Imagine morar em um bairro tranquilo, cercado por árvores e silêncio, e descobrir que, a poucos metros da sua casa, um enorme prédio sem janelas passaria a tirar água da sua casa para manter servidores ligados o tempo todo.
É exatamente esse cenário que vem chamando atenção no estado da Geórgia, nos Estados Unidos. A região, que virou um dos principais polos de data centers do país, agora enfrenta críticas de moradores preocupados com os impactos ambientais das estruturas.
O motivo parece saído de um filme futurista. Os prédios gigantescos, usados para sustentar redes sociais, inteligência artificial e serviços online, precisam operar sem interrupção. Para isso, dependem de sistemas intensos de resfriamento movidos a água, gastando milhões de litros por dia.
Enquanto empresas de tecnologia ampliam investimentos bilionários em inteligência artificial, comunidades locais relatam mudanças no abastecimento, aumento de sedimentos e preocupação crescente com rios e poços da região.
Bairro virou símbolo do avanço da IA
No condado de Fayette, na Geórgia, Estados Unidos, a aposentada Beverly Morris afirma, em entrevista à BBC, que sua rotina mudou completamente após a construção de um centro de dados da Meta, empresa controladora do Facebook, a cerca de 300 metros de sua casa.
Segundo Morris, o poço da residência começou a apresentar problemas depois das obras. Hoje, ela relata dificuldade para utilizar a água normalmente e afirma conviver com sedimentos saindo das torneiras.
“Não consigo morar na minha casa se ela estiver funcionando apenas pela metade e se eu não puder beber a água”, disse ela à BBC. A moradora afirma que chegou a carregar baldes de água para conseguir usar o banheiro.
A Meta nega qualquer relação entre o funcionamento do data center e os problemas relatados. Em nota, a empresa afirmou que um estudo independente não identificou impactos negativos nas águas subterrâneas da região.
Consumo invisível por trás da IA
O caso da Geórgia expôs um detalhe pouco conhecido sobre a inteligência artificial: ela depende de enormes quantidades de água para funcionar. Isso acontece porque os servidores usados pelos sistemas esquentam rapidamente.
Para evitar superaquecimento, muitos centros de dados utilizam resfriamento evaporativo. Nesse método, a água absorve o calor e evapora, em um processo parecido com o suor do corpo humano.
Em dias quentes, um único data center pode consumir milhões de litros diariamente. Segundo um estudo citado pela BBC, centros ligados à IA poderão utilizar entre 4,2 e 6,6 bilhões de metros cúbicos de água até 2027.
Especialistas afirmam que até uma simples pergunta feita a uma inteligência artificial pode ter impacto ambiental. Uma única solicitação ao ChatGPT, por exemplo, pode consumir o equivalente a uma pequena garrafa de água.
Moradores acompanham mudanças nos rios
Na mesma região da Geórgia, organizações ambientais passaram a monitorar riachos próximos a obras de novos data centers. Em algumas áreas, voluntários encontraram água turva e com coloração marrom.
Gordon Rogers, diretor da organização Flint Riverkeeper, afirma que moradores temem que sedimentos e resíduos usados nas construções estejam afetando cursos d’água locais. Para ele, o avanço tecnológico precisa respeitar as comunidades.
“Eles não deveriam fazer isso”, afirmou Rogers. “Um proprietário mais rico não tem mais direitos de propriedade do que um com menos recursos.”
Enquanto isso, empresas do setor defendem que os centros de dados geram empregos, arrecadação e investimentos bilionários. A AWS, da Amazon, afirma que trabalha para devolver mais água às comunidades do que consome até 2030.
Mesmo assim, o debate cresce junto com a inteligência artificial. Na Geórgia, moradores dizem que o futuro digital já chegou. E, para muitos deles, ele veio acompanhado de barulho, obras e medo de faltar água.






