A Garoto, uma das marcas de chocolate mais queridas do Brasil, tem uma história marcada por empreendedorismo, inovação e, também, conflitos familiares.
Fundada por um imigrante alemão nos anos 1920, a empresa cresceu, lançou produtos icônicos e conquistou o país. No entanto, disputas internas entre herdeiros acabaram por fragilizar a gestão da companhia, que acabou sendo vendida para a gigante Nestlé por cerca de R$ 660 milhões.
Henrique Meyerfreund, fundador da Garoto, chegou ao Brasil em 1921 e percebeu uma oportunidade no mercado de balas, que tinha pouca concorrência e grande demanda.
Em 1928, criou a empresa H. Meyerfreund & Cia, que lançou suas primeiras balas em 1929. Elas eram vendidas por meninos, os “garotos”, em pontos de bonde, nome que acabou se consolidando como marca da empresa.
A virada veio em 1931, quando Henrique recebeu uma herança e investiu em máquinas de chocolate importadas da Alemanha. A produção, no entanto, só começou em 1936, após a liberação dos equipamentos.
A fábrica foi instalada próxima a regiões produtoras de cacau, e a empresa não demorou a lançar produtos marcantes, como o Batom e o Serenata de Amor, que atravessaram gerações. Em 1954, a Garoto inovou novamente ao lançar os primeiros ovos de Páscoa no Brasil.
Com o agravamento de uma doença, Henrique precisou se afastar dos negócios, que passaram a ser liderados por Günter Zernig, sócio e modernizador da marca.
No entanto, a tragédia bateu à porta com a morte de Günter em um acidente aéreo, deixando a empresa novamente sob a liderança da família Meyerfreund. Os filhos de Henrique, Ferdinand e Helmut, assumiram a frente da companhia, que atingiu o auge em 1987 ao se tornar líder no mercado brasileiro de chocolates.
O declínio começou quando a terceira geração das famílias envolvidas assumiu o controle. Os constantes desentendimentos entre Klaus e Mônica (filhos de Günter Zernig), Victor (filho de Helmut) e Paulo (filho de Ferdinand) geraram instabilidade e prejudicaram a gestão.
Em uma reunião tensa no fim dos anos 1990, Helmut foi destituído da presidência por Klaus e Paulo, o que agravou ainda mais a crise interna.
Com o desgaste das relações e a dificuldade em manter a empresa competitiva, a família decidiu vender a Garoto em 2001.
No ano seguinte, a Nestlé fechou a compra por cerca de R$ 660 milhões, com o banco Merryl Lynch coordenando o processo. A fusão criaria uma gigante com mais de 58% de participação no mercado nacional de chocolates, o que levou o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) a bloquear a operação em 2004.
A Nestlé recorreu à Justiça, iniciando uma batalha legal que durou impressionantes 21 anos. Durante esse período, a multinacional suíça investiu na Garoto, mas não pôde integrar completamente suas operações.
Somente em 2023, o CADE aprovou a aquisição definitiva, impondo restrições para preservar a concorrência no setor.
