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Segundo psicóloga, o excesso inicial de afeto nem sempre representa sentimentos genuÃnos; muitas vezes, esse fator pode ser utilizado como estratégia para criar dependência emocional
O excesso de carinho no inÃcio do relacionamento pode funcionar como manipulação emocional, criando dependência e dificultando que a vÃtima perceba sinais de alerta / Freepik
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Os relacionamentos tóxicos, infelizmente, são frequentes no Brasil e no mundo. Segundo um estudo do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), uma relação é caracterizada como tóxica — ou abusiva — quando há abuso verbal, emocional ou fÃsico, incluindo humilhações ou ofensas constantes.
No entanto, dentre os aspectos que integram esse tipo de experiência, há um que pode ser ainda mais perigoso: conhecido popularmente pelo termo love bombing (em inglês, "bombardeio de amor"), esta atitude consiste em manipulação emocional por intermédio de um "falso afeto".
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Em outras palavras, o vÃnculo romântico geralmente começa com doces palavras e gestos, mas isso não é à toa: o companheiro tóxico utiliza-se disso como forma de criar uma dependência emocional, "acorrentando" a vÃtima para que ela não consiga deixar a relação.Â
Segundo a psicóloga Caroline Alves, as promessas "muito rápidas" no inÃcio de um relacionamento são questões que devem exigir cautela e atenção. Ela afirma que os sentimentos intensos e acelerados podem ser utilizados como arma de love bombing futuramente.
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"O love bombing costuma se manifestar justamente por essa intensidade emocional muito rápida no inÃcio do vÃnculo. Entre os sinais mais comuns estão declarações intensas e precoces, gestos grandiosos — tanto emocionais quanto materiais —, uma idealização exagerada do parceiro e uma pressa em estabelecer compromisso ou exclusividade".
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A profissional também destaca que os gestos carinhosos, embora aparentem ser provenientes do "amor", nem sempre são autênticos. O objetivo do manipulador pode ser exatamente este: utilizar o afeto para criar uma dependência na vÃtima, confundindo-a e fragilizando sua autoestima.
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"Nesse contexto, o excesso inicial de afeto nem sempre corresponde a um sentimento genuÃno. Muitas vezes, funciona como uma estratégia — consciente ou não — para criar rapidamente um vÃnculo forte, favorecendo o desenvolvimento de dependência emocional. Essa dinâmica tende a começar com uma fase de intensa idealização e, posteriormente, evoluir para comportamentos de desvalorização e controle. Forma-se, então, um ciclo que confunde a vÃtima e dificulta o reconhecimento dos sinais de manipulação".
Embora a maioria dos casos de love bombing ocorra em relacionamentos românticos, a psicóloga explica que o comportamento pode ser notado em outros tipos de conexões, sejam elas familiares ou de amizade.
"Embora o love bombing seja mais conhecido em relacionamentos amorosos, dinâmicas semelhantes podem aparecer em outros tipos de vÃnculo, como relações familiares, amizades ou até mesmo no ambiente profissional. Essa estratégia tende a ser eficaz porque ativa necessidades humanas muito primitivas e profundas, como pertencimento, reconhecimento e afeto".
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Não há razões especÃficas que tornem uma pessoa manipuladora, de acordo com Caroline. As motivações podem depender dos cenários familiares e emocionais de cada indivÃduo.
Outra possibilidade mencionada pela psicóloga consiste em uma espécie de "mecanismo de defesa". Em outras palavras, a manipulação pode ser uma maneira de mascarar sentimentos conflituosos internos, incluindo inseguranças ou frustrações pessoais.
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"Do ponto de vista clÃnico, também podem estar presentes mecanismos de defesa como a projeção. Nesse processo, aspectos que o indivÃduo tem dificuldade de reconhecer em si mesmo — como insegurança, sentimentos de inadequação ou medo de rejeição, são atribuÃdos ao outro. Assim, a pessoa manipuladora pode passar a acusar o parceiro de comportamentos ou fragilidades que, na realidade, refletem conflitos internos que ela própria não consegue elaborar".
A psicóloga também alerta o narcisismo como um possÃvel sinal, visto que esses traços abrangem a necessidade de grandiosidade e validação.
"Em alguns casos, esse comportamento pode estar associado a traços de personalidade narcisistas, na qual o outro passa a ser percebido menos como um parceiro em uma relação e mais como uma 'fonte de admiração' ou confirmação do próprio valor".
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Esse tipo de cenário não é acaso e tem um nome na psicologia: espelhamento. Caroline explica que, nessas circunstâncias, o narcisista "espelha" sua própria imagem - que precisa de validação constante - ao da vÃtima. Todavia, ao passar do tempo, ele começa a ofendê-la para se sentir "superior".
"Um aspecto importante nesse tipo de dinâmica é o espelhamento. No inÃcio da relação, a pessoa com traços narcisistas tende a valorizar as caracterÃsticas do parceiro porque essas qualidades funcionam como um reflexo positivo para sua própria imagem. A vÃtima passa a ocupar o lugar de alguém que valida e sustenta essa identidade. Contudo, com o tempo, essas mesmas qualidades - que inicialmente despertaram fascÃnio - podem passar a gerar incômodo. Isso acontece porque elas também expõem fragilidades internas do próprio narcisista".
Entre os principais sinais de comportamentos tóxicos e manipuladores, mencionados pela psicóloga, estão:
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Outro ponto de alerta, conforme a profissional, é quando a vÃtima confunde essas atitudes como algo justificável, apresentando esperanças de que o parceiro possa , algum dia, "mudar" seu jeito de agir:
"Como a vÃtima ainda está emocionalmente conectada à lembrança da fase inicial do vÃnculo, tende a interpretar esses comportamentos como algo pontual ou justificável. Na clÃnica, é comum ouvir afirmações como: 'ele faz isso porque me ama' ou 'isso é só uma fase'. Esse padrão pode manter a pessoa vinculada à relação na expectativa de recuperar a intensidade afetiva vivida no inÃcio, favorecendo o desenvolvimento ou potencializando a dependência emocional, além de criar um ciclo emocional confuso".
Caroline ressalta inúmeros danos psicológicos ou emocionais àqueles que sofrem de love bombing. Estes englobam:
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Impacto na autoestima e percepção de valor pessoal;
Dúvida ou dificuldade em confiar em si mesmo;
Sentimentos de culpa;
Sensação de que precisa "se esforçar mais" para ser amado ou cuidado.
"Isso pode gerar insegurança, ansiedade e, em muitos casos, uma dependência emocional em relação ao manipulador, além da busca incessante em resgatar as experiências de afeto no inÃcio do relacionamento. À medida que isso não se concretiza, muitas acabam internalizando a ideia de que o comportamento do parceiro é consequência de alguma 'falha pessoal', o que aprofunda ainda mais o sofrimento psÃquico", explica a profissional.
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A psicóloga esclarece que a busca por apoio, seja familiar ou profissional, é um aspecto essencial ao quebramento de ciclos tóxicos. É importante que a vÃtima valide seus sentimentos e reestabeleça sua confiança.
"O primeiro passo costuma ser reconhecer a dinâmica da relação e validar a própria experiência emocional. Muitas vÃtimas passaram tanto tempo tendo seus sentimentos questionados que precisam, antes de tudo, recuperar a confiança em suas próprias percepções. Buscar apoio — seja em amigos, familiares ou em acompanhamento psicológico — pode ser fundamental para reconstruir a autoestima, fortalecer a autoconfiança e desenvolver limites emocionais mais claros".
Caroline finaliza dizendo que é necessário, também, dedicar tempo a si mesmo, recuperando a autonomia e senso de pertencimento:
"Também é importante retomar espaços de autonomia, interesses pessoais e vÃnculos saudáveis fora da relação. Com suporte adequado, muitas pessoas conseguem compreender os padrões que vivenciaram e desenvolver recursos emocionais para evitar que dinâmicas semelhantes se repitam no futuro".