Diário Mais
Embora o termo seja ausente nas Escrituras, conceitos milenares sobre "obras da carne" e "consciência" pautam o debate teológico durante a folia
Milhares de brasileiros curtem o carnaval, mas será mesmo que a Bíblia condena a festa? / Fernando Frazão/Agência Brasil
Continua depois da publicidade
Para milhões de brasileiros, o Carnaval é a máxima expressão da cultura; para outros, um labirinto espiritual. No epicentro dessa discussão, surge o questionamento: existe condenação bíblica para quem se entrega à folia? O veredito das Escrituras é mais complexo do que um simples "sim" ou "não" e foca menos na data do calendário e mais na conduta do coração.
O primeiro fato que o leitor precisa saber é que a palavra "Carnaval" não existe na Bíblia. O termo tem origem no latim medieval carne vale ("adeus à carne"), consolidando-se apenas séculos após a escrita dos textos sagrados. No entanto, o comportamento das festas populares da Antiguidade é amplamente citado.
Continua depois da publicidade
O apóstolo Paulo, em sua carta aos Gálatas (5:19-21), apresenta o que a teologia chama de "Obras da Carne". Ele cita explicitamente a libertinagem, as bebedeiras e as orgias (do grego komos, que descrevia festas de rua desregradas). Segundo o texto, quem pratica tais atos "não herdará o Reino de Deus". Aqui, a condenação não é ao feriado, mas ao descontrole.
Diferente do que muitos pregam, a Bíblia não condena a celebração ou a dança. O rei Davi, por exemplo, dançou com júbilo diante de Deus. O ponto de ruptura bíblico é a idolatria e a perda do domínio próprio.
Continua depois da publicidade
Em 1 Coríntios 10:23, Paulo deixa um princípio de ouro para o cristão moderno no Carnaval: "Tudo é permitido, mas nem tudo convém". Para os estudiosos, isso significa que a participação em um bloco de rua, por si só, não é um passaporte para o "fogo eterno", mas o que o folião faz com sua liberdade é o que define o impacto espiritual.
Historicamente, o Carnaval herdou elementos das Saturnais romanas e das Lupercais, celebrações que envolviam o culto a divindades da fertilidade e do vinho. A Igreja Católica, sob o papado de Gregório Magno (590-604 d.C.), optou por "cristianizar" o período, transformando-o em uma despedida dos prazeres antes do jejum da Quaresma.
Muitas vertentes evangélicas e católicas conservadoras argumentam que, como a origem é pagã, a festa permanece "consagrada" a outras divindades. No entanto, em 1 Coríntios 8, a Bíblia sugere que o ídolo não é nada, e que o conhecimento da verdade liberta o homem para viver na cultura sem se corromper por ela.
Continua depois da publicidade
O julgamento bíblico sobre o Carnaval recai sobre o fruto. Se a festa produz violência, adultério, excesso de substâncias ou degradação do corpo (que é descrito em 1 Coríntios 6:19 como o "Templo do Espírito Santo"), a resposta teológica é de alerta máximo.
"O que entra pela boca não torna o homem 'impuro', mas o que sai da boca, pois vem do coração", ensinou Jesus em Mateus 15:11. Para a Bíblia, o Carnaval não envia ninguém ao fogo eterno por decreto, mas as escolhas feitas no meio da multidão podem, sim, afastar o indivíduo de seus valores espirituais.