Inimigo do fim, esse animal está no seu quintal neste momento e resiste até à radiação

Pesquisas da NASA e de universidades japonesas comprovaram a resistência fora do comum dessa espécie

Tardígrado microscópico fotografado com iluminação dramática

Tardígrado microscópico fotografado com iluminação dramática - Imagem gerada com IA / Diário do Litoral

O animal mais resistente do planeta não vive em vulcões nem em geleiras profundas. Ele mora no musgo do seu quintal, se esconde na terra úmida dos vasos de planta e nada no limo do aquário que você deixou de limpar. Esse bicho se chama tardígrado e ele desafia tudo o que a biologia ensina sobre limites.

O tardígrado mede entre 0,1 e 1,5 milímetro. Ou seja, ele é invisível a olho nu. Outras espécies microscópicas também têm chamado a atenção da ciência pelo tamanho reduzido e por hábitos surpreendentes, porém, ele carrega no corpo uma habilidade que nenhum outro animal possui em nível comparável: quando as condições ficam ruins demais, ele simplesmente desliga. Ele desidrata o próprio corpo, suspende o metabolismo e entra em um estado chamado criptobiose. Nesse modo, ele vira uma espécie de semente viva. Ele não se move, não come e não envelhece. Ele apenas espera.

E ele espera muito. Tardígrados em criptobiose já reviveram após 30 anos de desidratação total. Eles voltaram a andar, a se alimentar e a se reproduzir como se nada tivesse acontecido.

O que a ciência já fez para matar esse bicho

Pesquisadores de vários países já testaram os limites do tardígrado de forma deliberada. Eles o expuseram ao vácuo do espaço durante missões da NASA. Ele voltou vivo. Eles o submeteram a radiação ultravioleta extrema e a raios X letais para humanos. Ele sobreviveu. Eles o congelaram a menos 272 graus Celsius, próximo do zero absoluto. Ele resistiu. Eles o aqueceram a mais 150 graus Celsius. Ele aguentou.

Além disso, ele suporta pressões seis vezes maiores que as encontradas nas fossas oceânicas mais profundas. Ele também sobrevive a níveis de radiação mil vezes superiores aos que matariam um ser humano em minutos.

A NASA enviou tardígrados para a Estação Espacial Internacional em 2007. Os resultados publicados na revista Current Biology mostraram que eles resistiram à combinação de vácuo e radiação solar direta. Alguns deles até deram crias no espaço. Espécies encontradas em profundezas oceânicas também têm revelado formas de vida que desafiam o que se conhece sobre limites biológicos.

Por que ele é tão difícil de destruir

A resistência do tardígrado não vem de um único truque. Ela vem de uma combinação de fatores que a ciência ainda desvenda. O principal deles é uma proteína chamada tardigradina. Ela substitui a água nas células durante a desidratação e forma uma espécie de vidro biológico que protege as estruturas internas.

Outro segredo está no DNA. O tardígrado possui genes que permitem reparar danos causados por radiação de forma extremamente eficiente. Ele também consegue absorver genes de outras espécies, incluindo plantas e bactérias, através de um processo chamado transferência horizontal de genes. Isso amplia seu arsenal genético de sobrevivência.

Ele já existia há meio bilhão de anos. Ele passou por cinco extinções em massa que dizimaram espécies muito maiores e mais impressionantes. Dinossauros vieram e foram. O tardígrado permaneceu.

O bicho quase imortal que você pode encontrar hoje

Apesar de toda essa fama de sobrevivente, o tardígrado não é imortal. Fora da criptobiose, ele vive entre alguns meses e poucos anos, dependendo da espécie. Ele morre de velhice como qualquer outro ser. A diferença é que ele raramente morre por causas externas.

E ele está mais perto do que você imagina. Para encontrar um, basta pegar um punhado de musgo, colocar em uma tigela com água e esperar algumas horas. Com uma lupa ou microscópio simples, você pode observar esse animal que sobreviveria a uma guerra nuclear melhor do que a humanidade inteira.

Ele não é bonito. Ele tem oito patas, um corpo rechonchudo e uma boca que parece uma tromba. Mas ele carrega no corpo uma lição sobre persistência. Enquanto espécies complexas desaparecem, o simples continua. O pequeno resiste. O discreto sobrevive.

Outros animais marinhos também surpreendem pela longevidade e pela capacidade de resistir ao tempo em condições hostis.

*Fontes pesquisadas: NASA (experimentos na ISS); Current Biology; pesquisas da Universidade de Tóquio; Universidade de Harvard (estudos sobre tardigradina); Smithsonian Magazine.