Renato Russo escreveu canções atemporais, profundas e poéticas / Reprodução/Internet
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Poucos acordes na história do rock nacional são tão imediatamente reconhecíveis quanto a introdução simples, suja e agressiva de "Que País É Este". Mas, mais impressionante que a melodia, é a letra. Quase quarenta anos após seu lançamento oficial, a pergunta gritada por Renato Russo continua ecoando nas rádios, nos protestos e, principalmente, no sentimento coletivo do brasileiro em 2026. Parecia uma crítica pontual, mas virou uma profecia.
Embora tenha estourado nas paradas em 1987, no álbum homônimo da Legião Urbana, a música é ainda mais antiga. Renato Russo compôs a letra em 1978, quando ainda fazia parte da banda Aborto Elétrico, em plena ditadura militar.
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Durante anos, Renato se recusou a gravá-la. Ele tinha uma esperança ingênua — e trágica — de que a letra se tornaria obsoleta, que o Brasil mudaria e a música perderia o sentido. Em 1987, durante o governo Sarney e a redemocratização, a banda percebeu que nada havia mudado e decidiu lançar a faixa. O tempo provou que o pessimismo do compositor estava certo: a canção não só sobreviveu, como ganhou força.
Ouvir "Que País É Este" hoje chega a ser assustador. Versos como "Nas favelas, no Senado / Sujeira pra todo lado" parecem ter sido escritos nesta manhã, ao ler as manchetes dos jornais online.
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A música ignora partidos e ideologias; ela ataca a estrutura sistêmica da corrupção e da desigualdade, algo que dialoga perfeitamente com o cenário polarizado e descrente da política atual.
A indignação de Renato com o fato de "ninguém respeita a Constituição" e a sensação de que "o futuro não é mais como era antigamente" (citando outra faixa, mas no mesmo espírito) resume o cansaço do eleitor moderno, que vê os anos passarem e os problemas crônicos se repetirem com novos personagens.
A genialidade — e a tristeza — da obra está na sua universalidade. Em shows tributo ou playlists de streaming, ela ainda é cantada a plenos pulmões por jovens que nem eram nascidos quando Renato morreu.
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Mais do que um rock de três acordes, a música virou um editorial sociológico. Enquanto houver impunidade e abismos sociais, a Legião Urbana continuará atual. "Que País É Este" deixou de ser apenas uma pergunta retórica para se tornar um desabafo nacional que, infelizmente, ainda estamos longe de responder com orgulho.