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Vídeos de presentes no encontro citando a 'manipulação' dessas antenas para causar a tempestade no último domingo começaram a circular
Antenas do projeto HAARP são citadas por manifestantes como causadoras do raio em Brasília / Reprodução/Internet
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Vídeos que circulam nas redes sociais desde o último domingo tentam atribuir a forte tempestade que atingiu Brasília – e a descarga elétrica que feriu dezenas de manifestantes – a uma suposta manipulação tecnológica por parte da esquerda. A teoria aponta as antenas do projeto HAARP como a "arma" utilizada. No entanto, segundo a comunidade científica global e físicos atmosféricos, essa alegação é fisicamente impossível.
Vídeos de manifestantes bolsonaristas dizendo que a esquerda teria se infiltrado no projeto americano para direcionar tempestades e raios ao Planalto Central começaram a circular nas redes socias e já estão sendo compartilhados, também, por políticos da própria esquerda, como Duda Salabert, em tom de ironia.
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A sigla significa High Frequency Active Auroral Research Program (Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Frequência). Longe de ser uma arma secreta, trata-se de um observatório científico localizado em Gakona, no Alasca (EUA), operado pela Universidade do Alasca Fairbanks desde 2015.
O projeto consiste em um campo com 180 antenas de alta frequência. O objetivo é enviar ondas de rádio para estudar a ionosfera, uma camada da atmosfera situada entre 60 km e 1000 km de altitude, essencial para a transmissão de sinais de GPS e rádio. O local é aberto à visitação pública anual e seus dados são acadêmicos.
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A principal prova de que o HAARP não controla o clima é a física básica da atmosfera. O equipamento atua na ionosfera (na borda do espaço). Já o clima que vivemos – chuva, vento, nuvens e raios – acontece na troposfera, a camada mais baixa que vai do chão até cerca de 15 km de altura.
Cientistas explicam que as ondas de rádio do HAARP não têm efeito na troposfera. Além disso, a energia emitida pelas antenas é ínfima comparada à força da natureza. Um único raio de uma tempestade comum carrega mais energia do que o sistema do Alasca é capaz de produzir. Tentar criar uma tempestade com o HAARP seria como tentar ferver uma piscina olímpica usando uma lanterna de bolso.
O evento em Brasília foi causado pela termodinâmica, não por política. A capital enfrenta dias de calor intenso combinados com alta umidade. Essa é a "receita" clássica para a formação de nuvens Cumulonimbus, que podem chegar a 12 km de altura e são naturalmente carregadas de eletricidade estática.
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Não existe tecnologia capaz de direcionar uma descarga elétrica atmosférica (raio) do Alasca para o Planalto Central, muito menos com a precisão de atingir um local exato. Raios são caóticos e buscam o caminho de menor resistência para o solo, independentemente de quem esteja embaixo.
Não é a primeira vez que o HAARP é usado como bode expiatório. A mesma teoria falsa já foi usada para tentar explicar o terremoto na Turquia em 2023 e furacões nos EUA. Especialistas em desinformação alertam que essas narrativas surgem para tentar dar explicações conspiratórias a eventos naturais inevitáveis, gerando medo e engajamento político através de mentiras.