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Nascido do cruzamento entre o javali europeu e o porco doméstico, animal se transformou em um pesadelo ambiental e econômico quase incontrolável
Grupo de javaporcos destrói lavouras e plantações, dando prejuízos severos ao país / Imagem ilustrativa/Gemini
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Uma ameaça silenciosa e de proporções gigantescas tem tirado o sono de produtores rurais de norte a sul do país. O javaporco, um híbrido resultante do cruzamento entre o javali europeu e o porco doméstico, transformou-se em uma das espécies invasoras mais destrutivas já registradas em território brasileiro. Sem predadores naturais e com uma capacidade de reprodução impressionante, esses animais deixaram de ser apenas uma curiosidade do campo para se tornarem um verdadeiro pesadelo econômico e ambiental que avança sobre matas e lavouras.
O impacto nas lavouras é devastador e acontece com uma velocidade que impressiona até os agricultores mais experientes. Bandos de javaporcos, conhecidos como varas, invadem plantações de milho, soja e cana-de-açúcar durante a noite, pisoteando muito mais do que conseguem consumir. Em poucas horas, um grupo numeroso pode colocar a perder meses de investimento e trabalho duro. Além do prejuízo financeiro direto, esses animais carregam o risco de transmitir doenças graves para os rebanhos comerciais, o que poderia comprometer as exportações brasileiras de carne suína.
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A agressividade do javaporco não se limita aos vegetais. No ecossistema brasileiro, ele atua como um predador oportunista que desequilibra a cadeia alimentar local. Esses animais atacam ninhos de aves que fazem postura no chão, devoram pequenos mamíferos e competem diretamente por alimento com espécies nativas, como o queixada e o caititu. A presença do invasor altera até mesmo as fontes de água, já que o hábito de se revolver na lama acaba assoreando nascentes e contaminando riachos que servem de sede para a fauna brasileira original.
Diante de um cenário de descontrole, o javali tornou-se o único animal cuja caça é autorizada pelo IBAMA no Brasil, embora sob regras extremamente rigorosas e monitoradas. O termo técnico utilizado é manejo populacional, já que métodos convencionais de controle se mostraram ineficazes contra a inteligência e adaptabilidade da espécie. O debate é intenso e divide opiniões entre defensores do bem-estar animal e produtores que veem na atividade de controle a única saída para proteger suas propriedades e a própria biodiversidade nativa da extinção local.
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A maior dificuldade no combate a essa praga reside justamente na origem do javaporco. Ao se cruzar com o porco doméstico, o javali ganhou características que o tornaram ainda mais resistente. O resultado é um animal que mantém a força e a agressividade do ancestral selvagem, mas herda a alta taxa de fertilidade dos porcos de fazenda. Essa combinação genética criou um superinvasor capaz de sobreviver em diferentes biomas, do Pantanal aos Pampas, desafiando as autoridades ambientais a encontrarem soluções que vão além da força bruta para conter o avanço dessa sombra que paira sobre o interior do Brasil.