma vida childfree.
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O livro não aponta um certo universal, mas ajuda a organizar o que pesa. Coffey insiste que a decisão não elimina a dor, e que nenhum caminho garante proteção total contra perdas.
Quando fazem a pergunta hoje, Coffey responde com clareza. “Eu costumo dizer que, quando mulheres jovens me fazem hoje a pergunta do bebê, eu respondo que é tudo um risco. Não ter um filho é um risco, ter um filho é um risco. A vida é um risco.”
Ela reforça lembrando que a parentalidade também traz perdas e distâncias. “Eu conheço pessoas cujos filhos morreram, e isso é a pior coisa.” E completa: “Há tanto potencial de sofrimento”, diz Coffey.
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Coffey não trata a própria trajetória como receita e não minimiza dúvidas. “Você só precisa seguir o seu coração”, diz ela.
E completa: “O que quer que te puxe, vá na direção disso.”