No mapa do cosmos, há lugares onde o espaço parece ter sido esquecido pela matéria / Reprodução Facebook/XPLOREviaTiyanak
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Imagine um voo transatlântico ligando o Brasil à Europa. São horas sobre o oceano, tempo suficiente para cruzar rotas comerciais intensas, observar navios, ilhas, plataformas marítimas e sinais constantes de atividade humana.
Agora imagine que, durante todo esse trajeto, aparecessem apenas meia dúzia de pequenos pontos isolados, e depois, absolutamente nada. Nenhuma referência, nenhum movimento, apenas um vazio prolongado e inquietante.
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Esse cenário de ausência extrema existe de verdade, mas não na Terra. Ele está no espaço e atende pelo nome de Vazio de Boötes, uma das maiores regiões quase vazias já identificadas no Universo.
Com um diâmetro estimado entre 300 e 330 milhões de anos-luz (sendo que um único ano-luz equivale a cerca de 9,46 trilhões de quilômetros), essa estrutura é tão colossal que desafia a intuição humana. Para comparação, a distância entre o Sol e Netuno, o planeta mais distante do Sistema Solar, corresponde a apenas 0,0005 ano-luz.
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Localizado a aproximadamente 700 milhões de anos-luz da Terra, o Vazio de Boötes contém pouquíssima matéria visível. Em uma região onde os astrônomos esperariam encontrar milhares de galáxias, há apenas cerca de 60, muitas delas concentradas em uma estrutura alongada, semelhante a um tubo.
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A existência desse vazio foi confirmada em 1981 pelo astrônomo norte-americano Robert P. Kirshner e sua equipe, durante levantamentos baseados no fenômeno do redshift, método que permite calcular a distância e o movimento de objetos celestes a partir da luz que emitem.
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A região está situada na constelação de Boötes e é cercada por grandes concentrações de galáxias, como os superaglomerados de Hércules e da região da Ursa Maior.
Embora os chamados vazios cósmicos já fossem conhecidos desde o fim da década de 1970, o Vazio de Boötes causou espanto por sua dimensão extrema. Ele parecia grande demais para ser tão deserto. A partir daí, uma pergunta inevitável passou a dominar o debate científico: por que essa parte do Universo é tão vazia?
A ausência quase total de galáxias acabou alimentando teorias fora do campo científico. Em fóruns conspiratórios e vídeos na internet, surgiram hipóteses que envolvem civilizações extraterrestres avançadas ocultando estrelas por meio de esferas de Dyson, buracos negros supermassivos invisíveis ou até mesmo a ideia de que o vazio seria uma prova contra o Big Bang e a cosmologia moderna.
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Nenhuma dessas teorias, no entanto, possui respaldo observacional. A explicação aceita pela ciência é bem mais simples, e igualmente impressionante.
Desde os primeiros instantes após o início da expansão do Universo, a matéria não se distribuiu de forma uniforme. Algumas regiões ficaram ligeiramente mais densas, enquanto outras se tornaram progressivamente mais vazias. As áreas mais densas colapsaram sob a ação da gravidade, formando galáxias e aglomerados que passaram a atrair ainda mais matéria ao seu redor.
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Esse processo deu origem à chamada “teia cósmica”, uma estrutura que lembra uma espuma: filamentos densos repletos de galáxias interligados por enormes vazios com baixíssima densidade de matéria.
Estima-se que esses vazios ocupem cerca de 80% do volume do Universo observável. Muitos deles se conectam ao longo do tempo, formando regiões ainda maiores, como aconteceu com o Vazio de Boötes.
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Assim, apesar de seu tamanho impressionante, ele não é uma anomalia misteriosa nem um fenômeno alienígena. É apenas o maior exemplo conhecido de um processo natural que molda a arquitetura do cosmos.
Paradoxalmente, essas regiões quase desertas são extremamente valiosas para a ciência. Por sofrerem menos influência gravitacional, os vazios funcionam como verdadeiros laboratórios naturais, permitindo testar modelos cosmológicos, estudar a expansão do Universo e compreender melhor como as galáxias se formam e evoluem em ambientes extremos.
No fim das contas, o “nada” do Vazio de Boötes ajuda a explicar tudo aquilo que preenche o Universo.
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