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Conheça a jornada do municÃpio, que saiu da lista de locais mais poluÃdos do mundo para se tornar um exemplo global de recuperação
De uma das cidades mais poluÃdas do mundo, Cubatão se reinventou e hoje é um exemplo de recuperação ambiental / Renan Lousada/DL
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O céu coberto por uma névoa densa, a respiração difícil e os olhos que não paravam de lacrimejar. Nas décadas de 1970 e 1980, esse cenário fez com que a cidade de Cubatão, no litoral de São Paulo, ficasse conhecida como o "Vale da Morte".
O apelido cruel tinha uma justificativa séria: a Organização das Nações Unidas (ONU) apontou a cidade como o lugar mais poluído do planeta.
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Mais de quatro décadas depois, a mesma organização concedeu a Cubatão o selo verde, um reconhecimento que atesta a recuperação ambiental do município.
Essa transformação monumental é celebrada por quem a viveu de perto, como a moradora Dalva Simões, de 72 anos, que lembra do choque imediato ao se mudar para a cidade em 1970.
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Ela recorda que os efeitos da poluição eram assustadores e imediatos. "Fui até minha vizinha e desabafei: 'Os olhos meus, da minha mãe, dos meus irmãos pequenos, não param de lacrimejar e estão ardendo muito'", conta Dalva. "Foi aí que a vizinha me alertou que era a poluição. Foi uma época muito difícil".
A vida era dura. O ar de Cubatão estava saturado por uma névoa e um cheiro constante de produtos químicos. A vegetação, antes abundante na região da Serra do Mar, era quase inexistente. Dalva relembra que a visibilidade era tão baixa pela manhã que "a gente não enxergava nada".
A situação se agravou na extinta Vila Parisi, uma comunidade no coração do polo industrial. Os moradores sofriam com doenças respiratórias, problemas de pele, câncer e casos de anencefalia.
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O cenário começou a mudar após a trágica explosão de um duto da Petrobras na Vila Socó, que, em 1984 matou 93 pessoas. A partir daí, a pressão da sociedade e a ação de autoridades impulsionaram um grande programa de recuperação ambiental na cidade.
A fiscalização rigorosa da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) sobre as indústrias, combinada com o replantio massivo de árvores e a recuperação de rios, como o Rio Cubatão, foram passos cruciais.
A Cetesb identificou as fontes de poluição, exigindo que as indústrias instalassem equipamentos de controle. Naquela época, as empresas siderúrgicas, petroquímicas e químicas operavam sem qualquer filtro.
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Filtros, lavadores de gases e precipitadores eletrostáticos foram implementados, o que resultou na redução significativa de poluentes.
A Cetesb informa que a qualidade do ar hoje é considerada boa em 96% do tempo, e as reclamações anuais da população caíram de aproximadamente mil na década de 1980 para menos de cinquenta atualmente.
Os esforços de recuperação da Mata Atlântica também renderam a Cubatão o reconhecimento na ECO-92 como "Exemplo Mundial de Recuperação Ambiental". A Serra do Mar, antes devastada e propensa a deslizamentos, teve grande parte reflorestada.
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Hoje, a cidade se destaca pelo retorno de animais como o guará-vermelho aos manguezais, um símbolo de sua renascimento ambiental. Dalva celebra a nova realidade: "Hoje vejo pássaros na minha janela". Ela finaliza, "Teve uma mudança muito grande. Em vista de tudo que vivemos, hoje realmente é outra coisa."
*Texto escrito por Julia Teixeira