Quem usou a internet no Brasil entre 2010 e 2014 lembra bem. Bastava abrir o email e lá estava: um cupom com 70% de desconto num rodízio de pizza, numa massagem ou numa academia. O Peixe Urbano foi o grande nome desse modelo, as compras coletivas, que prometiam revolucionar o consumo no país. Só que a revolução não durou. Em 2021, após uma década de existência, o site pioneiro encerrou as operações. O que aconteceu?
A ascensão meteórica
Fundado em 2010 por Júlio Vasconcellos, ex executivo do Facebook no Brasil, o Peixe Urbano cresceu numa velocidade impressionante. O modelo era simples: oferecer descontos agressivos de 50% a 90% em restaurantes, salões de beleza, academias e serviços. O cupom só era ativado se um número mínimo de pessoas comprasse. Em 2014, o gigante chinês Baidu comprou a empresa por cerca de US$ 100 milhões. O Brasil tinha dezenas de concorrentes, como ClickOn, Groupon Brasil, Oferta Única e SaveMe. Mas o Peixe Urbano era o líder absoluto.
Veja abaixo um vídeo feito em 2010 mostrando a rápida ascensão do Peixe Urbano no Brasil:
O problema estava no modelo
O crescimento rápido escondia uma fragilidade mortal. Os comerciantes vendiam muito, mas perdiam dinheiro em cada venda. O desconto agressivo era insustentável. O cliente que comprava o cupom dificilmente voltava sem ele. Além disso, o estabelecimento precisava atender um volume enorme de pessoas com margem negativa. Muitos quebraram. O Sebrae chegou a alertar sobre os riscos do modelo para pequenos negócios. A insatisfação dos comerciantes cresceu e a oferta de cupons começou a encolher.
A concorrência mudou o jogo
Enquanto as compras coletivas definhavam, novos modelos ocuparam o espaço. O iFood e outros apps de entrega permitiam descontos sem o compromisso da compra mínima. Grandes varejistas criaram seus próprios marketplaces com ofertas diretas, eliminando a necessidade do intermediário. O consumidor já não precisava esperar um cupom no email para conseguir preço baixo. A praticidade dos apps venceu a lógica do desconto programado.
A fusão que não salvou
Em novembro de 2017, o Peixe Urbano e o Groupon Brasil anunciaram a fusão das operações. As duas empresas, que eram rivais históricas, uniram forças para tentar sobreviver. O sistema Use Agora, que permitia comprar e usar o cupom na hora, correspondia a 90% das ofertas do Peixe Urbano na época. Mas nem a união com o Groupon segurou o declínio. Em 2021, o Peixe Urbano encerrou as atividades de vez.
O ClickOn também não resistiu
O ClickOn, fundado em 2010 em São Paulo, tentou migrar para o segmento de viagens e pacotes turísticos. A estratégia atrasou o fim, mas não evitou. A plataforma também está listada como encerrada. O Groupon ainda existe, mas numa versão muito enxuta. Em junho de 2025, a empresa anunciou uma reestruturação financeira de US$ 244 milhões para tentar se manter de pé. Em fóruns de consumidores, as reclamações contra o site se acumulam, com acusações de que o modelo atual se tornou abusivo.
O legado das compras coletivas
O fenômeno das compras coletivas no Brasil deixou uma lição clara. Modelos de negócio baseados apenas em queimar preço raramente são sustentáveis. O Peixe Urbano foi pioneiro, inovou e cresceu rápido, mas não conseguiu se reinventar quando o mercado mudou. Hoje, ele é lembrado com nostalgia por quem viveu a época dos cupons impressos levados dobrados na carteira. Mas o modelo, definitivamente, ficou no passado.
O cupom de desconto do DL com a Kombosa mostra que a lógica dos descontos ainda existe, mas num formato mais local e direto, sem intermediários.
Fontes: Diário do Nordeste, TI Inside, Estadão, Portada, TechCrunch, Projeto Draft, Tracxn, Instagram @curiosomercado, Groupon Investor Relations (2025).
