Mar de sangue? Entenda o fenômeno de potencial tóxico que assusta o litoral de SP

Popularmente conhecida como maré vermelha, a ocorrência chamou atenção porque esse tipo de microalga não é habitual na costa paulista

Maré vermelha é um fenômeno causado por algas marinhas que podem mudar a coloração da água

Maré vermelha é um fenômeno causado por algas marinhas que podem mudar a coloração da água | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Pesquisadores do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP identificaram, no fim deste verão, uma floração de microalgas do gênero Margalefidinium no Canal de São Sebastião.

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Popularmente conhecida como maré vermelha, a ocorrência chamou atenção porque esse tipo de microalga não é habitual na costa de São Paulo e, além disso, pode ser tóxico para peixes e outros organismos marinhos.

O fenômeno foi observado nas praias de Guaecá e do Segredo, em São Sebastião, nos dias 13 e 14 de março, mas o pico de concentração aconteceu no dia 14, quando foram contabilizados até 2 milhões de organismos por litro de água.

Áurea Ciotti, do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (Cebimar), conta ao Jornal da USP que essa é uma espécie pouco registrada.

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“Aqui [em São Paulo], eu nunca tinha encontrado. Liguei para vários colegas para saber se já tinham visto e ninguém conhecia. Isso não significa que não existia, mas que não havia sido detectada. Não é frequente por aqui”, disse.

Lembrando que esse gênero de microalgas foi descrito pela primeira vez na Ásia. Para identificá-lo, a docente contou com apoio de pesquisadoras de outros Estados.

Especialista em ecologia do fitoplâncton — grupo ao qual pertencem as microalgas — e em oceanografia bio-óptica, Ciotti explica que a maré vermelha é um dos fatores capazes de modificar a cor do mar.

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Apesar de invisíveis a olho nu, esses microrganismos, quando presentes em grande quantidade, formam manchas coloridas — geralmente avermelhadas — na superfície.

No caso dos dinoflagelados, grupo que inclui as microalgas registradas em março, a densidade normal no Canal de São Sebastião costuma ser de apenas algumas centenas de organismos por litro.

As florações surgem quando as condições de temperatura e nutrientes favorecem a multiplicação de certas espécies.

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Segundo Ciotti, ainda não é possível determinar a origem dessas microalgas incomuns no litoral paulista. As manchas coloridas se deslocam com as correntes marítimas e, conforme a Cetesb, há registros de florações que chegam a São Paulo vindas do Paraná, Santa Catarina ou até do Uruguai.

Chuvas intensas e esgoto podem ter influenciado

Os pesquisadores do Cebimar levantam a hipótese de que as fortes chuvas de março tenham estimulado o aumento dos microrganismos, já que a salinidade registrada no Canal de São Sebastião estava abaixo do normal. Vale lembrar que o litoral de São Paulo entrou em estado de alerta.

As precipitações aumentam o volume dos rios e córregos que desembocam no mar e arrastam nutrientes do solo, funcionando como um fertilizante natural para essas algas microscópicas. Durante as coletas de 13 e 14 de março, a temperatura da água chegou a 29 °C. O caso foi comunicado à Cetesb.

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Ciotti lembra que diversos fatores podem contribuir para florações de fitoplâncton, como mudanças climáticas ou a entrada de espécies via água de lastro de navios. No entanto, ela destaca a relação com a ocupação humana.

“Em muitos ambientes costeiros com histórico de maré vermelha, há um vínculo forte com o uso e ocupação do solo. Construções e erosão acabam levando mais nutrientes para o mar”, afirma, mencionando também a coleta insuficiente de esgoto.

Segundo a PNAD Contínua 2017, 88,9% dos domicílios do Sudeste tinham ligação à rede geral, mas esse índice varia por município. Dados do Censo 2010 indicavam que, em São Sebastião, 82,1% das casas tinham coleta adequada, enquanto na vizinha Ilhabela o índice era de apenas 36%.

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Quando há aumento repentino de nutrientes, explica a docente, o equilíbrio mantido por milhões de anos se rompe e as microalgas se multiplicam rapidamente. “Elas são unicelulares e basta um pouco mais de nitrogênio para se dividirem”, detalha.

Ela é coautora de um artigo publicado no site do Cebimar sobre a importância do monitoramento dessas florações.

No verão anterior, entre dezembro de 2018 e março de 2019, a Cetesb investigou sete relatos de manchas avermelhadas ou acastanhadas no litoral paulista, nem todas relacionadas a microalgas.