Quando o bebê deixa de chorar após repetidas tentativas ignoradas, não significa que tenha aprendido a se autorregular. Aprendeu, na verdade, que pedir não adianta / Freepik
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O fato de um bebê deixar de chorar não significa, necessariamente, que ele seja tranquilo. Pode indicar apenas que aprendeu, cedo demais, que seu chamado não será atendido.
Essa é uma das reflexões apresentadas por Rafa Guerrero, psicólogo e psicoterapeuta especializado em apego, trauma e desenvolvimento emocional infantil, em entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia.
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Segundo ele, os impactos da negligência na primeira infância nem sempre aparecem de forma evidente, mas permanecem ao longo do tempo.
“Muitas vezes educamos sem considerar o mundo emocional, e isso traz consequências”, afirma, com base em sua prática clínica e experiência na área educacional.
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De acordo com o especialista, esses efeitos nem sempre surgem de imediato. Ainda assim, ficam registrados na estrutura emocional da pessoa.
A ênfase quase exclusiva no comportamento, no rendimento e no controle teria colocado as emoções em segundo plano. Para Guerrero, porém, é justamente o campo emocional que sustenta todo o restante do desenvolvimento.
Para tornar mais acessíveis conceitos técnicos, o psicólogo recorreu a uma imagem simples: o cérebro como uma casa.
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“Estamos focados no sótão e esquecemos a fundação”, resume. O sótão representaria o neocórtex, área ligada às funções racionais, como aprender, memorizar, raciocinar e seguir regras.
A fundação, por sua vez, simboliza o universo emocional: apego, segurança, vínculo e capacidade de regulação. São esses elementos que funcionam como base da personalidade.
O desequilíbrio surge, segundo ele, quando se tenta educar de cima para baixo, exigindo comportamentos e desempenho sem assegurar que os alicerces estejam firmes. “Quando olhamos apenas para o comportamento, estamos lidando só com a ponta do iceberg”, explica.
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Atitudes consideradas difíceis ou preocupantes podem esconder medo, tristeza, insegurança, raiva ou vivências não elaboradas.
No consultório, Guerrero atende com frequência crianças classificadas como “problemáticas”. O ponto central, afirma, é que raramente alguém perguntou o que elas estavam sentindo.
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“O comportamento não é o problema, é o sintoma”, reforça. Ignorar a origem e tratar apenas a manifestação visível tende a prolongar o sofrimento e torná-lo crônico.
Para o psicoterapeuta, concentrar-se apenas no que é aparente representa uma das grandes falhas na forma como a sociedade encara a educação. “É mais confortável corrigir o que vemos do que enfrentar o que não aparece”, observa.
Mas aquilo que não é visto não deixa de existir. Assim como um iceberg depende da massa submersa para se sustentar, a criança também precisa de uma base emocional consistente. Sem segurança afetiva, as cobranças cognitivas e comportamentais tornam-se excessivas.
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Durante muito tempo, acreditou-se que os bebês não guardavam lembranças dos primeiros anos de vida. Hoje, entende-se que, ainda que inconscientes, essas experiências são registradas. “Os bebês sentem, registram e se adaptam”, afirma Guerrero.
O choro, portanto, não é manipulação nem capricho. É o principal recurso de sobrevivência do bebê. “Ele não chora para irritar; chora porque precisa de algo”, diz o psicólogo — seja acolhimento, segurança ou ajuda para se regular emocionalmente.
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Quando há resposta, o cérebro interpreta o ambiente como seguro. Quando não há, a mensagem é diferente. “A criança não para de chorar porque está bem; ela para porque aprendeu que ninguém virá.”
Não é serenidade, mas resignação. Um aprendizado silencioso que pode influenciar a maneira como essa pessoa se perceberá e se relacionará ao longo da vida.
Guerrero critica práticas que defendem deixar o bebê chorar para que “aprenda”. Para ele, esse tipo de método, difundido por anos, parte de uma leitura equivocada do desenvolvimento infantil. “Autonomia não é desconexão”, pontua.
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Quando o bebê deixa de chorar após repetidas tentativas ignoradas, não significa que tenha aprendido a se autorregular. Aprendeu, na verdade, que pedir não adianta.
A mensagem internalizada é a de que está sozinho diante do que sente. Essa crença pode acompanhar pessoas que cresceram em contextos traumáticos, onde não se sentiram vistas nem escutadas.
“O trauma nem sempre aparece como lembrança clara; às vezes surge como ansiedade, entorpecimento emocional ou um sentimento persistente de inadequação”, conclui Guerrero.