Diário Mais
Entenda como o gotejamento geológico criou a ilusão de um curso d'água que corre morro acima nos Estados Unidos
Estimativas indicam que o Green River mantém seu trajeto há mais de 8 milhões de anos. / Wikimedia Commons
Continua depois da publicidade
O que parece desafiar a gravidade, na verdade, é um truque da própria Terra. Em trechos do Green River (o “Rio Verde”), nos Estados Unidos, muita gente tem a sensação de que a água sobe a encosta — como se o curso d’água “corresse morro acima”.
A cena, que por décadas alimentou dúvidas e curiosidade, ganhou uma explicação mais convincente com a análise detalhada da história geológica da região.
Continua depois da publicidade
O Green River é um dos rios mais relevantes do Oeste americano. Ele atravessa áreas de Wyoming, Utah e Colorado e cumpre um papel importante tanto no abastecimento de comunidades quanto no lazer, com atividades como pesca e passeios em suas margens.
A “subida” não é real. O que muda, segundo os pesquisadores, é o terreno ao redor. Em outras palavras: não é a água que vence a gravidade, e sim a paisagem que foi se reconfigurando ao longo de milhões de anos, criando um efeito visual enganoso em alguns pontos do trajeto.
Continua depois da publicidade
Essa impressão incomum chamou atenção porque o rio preserva um caminho antigo por uma área montanhosa complexa — e aí está a parte intrigante da história.
Nesse contexto, vale lembrar que, no Brasil, um rio também é famoso em por ter uma característica única e 'correr ao contrário'.
Estimativas indicam que o Green River mantém seu trajeto há mais de 8 milhões de anos. Já as formações por onde ele passa são bem mais antigas: há cadeias montanhosas na região com cerca de 50 milhões de anos.
Continua depois da publicidade
Ao longo desse percurso, o rio nasce na cordilheira Wind River e também esteve ligado à formação do Cânion de Lodore, um trecho conhecido por suas paredes rochosas e pelo recorte dramático na paisagem.
A diferença entre a idade do rio e a antiguidade das estruturas ao redor abriu espaço para uma pergunta central: se as montanhas já estavam ali há tanto tempo, por que o relevo parece “contradizer” o sentido natural do escoamento em alguns pontos?
Continua depois da publicidade
Para entender o quebra-cabeça, uma equipe liderada pelo geólogo Adam Smith, da Universidade de Glasgow, reconstituiu a evolução da área com apoio de imagens sísmicas e modelagens baseadas em dados geológicos.
O resultado aponta que a sensação de “rio subindo” está associada a mudanças graduais no relevo das Montanhas Uinta.
Em vez de um curso d’água invertido, o que aconteceu foi um rebaixamento progressivo do terreno em determinadas fases, alterando as referências visuais e a leitura intuitiva do declive.
Continua depois da publicidade
O mecanismo sugerido para esse rebaixamento é um processo conhecido como gotejamento litosférico.
Em termos simples, parte da crosta (a camada mais externa do planeta) pode aquecer, engrossar e, com o tempo, afundar em direção ao manto — como se “pingasse” lentamente para dentro da Terra.
Os dados analisados indicam que esse rebaixamento teria ocorrido entre 2 e 5 milhões de anos atrás. Depois disso, a região entrou em uma etapa de recuperação e remodelação do relevo, enquanto o Green River foi ajustando sua rota às transformações do ambiente ao longo do tempo.
Continua depois da publicidade
A conclusão ajuda a colocar o fenômeno em perspectiva: rios raramente fazem “milagre”, mas podem atravessar períodos longos o bastante para registrar, no próprio caminho, as mudanças silenciosas do planeta.
O que parece impossível à primeira vista, muitas vezes, é apenas o encontro entre um curso d’água persistente e um cenário que nunca ficou realmente parado.