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Especialistas explicam a "telefobia" e por que a falta de controle na fala transformou ligações em fonte de ansiedade para Millennials e Gen Z
Ligações telefônicas estão sendo substituídas por outras modalidades de comunicação / Freepik
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Inventados há 150 anos, os telefones se reinventaram e agora estão por toda parte, integrados nos smartphones de forma quase onipresente. Ainda assim, a maioria dos jovens evita fazer ligações telefônicas, e especialistas levantam uma potencial razão: a conversa ao vivo reduz o controle e pode gerar ansiedade.
"Sr. Watson, venha aqui, quero falar com você."
Alexander Graham Bell
A frase de Alexander Graham Bell marcou o início da ligação telefônica, que por décadas foi a forma mais direta de falar à distância, mas que agora está sendo substituída. Hoje, a comunicação se espalhou por e-mail, SMS, apps de mensagens e redes sociais. Com mais opções, o texto ganhou espaço e a chamada de voz deixou de ser a escolha automática para muita gente.
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A preferência por mensagens escritas rendeu o rótulo de "geração muda" para a Geração Z e, em alguns casos, para os millennials. Para parte desse público, ligar exige esforço e pode causar desconforto.
Pesquisadores associam o fenômeno à "telefobia", o medo de atender ou a ansiedade ao ouvir o telefone tocar. Nem sempre é grave, mas aparece como padrão em relatos de jovens.
Em pesquisa internacional da YouGov de 2023, SMS ou mensagens de texto lideraram como primeira escolha de comunicação, com 40%. Ligações por celular ficaram com 29%, e o telefone fixo somou pífios 3%.
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O recorte por idade mostra a divisão: pessoas de 18 a 24 anos tendem a preferir texto, enquanto o grupo de 55 anos ou mais aparece mais ligado às chamadas, móveis ou fixas.
"Eu diria que são principalmente os jovens que se acostumaram com grande parte da nossa comunicação ocorrendo via mensagens de texto ou mensagens de áudio", explica Lea Utz, no podcast alemão "Telephobia".
Para quem cresceu digitando, há tempo para pensar, escolher emojis e até apagar ou editar o que foi enviado. Também existe o controle do momento de ler, responder ou silenciar notificações.
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"Aqueles que cresceram com esse tipo de comunicação provavelmente o internalizaram de maneira totalmente diferente das pessoas mais velhas"
Lea Utz
Por isso, a ligação espontânea pode soar como exigência imediata do tempo do outro. Em pesquisa da Uswitch, no Reino Unido, feita em abril de 2024, 68% dos jovens de 18 a 34 anos preferiram chamadas combinadas.
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"Se você envia uma mensagem de texto, passa a sensação de: 'Você pode responder quando for melhor para você, não quero te incomodar, talvez você não esteja disponível agora'", diz Utz.
O desconforto ao telefone não aparece só entre jovens. Amit Kumar, professor assistente de Marketing e Ciências Psicológicas e Cerebrais da Universidade de Delaware, estudou expectativas sobre ligações.
Ele observou que muita gente acredita que a chamada será mais constrangedora do que a troca por texto. "As evidências que temos sugerem que não há diferenças significativas com base na idade dos participantes", disse o professor ao DW.
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Kumar também aponta um ciclo difícil de quebrar. "Se as pessoas tentarem fazer ligações mais vezes, podem ser mais precisas ao prever o constrangimento. Mas o problema é que, se elas não tentam, não aprendem."
Mesmo com a resistência, há momentos em que o telefone segue como símbolo de cuidado. A pesquisa da Uswitch indicou que 53% das pessoas de 18 a 24 anos ficariam ofendidas sem uma ligação em ocasiões importantes.
Assuntos difíceis também costumam migrar para a voz, depois que a pessoa supera a hesitação de discar. Em alguns casos, a ligação traz clareza, ritmo e menos ruído do que o texto fragmentado.
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Utz relata conversas muito pessoais, como falar com parentes distantes ou tratar de situações emocionalmente pesadas. "Acho que geralmente está claro para quem liga que isso não é algo que possa ser discutido em uma conversa de texto, por exemplo", diz ela.
Para Utz, a chamada é um "ponto ideal" para equilibrar proximidade e distância. "É uma conexão muito pessoal, mas ao mesmo tempo não é tão emocionalmente exigente quanto um encontro presencial."
O estudo de Kumar vai na mesma direção. "O que descobrimos é que as pessoas realmente formam laços significativamente mais fortes quando interagem por telefone" do que por texto. Ele afirma que o constrangimento esperado nem sempre se confirma. "Estes custos são meio imaginários. Achamos que vai ser meio estranho falar com alguém ao telefone."
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"Quando elas realmente interagem com alguém usando a voz, elas se sentem mais conectadas." E, curiosamente, chamadas de vídeo não mostraram laços mais fortes do que as de voz.