As falhas de San Andreas e San Jacinto, no sul da Califórnia, atingiram o maior nível de estresse tectônico dos últimos mil anos. Publicado no Journal of Geophysical Research: Solid Earth, o estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade do Havaí em Mānoa, do Serviço Geológico dos EUA (USGS) e da Universidade de Berna, na Suíça.
A conclusão é direta: as duas falhas estão em um estado “criticamente carregado”. Em algumas seções, os níveis de tensão já ultrapassaram todos os picos registrados desde pelo menos o ano 1026. A energia acumulada na crosta terrestre nunca esteve tão alta em um milênio, e um terremoto de grandes proporções não é descartado.
O ‘portal de terremotos’ em Cajon Pass
Um dos achados mais relevantes do estudo é a descoberta do que os cientistas chamam de “portal de terremotos” (earthquake gate) no Cajon Pass, uma região montanhosa a nordeste de Los Angeles onde as duas falhas se encontram.
A geóloga Liliane Burkhard, da Divisão de Pesquisa Espacial e Ciências Planetárias da Universidade de Berna, liderou a equipe que usou anéis de árvores e datação de camadas sedimentares para reconstruir a atividade sísmica da região ao longo dos séculos. O modelo computacional resultante simula a acumulação e a liberação de estresse tectônico desde o ano 1026.
Segundo o estudo, se uma das falhas se romper, a energia sísmica pode se propagar para a outra através desse portal geológico. O resultado seria uma ruptura tripla, com potencial para gerar um terremoto entre magnitude 7.4 e 7.8, o mesmo patamar do terremoto que devastou as Filipinas no início de junho, deixando 19 mortos e 134 feridos, algo significativamente mais forte e abrangente do que um evento isolado.
Em entrevista à CNN, Burkhard afirmou que uma ruptura conjunta cruzando o Cajon Pass “poderia se aproximar de uma magnitude 7.4 a 7.8 e afetar uma área muito maior do que um evento de falha única”.
Por que o alerta é agora
As falhas de San Andreas e San Jacinto produziram 36 terremotos de magnitude 6,4 ou superior nos últimos mil anos. O maior deles ocorreu em 1857, com magnitude estimada em 7,9. Mas a região metropolitana de Los Angeles não registra um grande terremoto há mais de cem anos.
Esse período de calmaria, segundo os pesquisadores, não é motivo de alívio. É justamente durante esses intervalos silenciosos que o estresse tectônico continua se acumulando sem ser liberado em rupturas. O silêncio sísmico pode ter sido, como descrevem os geólogos, a calmaria antes da tempestade.
O estudo não prevê quando um grande terremoto pode ocorrer (essa ainda é uma impossibilidade para a ciência atual). Mas o novo dado sobre o nível recorde de estresse serve como alerta para que governos locais e agências de emergência revisem seus protocolos. Cidades como Los Angeles, San Bernardino e Riverside estão na área de risco direto.
The Big One
“The Big One” é o termo popular usado para se referir a um terremoto de grande magnitude (acima de 7,8) que os cientistas consideram inevitável ao longo da Falha de San Andreas, na Califórnia. Não se trata de uma previsão específica, mas de uma conclusão baseada no ciclo sísmico da região: a placa do Pacífico desliza em relação à placa Norte-Americana há milhões de anos, e a energia elástica acumulada nas rochas ao longo dos séculos precisa ser liberada em algum momento.
O USGS (Serviço Geológico dos EUA) estima que há cerca de 7% de chance de um terremoto de magnitude 8 ou maior atingir a Califórnia nos próximos 30 anos. O que torna o alerta do estudo de junho de 2026 particularmente grave é que os níveis de estresse tectônico nas falhas San Andreas e San Jacinto nunca estiveram tão altos em mil anos, e a descoberta do “portal de terremotos” no Cajon Pass sugere que, se as duas falhas se romperem juntas, o “Big One” pode ser ainda mais devastador do que os modelos anteriores previam.
O que isso significa para quem está longe da Califórnia
Embora o Brasil esteja em uma região de baixa atividade sísmica, em maio deste ano, um tremor de magnitude 3,3 foi registrado no litoral do Rio de Janeiro, próximo a Maricá.
A pesquisa mostra como a ciência moderna consegue rastrear forças geológicas invisíveis ao longo de milêniosa pesquisa mostra como a ciência moderna consegue rastrear forças geológicas invisíveis ao longo de milênios com técnicas cada vez mais precisas. A metodologia que combina anéis de árvores e datação de sedimentos é usada globalmente para entender ciclos sísmicos e refinar modelos de previsão.
Para o leitor da Baixada Santista, o estudo serve como uma janela para o avanço da geociência (e um lembrete de que regiões sob risco sísmico elevado, como a Califórnia, estão cada vez mais preparadas para responder com base em evidências científicas sólidas).
Fontes: University of Hawaiʻi at Mānoa, Universidade de Berna, Journal of Geophysical Research: Solid Earth (DOI: 10.1029/2025JB033213), USGS Earthquake Science Center, CNN, ScienceDaily, The Guardian, Live Science, BBC Science Focus.
