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Produzido na Mata Atlântica, bebida pode custar cerca de R$ 1.500 o quilo e é considerada uma das mais raras do mundo
A bebida integra um seleto grupo de cafés obtidos por processos naturais de digestão animal / Reprodução/Youtube/Fazenda Camocim
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O café do jacu é um dos produtos mais exóticos e caros do mercado internacional de cafés especiais. Produzido no Brasil a partir de grãos ingeridos por uma ave típica da Mata Atlântica, ele surgiu de uma situação antes vista como prejuízo para os agricultores e se transformou em um negócio sustentável e altamente valorizado.
A bebida integra um seleto grupo de cafés obtidos por processos naturais de digestão animal, ao lado do Kopi Luwak, da Indonésia, feito a partir da civeta, e do Black Ivory, da Tailândia, associado a elefantes.
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No caso brasileiro, a estrela é o jacu (Penelope obscura), ave silvestre que seleciona apenas os frutos mais maduros do cafeeiro.
Produtores de Minas Gerais e do Espírito Santo perceberam que o jacu consumia somente os frutos vermelhos, no ponto ideal de maturação. Inicialmente tratado como praga, o pássaro passou a ser visto como um “colhedor natural”, capaz de selecionar grãos de alta qualidade com precisão superior à humana.
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A partir dessa descoberta, algumas propriedades deixaram de espantar as aves e passaram a preservar o ambiente ao redor das lavouras. O resultado foi um modelo produtivo que integra conservação ambiental e agricultura.
Após ingerir o fruto inteiro, o jacu digere a polpa, enquanto o grão passa intacto pelo sistema digestivo. Durante esse processo ocorre uma fermentação natural que altera as características químicas e sensoriais do café.
Os grãos são posteriormente coletados nas fezes da ave, lavados, secos e torrados com rigoroso controle de higiene e qualidade. Por se tratar de um método artesanal e de baixa escala, a produção é limitada.
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O diferencial do café do jacu está justamente na escolha dos frutos. A ave consome apenas aqueles mais doces e maduros, descartando automaticamente os verdes ou defeituosos. Essa triagem natural garante uniformidade e alto padrão ao produto final.
O preço elevado se explica pela raridade e pelo trabalho envolvido. Cada ave produz pequenas quantidades, a coleta é manual e depende do comportamento natural dos animais, que migram e não permanecem sempre nas mesmas áreas.
Uma das produtoras mais conhecidas é a Fazenda Camocim, em Domingos Martins (ES), que já exportou o café para dezenas de países. O quilo pode chegar a aproximadamente R$ 1.500 no mercado consumidor.
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A produção concentra-se principalmente na Zona da Mata mineira e nas regiões montanhosas do Espírito Santo, onde há proximidade com áreas preservadas da Mata Atlântica.
Nessas propriedades, a manutenção do habitat natural é essencial para a presença das aves.
O modelo tem sido citado como exemplo de produção sustentável, atraindo pesquisadores e compradores internacionais interessados na combinação entre biodiversidade e agricultura de alto valor agregado.
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O café do jacu apresenta perfil sensorial distinto, com notas florais e frutadas, acidez equilibrada e doçura natural. A bebida tende a ser menos amarga e deixa um retrogosto prolongado.
As alterações químicas provocadas pelas enzimas digestivas da ave resultam em aroma complexo e refinado, o que explica sua reputação como uma das experiências mais exclusivas do universo dos cafés especiais.